Múltiplas Vozes 01/07/2026

Muito antes da morte: como a produção de evidências busca a prevenção do feminicídio no Distrito Federal

Dados produzidos pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal evidenciam que existe ampla violência invisibilizada e naturalizada, tanto pelas vítimas quanto pela sociedade, constituindo ambiente propício para a escalada da violência letal

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Daniele de Sousa Alcântara

Doutora em Sociologia pela UnB. Pesquisadora do Psitrafem/UnB e Nevis/UnB. Major da PMDF. Membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

Quando uma mulher é vítima de feminicídio, o Estado registra mais um crime consumado. Entretanto, o feminicídio raramente começa no momento da morte. Ele representa, na maioria das vezes, o desfecho de um processo contínuo de violência marcado por controle, ameaças, isolamento, agressões sucessivas e naturalização das desigualdades de gênero. O verdadeiro desafio das políticas públicas, portanto, não é apenas responder ao crime consumado, mas desenvolver capacidade institucional para identificar, compreender e interromper esse percurso antes que ele alcance seu resultado mais extremo.

Essa capacidade depende, antes de tudo, da produção permanente de informações qualificadas. Nesse contexto, a publicação da segunda edição do Anuário de Segurança Pública do Distrito Federal (SSPDF, 2026) representa um importante avanço para a consolidação de uma cultura de governança da informação na segurança pública. Além das estatísticas criminais, o Anuário organiza séries históricas, indicadores e análises capazes de transformar registros administrativos em conhecimento estratégico para gestores públicos, pesquisadores e sociedade. Em um cenário no qual decisões precisam ser cada vez mais orientadas por evidências, produzir informações confiáveis torna-se condição indispensável para prevenir a violência e avaliar políticas públicas.

No caso dos feminicídios, a segunda edição do Anuário evidencia que, embora o número absoluto de ocorrências apresente oscilações ao longo dos anos, permanecem relativamente constantes aspectos fundamentais do fenômeno, como o vínculo entre autor e vítima, a predominância dos crimes no ambiente doméstico e a existência de histórico prévio de violência. Esses padrões demonstram que o feminicídio dificilmente é um evento imprevisível. Ao contrário, costuma ser precedido por sinais que podem ser identificados quando diferentes instituições compartilham informações e desenvolvem capacidade analítica para compreender fatores de risco.

Contudo, compreender apenas o momento do crime não é suficiente. Pesquisa inédita conduzida pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF, 2026), que apresenta o panorama da violência contra a mulher no DF, revelou que 77,6% das mulheres entrevistadas relataram ter vivenciado alguma forma de violência ao longo da vida. Ainda mais preocupante é o fato de que muitas delas não reconhecem essas experiências como violência. Entre mulheres que afirmaram nunca ter sofrido agressões praticadas por parceiro íntimo, parcela expressiva descreveu situações objetivamente compatíveis com violência psicológica, moral, física, patrimonial ou sexual. Esses resultados evidenciam que existe uma ampla violência invisibilizada e naturalizada, tanto pelas vítimas quanto pela sociedade, constituindo um ambiente propício para a escalada da violência letal.

Os dados reforçam que prevenir feminicídios exige ampliar o olhar para além dos registros policiais. Pesquisas de vitimização, estudos de percepção social e indicadores de vulnerabilidade permitem compreender fenômenos que permanecem ocultos nas estatísticas criminais tradicionais. Em outras palavras, o feminicídio não nasce no boletim de ocorrência, mas em relações marcadas por sucessivas formas de violência que, muitas vezes, permanecem invisíveis às instituições públicas.

Outro aspecto inovador desenvolvido no Distrito Federal consiste na produção sistemática de estudos sobre os autores de feminicídio. Durante décadas, a literatura concentrou-se, legitimamente, na proteção às vítimas. Entretanto, compreender as trajetórias dos agressores também constitui uma estratégia essencial para a prevenção. Estudos da Câmara Técnica de Monitoramento de Homicídios e Feminicídios/SSPDF, aliados às pesquisas do IPEDF sobre masculinidades e percepções dos homens, demonstram que processos de socialização masculina, experiências familiares, concepções sobre papéis de gênero e formas de resolução de conflitos influenciam significativamente a construção das violências que culminam no feminicídio. Compreender esses fatores não significa relativizar responsabilidades individuais, mas ampliar a capacidade do Estado de atuar preventivamente sobre fenômenos sociais complexos.

Essa perspectiva rompe com interpretações que reduzem o feminicídio a episódios isolados ou impulsivos. Ao contrário, evidencia que a violência letal contra mulheres resulta de processos cumulativos, sustentados por desigualdades de gênero, controle sobre a autonomia feminina e naturalização de práticas violentas nas relações afetivas. Quanto mais cedo esses processos forem identificados, maiores serão as possibilidades de intervenção.

Nesse cenário, o principal diferencial do Distrito Federal não está nos números, mas no método adotado para compreendê-los. Há um objetivo pela articulação entre estatísticas oficiais, produção científica, inteligência analítica e cooperação interinstitucional para políticas públicas orientadas por evidências e que possam ampliar significativamente a capacidade estatal de prevenir violências. Instrumentos permanentes de produção de conhecimento, como o Anuário de Segurança Pública do Distrito Federal, deixam de ser meras publicações estatísticas para assumirem papel estruturante na governança da segurança pública. Sua continuidade fortalece a transparência, aperfeiçoa a avaliação das políticas implementadas e consolida uma memória analítica indispensável para compreender a evolução dos fenômenos criminais e orientar decisões estratégicas.

Cada feminicídio representa uma tragédia irreparável para famílias e comunidades. Mas representa também uma oportunidade de aprendizado institucional. As evidências produzidas no Distrito Federal indicam que prevenir o feminicídio depende menos da capacidade de reagir após a morte e muito mais da capacidade de enxergar, por meio da informação qualificada e da integração entre instituições, a violência que permanece invisível muito antes dela acontecer.

 

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