Márcio Santiago Higashi Couto
Coronel da Reserva da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Bacharel, mestre e doutor em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Publica pelo Centro de Altos Estudos em Segurança (CAES). Mestre em Segurança Internacional e Defesa pela Escola Superior de Guerra (ESG) e doutorando em Psicologia da Saúde pela Universidade Metodista do Estado de São Paulo (UNIMESP)
Tirar a própria vida. Esse ato extremo, o suicídio, pode ser considerado como um trágico desfecho de uma trajetória, por vezes longa, que visa a colocar fim a um intenso sofrimento psíquico. Shneidman (1996), considerado o pai da “Suicidologia”, afirma, em sua obra, que o suicídio é a busca desesperada para dar fim a uma dor mental insuportável. Ele ainda ressalta que a ambivalência, entre escolher viver ou morrer, entre continuar sofrendo e encerrar esse sofrimento, é uma característica do suicídio.
Embora o suicídio esteja, nos dias de hoje, em grande evidência e se observe aumento no número de casos, o problema vem sendo estudado há muito tempo. Em 1897, no seu livro “O Suicídio”, o aclamado “Pai da Sociologia”, Durkheim (1982, p.15), assim definia o suicídio:
Chama-se suicídio todo caso de morte que resulta direta ou indiretamente de um ato positivo ou negativo praticado pela própria vítima, ato que a vítima sabia produzir esse resultado. A tentativa de suicídio é o ato assim definido, mas interrompido antes que dele resulte a morte
Freud (1974) abordou o suicídio em duas obras: “Contribuições para uma discussão acerca do suicídio”, de 1910, e “Luto e Melancolia”, de 1917. Ele descreve que esse desejo de morrer, antes de ser um desejo de aniquilação, é um conflito psíquico profundo, causada pela melancolia (depressão grave).
A Organização Mundial de Saúde – OMS, afirma, em seu site na internet, que mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio, todos os anos, no mundo, e que esta é a terceira principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. Para cada morte confirmada por suicídio, haveria pelo menos cinco tentativas que não se concretizaram.
Segundo a OMS, as causas para o suicídio seriam multifacetadas, influenciadas por fatores sociais, culturais, biológicos, psicológicos e ambientais, presentes ao longo da vida. E que cerca de 73% desses suicídios ocorreriam em países de baixa e média renda.
A OMS afirma que o suicídio é um grave problema de saúde pública e que proporcionalmente morrem, no mundo todo, mais pessoas vítimas de suicídio do que de homicídio. No entanto, a OMS diz que o suicídio, por meio de intervenções oportunas que sejam baseadas em evidências e, muitas vezes, de baixo custo, pode ser evitado.
Ainda de acordo com a OMS, embora doenças mentais sejam associadas ao suicídio, muitos casos ocorrem impulsivamente, em um momento de crise, com uma perda na capacidade da pessoa para lidar com o estresse da vida, como problemas financeiros, conflitos de relacionamento, dor ou doenças crônicas. Além disso, vivenciar violência, abusos ou perdas, bem como um sentimento de isolamento, constituem fatores fortemente associados ao comportamento suicida.
O Ministério da Saúde do Brasil contabilizou em 2024 um número recorde de 16.446 suicídios no país, o que o colocaria em oitavo lugar no ranking mundial de suicídios. Houve, no Brasil, um crescente aumento no número de casos, passando de 9.454, em 2010, para 15. 507, em 2021, segundo dados do DataSUS. Estima-se que cerca de 40 pessoas tirem a própria vida no Brasil por dia.
Segundo o Anuário de Fórum Brasileiro de Segurança Pública – FBSP, em 2023, cerca de 112 policias da ativa, entre civis e militares, suicidaram-se no Brasil. Isso significa um aumento de 31,76% na comparação com 2022. Morreram mais policiais por suicídio do que em confronto com criminosos. A Polícia Militar do Estado de São Paulo registrou, em 2023, o suicídio de 43 policiais militares do serviço ativo, o maior número em 11 anos.
O FBSP aponta como principais causas para o suicídio de policiais militares no Brasil múltiplos fatores que se associam entre si, como os sociais, os ocupacionais, os organizacionais e os individuais, entre eles estresse e pressão do trabalho, exposição contínua á violência, falta de reconhecimento e baixos salários, estrutura rígida e apoio emocional e psicológico insuficiente. Isto faz com que seja muito maior a probabilidade de um policial militar cometer suicídio do que uma pessoa comum o faça.
Além disso, uma cultura interna e uma imagem externa levam o policial militar a acreditar que ele é mais resistente do que a maioria das pessoas a fatores como cansaço, fome, sede, frio ou calor, dormindo menos, alimentando-se mal e se expondo, às vezes desnecessariamente, a condições ambientais insalubres, além de ter que demonstrar ser “durão”, escondendo sentimentos como solidão, tristeza, medo ou raiva.
Tudo isso debilita a saúde mental do policial militar, podendo leva-lo a ideação suicida, como única saída viável para acabar com seu sofrimento.
Nos últimos anos, devido ao aumento do número de casos de suicídios entre seus integrantes, as Polícias Militares Estaduais no Brasil têm voltado sua atenção ao assunto.
Citando o caso da Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP), através da Lei Estadual número 9.628, de 6 de maio de 1997, foi criado o Sistema de Saúde Mental na Polícia Militar do Estado de São Paulo, subordinado à Diretoria de Saúde. O objetivo é cuidar do bem-estar biopsicossocial dos policiais militares, bem como assistir aos acometidos de transtorno mental.
Só em 23 de agosto de 2001 essa lei foi regulamentada, através do Decreto Nº46.039, sendo instituído o Sistema de Saúde Mental (SISMEN), integrando a parte psiquiátrica do Centro Médico do Hospital da Polícia Militar e a parte psicológica do Centro de Assistência Social, Psicológica e Jurídica – CASJ.
Além da atuação de médicos psiquiatras que fazem parte do corpo médico da PMESP, existe a atuação de policiais militares formandos em psicologia, que atuam em atendimentos. No entanto, para um efetivo aproximado de 75 mil homens e mulheres, um quadro de cerca de três psiquiatras e cerca de cento e vinte psicólogos tem se mostrado insuficiente.
Por esses motivos, é necessário mensurar o número de suicídios entre policiais militares no Brasil e estabelecer a relação com o número de suicídios na população em geral. Desta forma, seria possível mostrar a gravidade do problema e embasar formas de tratamento de saúde mental dos policiais miliares e da prevenção ao suicídio.
A estatística descritiva e os métodos inferências são o caminho para a comprovação científica para demonstrar a gravidade da situação que leva os policiais militares a ter uma média maior de suicídios do que o restante da população, pois, além de apresentarem os mesmos problemas financeiros, familiares, de relacionamento e de saúde mental que qualquer pessoa pode ter, são atingidos por problemas típicos da profissão.
Com base nos dados pesquisados e analisados estatisticamente, será possível esclarecer qual a gravidade da situação e direcionar políticas públicas e institucionais para o tratamento da saúde mental dos policiais militares no Brasil, e para a prevenção, detecção e tratamento da ideação suicida desses profissionais.
Estatística descritiva e compreensão de fenômenos sociais
Período, população e amostra
O período a ser estudado é de 2018 a 2024, ano a ano. Iremos comparar com a população total brasileira, de cerca de 213,4 milhões de habitantes (IBGE, 2025) com a amostra do número de policiais militares, de aproximadamente 405 mil pessoas (FBSP,2026).
Outro dado é o número de pessoas no geral que cometeram suicídio no Brasil, entre 2018 e 2024, com aproximadamente (estimativa) 105.251 pessoas, e a amostra de 569 Policiais Militares que cometeram suicídio no mesmo período.
| Ano | 2018 | 2019 | 2020 | 2021 | 2022 | 2023 | 2024 | Total |
| População | 13467 | 13523 | 13854 | 15507 | 16000* | 16300* | 16600* | 105251* |
| PMs | 67 | 69 | 52 | 78 | 85 | 112 | 106 | 569 |
*Estimativas baseadas em tendências e dados parciais do Ministério da Saúde.
Em 2018, a proporção de suicídio de PMs foi de 0,50% do número de suicídios da população em geral. Em 2019 esta proporção foi de 0,51%. Em 2020 houve uma queda na proporção de PMs que cometeram suicídio, ficando em 0,38%. Em 2021, novamente o número de suicídio de PMs chegou a 0,50% do total geral. No ano de 2022 esse número foi de 0,53%. Em 2023, subiu para 0,69% e em 2024 a proporção foi de 0,64% de suicídio de PMs, em relação à população em geral.
A Proporção, no período analisado, entre o número de suicídios da população em geral (aproximadamente 105251) e o número de suicídios entre Policiais militares (569) foi uma média de 0,54%.
Para analisar os dados de suicídios no Brasil (População Geral vs. Policiais Militares) entre 2018 e 2024, utilizaremos as ferramentas da estatística descritiva:
Média, mediana e moda
No período (2018-2024), a média de suicídios, na população em geral, foi de 15.035,8 por ano, enquanto a média de suicídios de policiais militares por ano foi de 81,3.
No mesmo período, a mediana foi de 15.507 (valor central da série) para suicídios na população em geral, e de 78 (valor central da série) para suicídio de Policiais Militares. A série é amodal para ambas as amostras.
- Variabilidade e Dispersão
Indicam o quanto os números oscilaram ao longo dos sete anos. Na amplitude (diferença entre o maior e menor valor): na população em geral: 3.133 casos de variação. No número de suicídio entre policiais militares: 60 casos de variação (de 52 em 2020 para 112 em 2023).
O Desvio Padrão (grau de dispersão em relação à média): população em geral: ~1.345 (indica um crescimento constante e linear). E com relação aos policiais militares: ~21,4 (indica uma volatilidade alta, com saltos bruscos a partir de 2021).
- Coeficiente de Variação (CV)
O CV dos PMs (~26%) é maior que o da população geral (~9%), o que mostra que o fenômeno entre policiais é menos estável e sofreu picos mais agressivos.
- Taxa de probabilidade de um policial militar cometer suicídio com relação a população em geral:
Com base nos dados apresentados, ao calcularmos as taxas por cem mil habitantes temos:
Suicídio da população em geral no Brasil: 15.035,8 (média de casos) dividido por 210 milhões (população brasileira) multiplicado por 100 mil, temos, aproximadamente, 7,6 mortes por 100 mil habitantes.
Suicídio de policiais militares: 81,3 (média de casos) dividido por 405 mil (efetivo de policiais), multiplicado por 100 mil temos aproximadamente 20,07 mortes por 100 mil policiais.
Dividindo-se então a taxa de suicídio de policiais (20,7), pela taxa de suicídio da população em geral (7,6), podemos afirmar que a probabilidade de um policial militar cometer suicídio é aproximadamente 2,8 maior do que uma pessoa comum.
Interpretação de Indicadores Sociais
Enquanto o suicídio na população geral cresceu 23% (2018-2024), entre os PMs o salto foi de 58%. Isso indica que o ambiente institucional da polícia é um fator de risco isolado.
Indicador de Eficiência Institucional: O fato de o suicídio matar mais policiais do que o crime (confronto) sinaliza que as políticas de saúde ocupacional nas corporações são ineficazes ou insuficientes.
Conexão com o projeto de pesquisa do autor
Esta análise estatística é essencial para meu projeto de pesquisa no Doutorado em Psicologia da Saúde na UMESP com o tema “A PREVENÇÃO, DETECÇÃO E O TRATAMENTO DA IDEAÇÃO SUICIDA NA POLÍCIA MILITAR DO ESTADO DE SÃO PAULO”, para embasar a gravidade do grande número de policiais militares que se suicidam no Brasil, ao comparar as taxas de suicídio desses profissionais com as taxas de suicídio da população brasileira e a alarmante tendência de aumento desses números.
A metodologia a ser utilizada é a análise quantitativa dos dados coletados, sem entrar na subjetividade humana, de causas dos suicídios ou variáveis como sexo, idade, condição social ou econômica ou nível de instrução. A correlação será feita utilizando-se os números disponíveis sobre suicídio. A partir desses números, que demonstram a proporção estatística, devem ser feitos estudos complementares qualitativos, buscando responder a relações de causa e efeito.
No caso dos policiais militares, é necessário analisar as variáveis relacionadas a grau de hierarquia, tempo de serviço, tipo de função (administrativa ou operacional), sexo e outras informações relativas a atividade policial.
Estatística e desenvolvimento humano sustentável
Essa análise estatística pode sustentar políticas públicas e políticas organizacionais que estimulem a proteção da saúde mental dos policiais militares, demonstrando a necessidade de olhar o problema com uma visão mais apurada, procurando identificar as causas de estresse e adoecimento mental desses profissionais, buscando detectar fatores que levem à ideação suicida e promover tratamento adequado para esse problema, procurando prover uma melhor qualidade de vida e um desenvolvimento humano sustentável adequado.
Reflexão crítica
Os números sobre suicídio encontram problemas com relação a subnotificação, pois muitas mortes decorrentes de autoextermínio podem ser registradas, de forma errônea, como mortes acidentais, de pessoas que morrem em acidentes de trânsito ou se afogam ou caem de grandes alturas. Por não haver uma correta investigação, esses suicídios podem ser registrados como mortes acidentais.
Da mesma forma, os registros oficiais sofrem muitas alterações, pois a inserção de dados dos casos, em alguns municípios e estados, ainda é manual, havendo distorções e correções frequentes, tanto é que o próprio DataSUS traz, nos anos de 2022, 2023 e 2024, um número aproximado de casos de suicídios, havendo discrepâncias quanto ao número exato de casos.
Conclusão
Esta pesquisa é relevante para comprovação científica do sério problema que afeta policiais militares no Brasil, fazendo com que esses profissionais tenham maior probabilidade de cometerem suicídio do que a população brasileira no geral.
O suicídio na população geral cresceu 23% (2018-2024), enquanto que, entre os policiais militares, o salto foi de 58%. Isso indica que o ambiente institucional da polícia é um fator de risco isolado, que deve ser analisado para que se entenda os problemas que levam a esse adoecimento mental e levam esses profissionais a terem 2,8 vezes mais probabilidade de darem fim à própria vida do que o cidadão comum.
Esses dados estatísticos devem dar subsídios para estudos mais amplos que sejam qualitativos e abordem outras variáveis específicas da vida e do trabalho dos policiais militares, para serem estabelecidas políticas públicas e organizacionais, para cuidar do bem estar e da saúde mental desses profissionais, prevenindo, detectando e tratando o ideário suicida.

