Múltiplas Vozes 16/07/2026

O ALGORITMO DO ÓDIO: A COOPTAÇÃO DIGITAL E O EXTREMISMO VIOLENTO NAS ESCOLAS

A circulação de conteúdos violentos e ideologias extremistas na internet representa um grave risco para a segurança dos jovens e para a convivência social

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Zaryff Said de Lima

Major da Polícia Militar do Pará e mestranda do Programa de Pós-graduação em Segurança Pública (PPGSP) da UFPA

Cesar Mauricio de Abreu Mello

Doutor em Ciências e professor do PPGSP/UFPA

Historicamente a escola é vista como um refúgio para socialização e aprendizagem, porém tem enfrentado um fenômeno que envolve as autoridades de segurança pública, educadores e famílias: atiradores ativos juvenis. No Brasil, o que antes era considerado um problema isolado passou a ser uma realidade crescente e latente. Entre 2001 e 2024, houve um aumento alarmante no número de ataques a instituições de ensino, com a maioria das ocorrências registradas nos últimos dez anos. O perfil dos autores é recorrente: crianças e adolescentes, em sua maioria do sexo masculino, que agem motivados por uma subcultura de ódio gestada nas camadas profundas da internet.

Diferente do crime organizado tradicional, que opera sob a lógica do lucro e do domínio territorial, esse novo extremismo violento busca o “espetáculo da dor”. O processo de radicalização é alimentado por mecanismos sofisticados de cooptação em plataformas digitais, fóruns anônimos e até dentro de chats de jogos on-line aparentemente inofensivos. O jovem, que enfrenta quadros de sofrimento mental, bullying ou sensação de isolamento social, encontra nesses grupos um senso de pertencimento distorcido e uma narrativa que justifica suas frustrações por meio da violência extrema.

A cooptação no ambiente digital acontece de forma escalonada. A princípio, o jovem se sente atraído por materiais que empregam o humor para banalizar preconceitos, como a misoginia, o racismo e a transfobia. Os centros de treinamento ideológico e tático incluem plataformas como Discord e Telegram, bem como fóruns anônimos conhecidos como “chans”. O que começa como um “meme” ou uma piada de humor ácido evolui rapidamente para o consumo de manifestos de atiradores anteriores, vídeos de massacres e manuais técnicos de fabricação de artefatos explosivos.

Um componente central dessa dinâmica é a gamificação da violência. Nessas comunidades, os ataques às escolas são discutidos como se fossem níveis de um jogo. Há uma contagem de “pontos” baseada no número de vítimas, e os agressores são incentivados a superar os recordes de seus “predecessores”. O adolescente em crise é transformado em um “soldado” nessa estrutura, na qual sua própria morte ou a alheia é vista como o troféu final.

O papel dos algoritmos de recomendação é crucial e pernicioso. Quando as redes sociais, por meio dos algoritmos, identificam o interesse do jovem por determinados assuntos, começam a fornecer conteúdos cada vez mais radicais, criando uma “bolha de realidade” na qual a violência parece ser a única resposta aceitável. O jogo on-line torna-se uma ferramenta de recrutamento empregada por veteranos de comunidades extremistas para identificar perfis vulneráveis a fim de “mentorá-los”. Nesses espaços, o atirador ativo é glorificado, sendo criada uma linhagem de violência que se retroalimenta através da replicação de comportamentos.

Estatísticas coletadas por institutos de pesquisa e órgãos de inteligência indicam que cerca de 77% dos autores de ataques a escolas no Brasil eram menores de 18 anos na data do crime. Outro dado alarmante, extraído de relatórios do próprio Fórum Brasileiro de Segurança Pública e de grupos de trabalho interministeriais, aponta que em quase 70% dos casos recentes havia evidências claras de interações em comunidades virtuais de ódio antes da execução do ato.

Além disso, observa-se que o tempo médio de radicalização (o intervalo entre o primeiro contato com o conteúdo extremista e a execução ou tentativa do ataque) tem diminuído devido à facilidade de acesso a conteúdos instrucionais. A posse de armas de fogo por familiares ou o acesso facilitado a armas brancas e simulacros também aparecem como facilitadores logísticos em mais de 60% das ocorrências registradas no território nacional.

Diferente do atirador que escolhe alvos específicos por uma vingança pessoal direta, o atirador ativo moderno busca a letalidade indiscriminada. O objetivo é causar o maior dano possível para gerar engajamento nas comunidades digitais que o incentivaram. A dinâmica do ataque é desenhada para ser transmitida ou registrada, garantindo a “imortalidade digital” do agressor nos fóruns extremistas.

Portanto, a prevenção eficaz deve se fundamentar em três eixos integrados:

Monitoramento e Inteligência Cibernética: é essencial o fortalecimento dos órgãos de inteligência dedicados ao monitoramento de grupos de radicalização, com uma colaboração internacional mais intensa. A legislação brasileira precisa ser mais ágil para exigir que as Big Techs atuem na moderação rigorosa e na remoção imediata de conteúdos que façam apologia a massacres escolares.

Fortalecimento da Rede de Proteção: é fundamental que a escola esteja integrada ao Conselho Tutelar e ao sistema de saúde voltado para a saúde mental. O reconhecimento de sinais de alerta, como o isolamento repentino, a obsessão por armas e a alteração do vocabulário para termos técnicos de subculturas extremistas devem resultar em acolhimento e ações antes que os pensamentos evoluam para um plano.

Alfabetização Digital para Famílias: Muitos responsáveis não possuem conhecimento do que seus filhos têm acessado nas plataformas de conversa privada. É necessário habilitar a sociedade civil para compreensão de que o perigo digital não é apenas o “estranho” que pede fotos, mas o “grupo de amigos” que incentiva o ódio sistêmico.

Os ataques às escolas cometidos por jovens recrutados online não representam apenas uma falha de segurança, mas também um reflexo de uma sociedade que ainda não aprendeu a mediar a fronteira entre o real e o virtual na formação dos jovens. O atirador ativo é o produto de uma linha de montagem de ódio que opera 24 horas por dia nas mãos de qualquer jovem com acesso a um smartphone. Romper essa engrenagem exige a presença do Estado, da escola e da família nos territórios digitais. Somente com uma abordagem multidisciplinar e colaborativa poderemos devolver à escola o seu papel de espaço seguro e de futuro.

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