Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 02/09/2026

Tráfico de Pessoas: Um crime invisível diante de redes criminosas cada vez mais digitais

O tráfico de pessoas se reinventa em ambientes digitais e se conecta a outras modalidades de criminalidade enquanto as instituições ainda enfrentam dificuldades para identificar vítimas, integrar informações e transformar denúncias em investigações. O resultado é um crime que permanece parcialmente invisível justamente quando suas formas de atuação se tornam mais sofisticadas

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Aliandra Klützke

Gerente de Educação da The Exodus Road Brasil e especializada em Políticas de Atenção à Criança e ao Adolescente

Anália Belisa Ribeiro

Psicóloga. Mestre e doutora pela Universidade de São Paulo (USP). Pós-doutorado na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e na University of California Santa Cruz (UCSC)

Ana Luiza Paro Mattiuzo de Conto

Pós-graduada em Direito Processual Penal pela Escola Superior da Magistratura Federal (ESMAFE) e Coordenadora Voluntária do time Jurídico da The Exodus Road Brasil

Cintia Meirelles

Diretora da The Exodus Road Brasil, mestre em Estudos Interculturais pela Trinity e membro do Human Trafficking Expert Group da INTERPOL

Fernanda Melo

Advogada da Clínica de Trabalho Escravo e Tráfico de Pessoas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e mestre em Direito pela UFMG

Pela primeira vez, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública dedicou uma análise específica ao tráfico de pessoas no Brasil. O texto evidencia um crime cuja dimensão ainda é difícil de mensurar. A dificuldade de identificação das vítimas, a subnotificação e os obstáculos de acesso aos canais de denúncia fazem com que parte dos casos permaneça fora das estatísticas. Essa invisibilidade, porém, não significa ausência do crime: enquanto muitas vítimas não conseguem ou não se reconhecem em condições de denunciar, as redes criminosas se sofisticam e incorporam novas tecnologias.

Os dados disponíveis indicam, ainda assim, uma ampliação da capacidade institucional de identificar o fenômeno. Entre 2017 e 2025, as notificações de tráfico de pessoas no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, passaram de 176 para 433 casos. No mesmo período, os inquéritos instaurados pela Polícia Federal aumentaram de 21 para 143. Também cresceram as operações de enfrentamento: foram 20 da PF em 2025 contra três em 2018, e 34 da PRF contra uma em 2017. O avanço dos registros, contudo, não significa que o país tenha conseguido dimensionar a real extensão do crime.

Isso porque as informações são produzidas por sistemas que capturam partes diferentes do fenômeno. O SUS registra notificações a partir do atendimento de pessoas suspeitas ou confirmadas como vítimas, enquanto a Polícia Federal contabiliza inquéritos instaurados a partir de uma lógica investigativa. Como o Brasil não possui um sistema nacional unificado, essas bases permanecem fragmentadas, dificultando a construção de um diagnóstico abrangente. A diferença aparece, por exemplo, na Bahia, que concentrou 172 notificações do SUS em 2025, 39,7% do total nacional, mas registrou apenas seis inquéritos da PF. Em São Paulo, foram 42 notificações e 46 inquéritos.

Essa distância entre denúncia, registro e investigação também aparece no chamado “funil institucional”. Levantamento da Universidade Federal de Minas Gerais sobre o canal Comunica PF mostra que, das 58 denúncias recebidas entre julho de 2024 e abril de 2026, apenas 27 resultaram na instauração formal de inquéritos, uma taxa de 46,6%. A dificuldade de reunir evidências, questões de jurisdição e a caracterização do crime ajudam a explicar essa perda.

O desafio se torna ainda maior porque o próprio tráfico está mudando. O aliciamento já não depende apenas do deslocamento físico ou de abordagens presenciais. Falsas ofertas de emprego, investimentos e promessas de altos rendimentos podem ser utilizadas nas plataformas digitais para atrair vítimas. Os chamados scam centres mostram a dimensão dessa transformação: pessoas traficadas são levadas a centros de fraude, onde, sob violência e privação de liberdade, são obrigadas a aplicar golpes pela internet. O fenômeno conecta tráfico de pessoas, trabalho escravo, crimes cibernéticos e fraude financeira em uma mesma estrutura criminosa.

A dimensão financeira dessa convergência também impõe novas exigências à investigação. Segundo dados citados no Anuário, os fluxos de criptomoedas destinados a redes de tráfico humano cresceram 85% em 2025. Combater essas redes exige, portanto, preservar evidências digitais e acompanhar os fluxos financeiros.

A resposta estatal precisa acompanhar essa transformação. Se o aliciamento ocorre cada vez mais no ambiente digital, os canais de denúncia e proteção também precisam ser acessíveis e adequados a essa realidade. Entre julho de 2024 e abril de 2026, porém, 77,4% das denúncias federais foram feitas pelo telefone tradicional, enquanto WhatsApp e outras ferramentas digitais tiveram participação muito menor. Também é preciso considerar linguagem e usabilidade, já que vítimas podem não reconhecer imediatamente a violência sofrida.

Superar a invisibilidade do tráfico exige, portanto, mais do que ampliar registros. É necessário integrar as bases de saúde, segurança, justiça, trabalho e direitos humanos, criar protocolos comuns e produzir indicadores nacionais comparáveis. Prevenção, proteção e repressão precisam caminhar juntas, com estruturas preparadas para lidar com crimes que combinam exploração humana e tecnologia. O principal desafio é transformar informações dispersas em capacidade efetiva de reconhecer vítimas, investigar redes criminosas e interromper novas formas de exploração.

 

Texto adaptado da 20ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, por Deise Nunes, pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

Íntegra da 20ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública

 

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