As dinâmicas de roubo e furto de celulares no Brasil
Os roubos e furtos de celulares assumem contornos distintos no Brasil. Nesse cenário, o avanço de tecnologias de proteção e o combate ao mercado ilegal se tornam fundamentais para prevenir esses crimes e reduzir a insegurança associada ao uso cotidiano dos aparelhos em espaços
Samira Bueno
Diretora Executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e coordenadora do mestrado profissional em gestão e políticas públicas do IDP-São Paulo
Renato Sérgio de Lima
Diretor Presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e professor da FGV-EAESP
O panorama dos crimes contra o patrimônio no Brasil em 2025 revela uma realidade complexa e em transformação, marcada por uma queda geral de 7,7% nas ocorrências de roubo e furto de celulares, totalizando 792.284 registros. Apesar da redução agregada, que chega a 25% se comparada ao pico histórico de 2019, os dados expõem uma divergência clara entre as modalidades: enquanto os roubos (com violência ou ameaça) despencaram 18,6%, os furtos apresentaram uma leve alta de 0,9%.
Atualmente, o padrão criminal consolidado no país indica que, a cada 10 aparelhos subtraídos, 6 são furtados, o que evidencia uma migração para crimes que envolvem menor confronto direto. As dinâmicas temporais também são distintas, com os roubos concentrados em dias úteis e no período noturno — 40% ocorrem entre 18h e 23h —, enquanto os furtos proliferam em momentos de grande aglomeração, como o Carnaval e festas regionais, ocasiões nas quais os índices chegam a subir mais de 20% acima da média.
O perfil das vítimas e os locais das ocorrências reforçam a seletividade e a vulnerabilidade social desse fenômeno. A via pública é o cenário principal, concentrando 77,2% dos roubos e 49,3% dos furtos, embora estabelecimentos comerciais e o transporte público também sejam locais significativos para a prática de furtos. A desigualdade racial é latente nas estatísticas: pessoas negras representam 66,9% das vítimas de roubo e 57% das vítimas de furto. Além disso, a subnotificação permanece como um desafio crítico para as políticas públicas, já que pesquisas de vitimização indicam que 8,3% da população foram alvo desses crimes nos últimos 12 meses, mas estima-se que apenas 5,7% dos brasileiros tenham formalizado o registro em delegacias. Esse abismo entre o crime ocorrido e o registrado sugere que a incidência real é muito superior à capacidade de resposta estatal.
Diversas hipóteses explicam a redução acentuada especificamente nos roubos de celulares, destacando-se o aumento do risco e a queda na lucratividade para o criminoso. Primeiramente, o roubo exige contato direto e violência, o que eleva a exposição do autor a câmeras de monitoramento, intervenção policial e reações da vítima, tornando o custo operacional da ação muito mais alto do que no furto. Em segundo lugar, a disseminação de tecnologias de segurança e programas como o “Celular Seguro” dificultaram drasticamente o acesso rápido a aplicativos bancários e transferências financeiras, que eram o grande atrativo dos roubos com aparelhos desbloqueados. Com o bloqueio remoto mais eficiente e a inclusão de mecanismos nativos pelos fabricantes, o valor de revenda dos aparelhos caiu, restando muitas vezes apenas o mercado de peças, o que desencoraja o criminoso a assumir os altos riscos de uma abordagem violenta.
Para enfrentar e mitigar esses crimes, há possíveis estratégias de prevenção em quatro frentes principais de atuação: o aprimoramento do desenho dos aparelhos, com a implementação de mecanismos como o “kill switch” que permite a inutilização remota permanente; a redução da demanda, focada no combate rigoroso à receptação e fiscalização de mercados informais para tornar o crime menos lucrativo; as intervenções no ambiente urbano, exemplificadas pela modernização da iluminação pública por LED, que reduziu furtos noturnos em 36,9% em áreas iluminadas de São Paulo; e as iniciativas de registro e bloqueio pelos usuários, como a base nacional de IMEIs e sistemas governamentais que agilizam a proteção de dados.
Contudo, mesmo com os avanços tecnológicos e a queda nos indicadores, a subtração de celulares continua sendo um dos principais gatilhos para o medo e a insegurança no Brasil, afetando 78,8% da população e alterando drasticamente os hábitos de circulação, consumo e a sensação de liberdade dos cidadãos. Buscar soluções para tal modalidade criminal significa, portanto, resgatar o direito básico de ir e vir, devolvendo aos cidadãos a tranquilidade em suas rotinas e a plena apropriação dos espaços públicos.

