Anthony W. Pereira
Diretor Executivo do Stone Center for Latin American Studies da Tulane University e professor visitante na School of Global Affairs do King’s College London
Os Estados Unidos foram construídos por imigrantes. O país possui a maior população de pessoas nascidas no exterior do mundo. Cerca de 50 milhões de pessoas nos EUA, ou aproximadamente 15% de seus 342 milhões de habitantes, nasceram fora do país. Desses 50 milhões de pessoas, pouco mais de um quarto constitui o grupo dos “não autorizadas”, ou seja, o daqueles que possuem um status legal temporário e/ou precário. Nem todos entraram no país ilegalmente. Muitos simplesmente permaneceram além do período permitido por um visto. Apesar da retórica em contrário, os imigrantes são condenados por crimes a uma taxa inferior à dos cidadãos americanos nativos. Entre os imigrantes não autorizados, as estimativas daqueles que têm condenações criminais chegam a centenas de milhares, e não excedem 5% do total.
Os Estados Unidos foram construídos por imigrantes, mas também possuem a maior infraestrutura do mundo para deter e deportar imigrantes. Sob o governo do presidente Biden (2021-2025), essa infraestrutura foi usada principalmente para prender pessoas com antecedentes criminais, consideradas ameaças à segurança nacional e recém-chegados aos EUA. No entanto, Donald J. Trump, na campanha presidencial de 2024, anunciou que, se eleito, iniciaria o maior programa de deportação da história. Significativamente, porém, ele o descreveu como “o maior programa de deportação de criminosos na história da América”.
O programa de deportação está em pleno andamento desde a posse de Trump em 20 de janeiro de 2025. Agentes federais foram mobilizados em grandes demonstrações de força em cidades controladas por prefeitos democratas, onde Trump recebeu poucos votos em 2024, como Los Angeles, Portland e Chicago. Nessas operações, alguns militares da ativa foram enviados, como 700 fuzileiros navais em Los Angeles em junho de 2025. Isso viola uma tradição de longa data nos EUA de não empregar as forças armadas regulares em operações policiais envolvendo civis. Apesar do teatralismo dessas operações ostensivas, o maior número de detenções de imigrantes ocorreu de maneira mais discreta em cidades do sul com grandes populações de imigrantes latino-americanos, como Miami, Nova Orleans, Dallas, Houston e Atlanta. Em janeiro de 2026, o governo federal dos EUA tinha 73 mil pessoas detidas enfrentando deportação, contra 40 mil no ano anterior. Dentre esses detidos, 6 mil são famílias, pais com filhos menores de 18 anos.
Um dos principais executores do programa de deportação é o ICE (Immigration and Customs Enforcement, ou Controle de Imigração e Alfândegas) dos EUA. O ICE foi criado em 1º de março de 2023 em resposta aos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 e inserido no recém-criado Departamento de Segurança Interna, na maior reorganização da burocracia federal desde o início da Guerra Fria em 1949. O ICE tem a função de fazer cumprir as leis federais criminais e civis que regem o controle de fronteiras e a imigração, trabalhando em estreita colaboração com a Agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras (Customs and Border Protection) dos EUA. Seu pessoal das Operações de Aplicação e Remoção é o grupo mais visível nas operações do ICE. O ICE possui 20 mil agentes em mais de 400 escritórios nos EUA e no exterior e, no orçamento de 2025 aprovado pelo Congresso Nacional, recebeu um grande aumento de recursos para seus esforços de fiscalização e detenção. Atualmente, está adquirindo 80 mil novas camas de detenção e recrutando 10 mil novos agentes, atraindo-os com um bônus de assinatura de até US $50 mil (R$268.500) ou 80% do salário anual médio nos EUA. O processo de seleção foi acelerado e enfraquecido à medida que a onda de contratações continua. O treinamento para os novos agentes do ICE foi reduzido de cinco meses para 47 dias. O governo federal dos EUA agora gasta 160 bilhões de dólares por ano na aplicação das leis de imigração. Agentes do Bureau de Álcool, Armas de Fogo e Tabaco (Alcohol, Firearms and Tobacco, ATF) e a Agência de Combate às Drogas (Drug Enforcement Agency, DEA) foram transferidos para ajudar nas operações do ICE. O ICE tem uma reputação de violência. Pelo menos 14 pessoas foram baleados por agentes do ICE e 30 morreram em instalações de detenção do ICE desde que Trump assumiu o seu segundo mandato como presidente, em janeiro de 2025.
A mais controversa operação do ICE começou em dezembro de 2025 em Minneapolis, a maior cidade do estado de Minnesota. Minneapolis tem um prefeito democrata, e o governador de Minnesota é Tim Waltz, candidato a vice-presidente de Kamala Harris, a oponente de Trump na eleição presidencial de 2024. A cidade também abriga 80 mil pessoas de ascendência somali, a maior concentração de somalis e somali-americanos do país. O presidente Trump chamou os somalis de “lixo” e disse que não os queria no país. A administração Trump também alegou que havia fraude envolvendo a apropriação indevida de recursos públicos por creches para famílias de baixa renda administradas por somalis em Minneapolis.
A operação em Minneapolis é a maior na história do ICE até agora, com 3 mil agentes do ICE e da Patrulha de Fronteira mobilizados na cidade e nas áreas circundantes. Essa força supera em muito a polícia da cidade, que conta com apenas cerca de 600 policiais. Agentes do ICE em Minneapolis têm se envolvido em comportamentos questionáveis, como bater de porta em porta perguntando sobre a etnia dos vizinhos das pessoas, puxar uma mulher com deficiência para fora de seu carro e agredir e prender imigrantes legais e cidadãos. Um grande número de moradores de Minneapolis saiu às ruas para protestar contra as ações da ICE, e o prefeito da cidade, Jacob Frey, declarou que a ICE deveria ir embora. Um dos aspectos das ações do ICE que provoca resistência local é que o ICE não parece priorizar a prisão de criminosos. Em vez disso, ele mira imigrantes que seguem a lei e trabalham em setores como construção, agricultura, logística, hotéis e restaurantes. Isso viola o senso de justiça das pessoas locais. A administração Trump, por sua vez, caracteriza os manifestantes como “agitadores” e sugere que expressar oposição às ações da ICE é equivalente a obstruir suas operações. Também afirma que a vitória eleitoral de Trump em 2024 dá ao seu governo um mandato para deportações em massa.
Pesquisas mostram que o ICE se tornou uma das agências federais mais impopulares, ficando atrás apenas da agência de arrecadação de impostos, o Serviço de Receita Federal (IRS), equivalente à Receita Federal no Brasil. Em uma pesquisa nacional da CBS News/YouGov realizada de 14 a 16 de janeiro, 61% dos entrevistados disseram que o ICE estava sendo agressivo demais na detenção e no controle de pessoas, um aumento em relação aos 56% de novembro de 2025. Na mesma pesquisa, 52% dos entrevistados afirmaram que o ICE estava tornando as cidades norte-americanas menos seguras, enquanto apenas 31% disseram que estava tornando as cidades mais seguras. Também na mesma pesquisa, 54% daqueles entrevistados desaprovam o programa do governo Trump de deportar imigrantes sem autorização nos EUA, enquanto 46% aprovaram. (Há forte polarização partidária nessa resposta, pois 90% dos republicanos aprovam, enquanto 90% dos democratas desaprovam.) Em outra pesquisa, apenas um terço dos entrevistados apoia a remoção de imigrantes não autorizados que não possuem antecedentes criminais. No entanto, a maioria dos imigrantes em instalações de detenção do ICE não possui antecedentes criminais, apesar de o presidente Trump ter prometido deportar “criminosos” em sua campanha de 2024. Dois terços dos entrevistados e um terço dos eleitores de Trump concordaram, em uma pesquisa de julho de 2025, que o governo estava cometendo “alguns” ou “muitos erros” ao decidir quem deportar.
Em 7 de janeiro de 2026, um agente do ICE de 43 anos, Jonathan Ross, veterano de 20 anos na fiscalização da imigração, envolveu-se em um confronto em Minneapolis com uma mãe de 37 anos ao volante de um SUV, Renee Nicole Good. Seis meses antes, Ross havia sido arrastado por um veículo e precisou de pontos no braço e na mão. Um colega do Ross exigiu que Good saísse do veículo e, quando ela começou a dirigir, ele atirou nela através do para-brisa com sua pistola Glock 19. O agente então atirou mais três vezes do lado do carro. As balas atingiram Good no braço, peito e rosto, e ela morreu.
A adequação e legalidade do assassinato de Renee Good podem ser debatidas. Algumas pessoas, incluindo especialistas em segurança pública, insistem que, diante das circunstâncias reveladas pelos vários vídeos do incidente, incluindo um em que Ross filmou ele mesmo no seu celular, Ross tinha autoridade e justificativa para fazer o que fez.
O que é perturbador é a resposta dos funcionários do governo Trump à tragédia. O presidente Trump, em uma publicação no Truth Social, disse que Good havia atingido Ross com seu carro e era uma “agitadora profissional”. Ele disse posteriormente que Ross tinha o direito de atirar em Good porque ele havia sido “desrespeitado”. A Diretora de Segurança Interna (Homeland Security), Kristy Noem, defendeu Ross e disse que ele havia “seguido seu treinamento”. O vice-presidente JD Vance declarou que Ross se beneficiava de “imunidade absoluta”, ponto reiterado pelo assessor da Casa Branca Stephen Miller. Tricia McLaughlin, Secretária Assistente de Assuntos Públicos do Departamento de Segurança Interna, disse que a ação de Good em seu carro foi “um ato de terrorismo doméstico”.
Quando George Floyd foi morto por um policial de Minneapolis em maio de 2020, enquanto Trump era presidente, o Departamento de Justiça investigou a morte (e quatro policiais acabaram sendo acusados). Após a morte de Good, o Departamento de Justiça interveio e se recusou a compartilhar as evidências que possuía com os promotores e políias locais. Ele não investigou a morte de Good, mas investigou o prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, o governador de Minnesota, Tim Waltz, e a viúva de Good, Becca Good. Como resultado dessa última decisão, seis promotores da Procuradoria Federal (Attorney General) dos EUA em Minnesota renunciaram. Entre os que renunciaram estava o Primeiro Assistente da Procuradoria dos EUA, Joe Thompson, que havia sido nomeado por Trump. Ross ainda poderia ser processado por suas ações, mas as acusações teriam que vir dos promotores estaduais de Minnesota, e o caso seria complicado.
Cidadãos e residentes dos EUA não estão acostumados a serem policiados pelo ICE. O policiamento nos EUA há muito tempo é altamente descentralizado e local, com prefeitos eleitos nomeando chefes de polícia. Em contraste, o ICE é uma agência federal envolvida na aplicação agressiva da lei e composta por pessoal que frequentemente parece leal pessoalmente a Trump e ideologicamente comprometido com a agenda MAGA (Faça a América Grande Novamente). Os residentes dos EUA também não estão acostumados a ver funcionários federais demonizando seus próprios cidadãos e justificando a violência policial contra eles. Na véspera do Ano Novo passado, em Mar-a-Lago, a casa de Trump na Flórida, Kristi Noem e Stephen Miller foram filmados dançando ao som de “Ice Ice, Baby”, uma música rap lançada por Vanilla Ice em 1990. O vídeo desse evento ganha um significado novo e sinistro após a morte de Renee Good.
Em regimes autoritários, as forças policiais não precisam demonstrar cuidado no uso da força letal. Elas podem matar sem prestar contas. Um exemplo disso ocorreu em 1973 no Brasil, quando um estudante da USP, Alexandre Vannucchi Leme, foi torturado até a morte em uma unidade do DOPS em São Paulo e enterrado em uma vala comun depois que funcionários falsificaram documentos dizendo que ele havia morrido em um acidente de trânsito. O que o povo de Minneapolis está atualmente enfrentando pode não ser tão grave quanto os piores momentos do regime militar brasileiro, mas é uma tentativa do governo Trump de impor uma ditadura sobre eles. Nesse contexto de ausência do estado de direito, é possível contar com os funcionários do governo Trump para defender quaisquer e todos os atos de violência cometidos pelo ICE.

