Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 19/08/2026

O avanço do estelionato em um Brasil cada vez mais digital

A era digital transformou a forma como os crimes são praticados no Brasil. O estelionato ganhou escala, tornou-se mais sofisticado e passou a ocupar um espaço central na dinâmica da criminalidade patrimonial, impondo novos desafios à segurança pública

Compartilhe

Samira Bueno*

Diretora Executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e coordenadora do mestrado profissional em gestão e políticas públicas do IDP-São Paulo

Renato Sérgio de Lima

Diretor Presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Professor da FGV EAESP

Isabela Sobral

Gerente de Projetos e Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

O cenário da segurança pública no Brasil atravessa uma transformação profunda, marcada pela consolidação do estelionato como o principal crime patrimonial do país. Enquanto índices de criminalidade tradicional, como homicídios e roubos de rua, apresentam redução, os golpes e fraudes registram uma escalada alarmante. Em 2025, o Brasil contabilizou 2.261.055 ocorrências de estelionato, abrangendo tanto modalidades tradicionais quanto digitais. Este número representa um crescimento impressionante de 429,8% em comparação a 2018, início da série histórica destacado no 20° Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Essa explosão reflete-se na percepção de segurança da população: cerca de 83,2% dos brasileiros afirmam temer ser vítimas de fraudes por internet ou celular.

A distribuição desses crimes pelo território nacional revela uma forte desigualdade regional associada ao desenvolvimento digital. O padrão indica que a incidência do crime acompanha o grau de bancarização, digitalização e integração ao sistema financeiro formal de cada unidade da federação. Contudo, os números oficiais são apenas a ponta do iceberg; estima-se uma subnotificação massiva: 15,8% da população com mais de 16 anos (cerca de 26,3 milhões de pessoas) foi vítima de algum golpe no último ano, evidenciando que o problema real é muito mais vasto do que as estatísticas policiais sugerem.

A dinâmica atual do estelionato no Brasil não é mais caracterizada por indivíduos isolados, mas por uma operação de escala industrial. O crime passou a adotar uma lógica gerencial empresarial, com divisão de tarefas, roteiros profissionais, metas de arrecadação e bônus por performance. Mais grave ainda é a integração dessa “economia criminal” com grandes facções, como o PCC e o Comando Vermelho, que passaram a investir em “escritórios do crime” dedicados a fraudes digitais por considerá-las uma atividade de baixo risco e alta rentabilidade em comparação ao tráfico de drogas.

Dados da BioCatch indicam que as tentativas de golpes na América Latina cresceram 155% recentemente, com um aumento de cinco vezes no uso de ferramentas de acesso remoto. No Brasil, os golpes de personificação— nos quais criminosos fingem ser funcionários de bancos, órgãos públicos ou conhecidos — cresceram cerca de 140%. Além disso, houve uma articulação com crimes de rua: o roubo de celulares registrou um aumento de 340% nos casos voltados para acessar aplicativos bancário, transformando o dispositivo móvel em uma chave para o patrimônio das vítimas. Entre as modalidades mais comuns, destacam-se o golpe do WhatsApp (personificação de conhecidos), a falsa central bancária, as fraudes via Pix e os anúncios de leilões ou lojas falsas.

A eficácia dessa indústria criminosa é sustentada por um quadro de impunidade quase absoluta. Existe um “funil” crítico entre o registro da ocorrência e a punição: em 2025, embora tenham ocorrido mais de 2,2 milhões de registros, apenas 63.771 processos penais foram iniciados e somente 4.819 pessoas foram presas por estelionato. Isso significa que mais de 97% dos estelionatos relatados no Brasil não chegam ao Judiciário, tornando a prática do golpe um negócio de baixíssimo risco jurídico. Mesmo com mudanças legislativas, a resposta estatal ainda é vista como insuficiente diante da rapidez de adaptação tecnológica das organizações criminosas.

Para reverter esse quadro, as alternativas utilizadas em âmbito internacional sugerem que o caminho não passa apenas por campanhas de conscientização, mas por uma integração operacional em tempo real. Singapura, por exemplo, reduziu seus casos através do Anti-Scam Centre, que une polícia, bancos e plataformas digitais para congelar contas e bloquear sites em minutos. A Austrália impôs deveres legais de prevenção e multas pesadas não apenas aos bancos, mas também às empresas de telecomunicações e redes sociais, combatendo o ecossistema do golpe como um todo. O desafio brasileiro consiste, portanto, em superar a fragmentação entre os poderes e órgãos reguladores, criando uma coordenação nacional dedicada que proteja a vítima de forma robusta e ataque simultaneamente a megaestrutura construída.

 

 

Newsletter

Cadastre e receba as novas edições por email

Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

EDIÇÕES ANTERIORES