Múltiplas Vozes 04/10/2023

Entre Altos e Baixos: a questão da Segurança Pública no ranking dos principais problemas brasileiros

A preocupação com a segurança é um tema premente, mas uma observação mais detalhada indica que a centralidade desse problema como o principal do país oscila consideravelmente ao longo do tempo

Compartilhe

Ariadne Natal

Doutora em sociologia pela USP, pesquisadora de pós-doutorado do Peace Research Institute Frankfurt (PRIF)

Em setembro de 2023, o Instituto Datafolha conduziu uma pesquisa nacional de opinião visando avaliar a gestão do governo federal. Durante esse estudo, 2.016 brasileiros foram questionados acerca do que consideravam ser o principal problema do país. De acordo com os resultados publicados no site oficial do instituto, a violência, segurança pública e atuação policial surgem como preocupações predominantes. Aproximadamente 17% dos participantes elegeram esses como seus principais pontos de preocupação, em consonância com a saúde (17%), educação (11%), desemprego (9%), economia (8%) e corrupção (6%).

A análise demográfica dos respondentes revela que a preocupação com segurança, violência e atuação policial é amplificada entre indivíduos mais idosos, mulheres, pessoas com menor grau de escolaridade, aposentados, donas de casa, autodeclarados pretos, e residentes da região Nordeste e áreas metropolitanas. Essas tendências convergem com estudos anteriores sobre medo e percepção criminal, nos quais variáveis como gênero, idade, raça, condição socioeconômica e urbanização intensificam sentimentos de vulnerabilidade e impotência diante do crime, realçando a dificuldade de minimizar os riscos de vitimização pessoal ou familiar.

É importante destacar que, de maneira geral, as preocupações relacionadas à violência e criminalidade urbana frequentemente ecoam angústias difusas e subjetivas, que não necessariamente refletem fielmente a realidade objetiva. Contudo, embora percepções subjetivas não sejam um retrato fiel das dinâmicas cotidianas e dos dados objetivos de criminalidade, elas exercem influência direta na qualidade de vida e nas decisões diárias dos cidadãos e, por isso precisam ser consideradas.

No retrato atual, a preocupação com a segurança é um tema premente, mas uma observação mais detalhada indica que a centralidade desse problema como o principal do país oscila consideravelmente ao longo do tempo. Tal dado é levantado pelo Datafolha a partir da seguinte questão: “Considerando as áreas que são de responsabilidade do governo federal, na sua opinião qual é o principal problema do país hoje?”. O instrumento de coleta permite respostas abertas espontâneas, de maneira que captura tanto inquietações momentâneas – influenciadas por crises recentes ou eventos de grande repercussão – quanto percepções mais consistentes sobre quais são os problemas estruturais do país.

Uma estratégia para avaliar a consistência e as flutuações das respostas a esta questão envolve analisar suas tendências temporais. O gráfico[1] abaixo apresenta a evolução da série histórica das 6 respostas mais comuns[2] para a questão a respeito dos principais problemas do país. Seus dados revelam variações significativas, com prioridades se alternando ao longo dos anos.

Ao analisar as respostas mais recorrentes identificamos um conjunto predominante de preocupações associadas a serviços públicos: saúde, segurança e educação[3]. Combinadas, elas compõem o cerne das respostas na maior parte dos anos. Em sequência, um segundo eixo de respostas emerge, composto por problemas materiais e que refletem sobretudo crises econômicas, como desemprego, fome e miséria. A corrupção, por sua vez, é um terceiro elemento que ganha relevância no contexto de denúncias de corrupção e principalmente no auge da Operação Lava-Jato, mas encontra um ponto de inflexão e perde relevo a partir de 2019.

Uma observação preliminar nas oscilações permite levantar a hipótese de que o núcleo de preocupações relacionados a serviços públicos é flexível e propenso a encolher diante de crises e contextos específicos, mas ao mesmo tempo é resiliente e tende a recuperar sua posição de centralidade quando as demais questões emergenciais passam por algum tipo de contingenciamento ou equacionamento, ainda que momentâneo.

No que se refere especificamente ao nosso principal tema de interesse, a preocupação com Violência, Segurança e Polícia observa-se que sua preocupação oscilou entre 3% e 20% ao longo dos anos. Notadamente, essa preocupação foi atenuada durante momentos de instabilidade política-institucional e durante a epidemia de COVID-19. Notadamente entre os anos de 2015 e 2019, há elementos que permitem conjecturar haver uma alternância entre as preocupações com corrupção e segurança pública, indicando uma possível transição da atenção pública de uma temática para outra e uma consequente migração na pesquisa.

Os dados da pesquisa Datafolha de 2023 recolocam temas relacionados à violência e segurança e polícia no epicentro das preocupações nacionais. Contudo, uma retrospectiva de edições anteriores evidencia a complexidade e o caráter dinâmico das percepções do público brasileiro sobre os desafios e dificuldades do país. Embora a pesquisa capture muitas perspectivas subjetivas e influenciadas por contextos volúveis, na série histórica é possível verificar que ela reflete tanto conjunturas imediatas quanto desafios estruturais e de longo prazo que acabam voltando à centralidade. Observar e compreender essas nuances é fundamental não apenas para decifrar o sentimento nacional, mas também para orientar e formular estratégias que abordem tais preocupações em busca de respostas duradouras.

[1] Interessante destacar que, embora os serviços destas áreas não sejam primordialmente ofertados pelo poder executivo federal, são frequentemente percebidas pela população como problemas de responsabilidade deste nível de governo, a quem atribuem a tarefa de mitigá-los.
[2] Para os anos nos quais o Datafolha realizou múltiplas ondas da pesquisa, selecionamos para o gráfico a coleta mais próxima ao meio do ano.
[3] Embora as seis respostas mais frequentes tenham diminuído sua representatividade geral nos últimos quatro anos com o surgimento de outras temáticas emergentes, como política, gestão e meio ambiente, nesta análise vamos nos ater a elas devido à sua consistência histórica.

Newsletter

Cadastre e receba as novas edições por email

Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

EDIÇÕES ANTERIORES