Segurança no Mundo 21/01/2026

Da Moneda ao Planalto: segurança pública, punitivismo e disputa eleitoral

O que a recente eleição presidencial chilena indica sobre os rumos da segurança pública nos demais países da América Latina, especialmente no Brasil, que terá eleições em 2026?

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Alexandre Pereira da Rocha

Doutor em Ciências Sociais. Policial civil no Distrito Federal. Associado sênior do FBSP

Após a presidência do socialista Gabriel Boric, o Chile elegeu o ultradireitista José Antonio Kast, sinalizando guinada ideológica com prováveis impactos na política de segurança pública. Nesse cenário, destaca-se sua afinidade com estratégias de linha-dura adotadas por Donald Trump, nos Estados Unidos, e por Nayib Bukele, em El Salvador. Não por acaso, Kast apresentou-se ao eleitorado como defensor do modelo repressivo de enfrentamento ao crime. Tal estratégia dialoga com um dos principais temores da sociedade chilena: a insegurança pública, que afeta cerca de 60% da população adulta. 

Nesse contexto, o que a recente eleição presidencial chilena indica sobre os rumos da segurança pública nos demais países da América Latina, especialmente no Brasil, que terá eleições em 2026? 

Vale destacar que, na plataforma de campanha de Kast,  “La fuerza del cambio”, a segurança pública figurou como a primeira frente de ação, que foi sintetizada no slogan “enfrentar a emergência da segurança para recuperar a ordem e o sentido da autoridade”. Assim, temas da cartilha linha-dura, como recrudescimento penal, controle rigoroso das fronteiras, aumento do efetivo policial e guerra ao crime foram reproduzidos como eixos estruturantes de governo, o que contribuiu para atrair apoio do eleitorado chileno.  

Esse cenário indica que a agenda de segurança pública de linha dura, frequentemente polarizada pela extrema direita, encontra ampla adesão no imaginário popular, ainda que possa fomentar sentimentos e práticas controversas, como o nacionalismo extremo, o autoritarismo, a xenofobia e a relativização dos direitos humanos. O aspecto mais preocupante é que, longe de se tratar de um fenômeno restrito ao Chile, esse movimento tem potencial de irradiar-se para outros contextos nacionais, especialmente o brasileiro, onde a segurança pública ocupa lugar recorrente no debate político.  

No Chile, Boric já tratava da pauta da segurança pública com centralidade. Destaca-se que, na reta final de seu governo, ele criou o Ministério da Segurança Pública com o objetivo de fortalecer as capacidades do país na proteção dos cidadãos, na prevenção dos delitos e no combate à criminalidade e ao crime organizado. 

Por sua vez, a candidata governista, Jeannette Jara, derrotada no segundo turno das eleições presidenciais, ensaiou o discurso de linha-dura, prometendo “la mano bien firme” para combater o crime. Isso sugere o quanto a segurança pública foi marcante no último processo eleitoral chileno.  

Por isso, no Brasil das vésperas das eleições de 2026, o caso chileno é outro indicativo dos rumos possíveis do debate político-eleitoral. Aqui a segurança pública é praticamente questão endógena à agenda eleitoral e tende a ser explorada como elemento de polarização, sobretudo por candidaturas que associam criminalidade a deficiências no poder repressivo do Estado e à permissividade de governos progressistas. Assim como no Chile, é plausível que propostas de segurança pública de cunho punitivista não se restrinjam a campos ideológicos da extrema direita, mas alcancem setores progressistas, como do próprio presidente Lula, candidato à reeleição. 

Particularmente no governo Lula, a agenda da segurança pública é vista como ponto de fragilidade. Assim como no Chile, a violência figura como a principal preocupação da população, atingindo cerca de 40% dos brasileiros. Não obstante, uma das principais iniciativas do governo federal para o setor – a PEC da Segurança Pública – ainda não avançou no Congresso Nacional a ponto de gerar dividendos ao governo. Ademais, a recente saída de Lewandowski do Ministério da Justiça e Segurança Pública só ratificou as dificuldades de coordenação na condução da pauta pelo governo petista.    

Nesse contexto, governadores de oposição ao presidente Lula passaram a reivindicar protagonismo na agenda da segurança pública. Destacam-se Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Ronaldo Caiado (União Brasil-GO) e Romeu Zema (Novo-MG), que, no horizonte da sucessão presidencial, defendem estratégias punitivistas em contraposição ao governo federal. A eficácia eleitoral desse discurso repressivo é ilustrada mais recentemente por Cláudio Castro (PL), governador do Rio de Janeiro. Embora a gestão dele tenha conduzido uma das operações policiais mais letais do país, com 121 mortes, o episódio foi seguido por aumento de sua aprovação, apontando apoio da opinião pública à pauta de linha dura. 

Assim, a última eleição chilena não significa apenas o avanço da extrema direita, mas também a exaltação da ordem punitivista na segurança pública. Trata-se de uma pauta particularmente atrativa nos mercados eleitorais de sociedades atravessadas pelo medo da criminalidade e da violência. Assim, no contexto das eleições nacionais brasileiras de 2026, a experiência chilena funciona como um alerta, ao evidenciar o potencial de adesão popular a agendas de linha-dura, capazes de mobilizar atores políticos de diferentes espectros ideológicos em busca de votos, ainda que à custa de retrocessos em um modelo de segurança pública democrática e orientada pela cidadania. 

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