Múltiplas Vozes 15/09/2022

Armas demais, raciocínio de menos

Apesar de não causarem muita comoção no médio prazo, somente sendo noticiados por um ou dois dias, os casos de pessoas mortas pelas próprias armas, ou de algum parente ou amigo, são relativamente comuns

Compartilhe

Guaracy Mingardi

Analista criminal e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

Há menos de duas semanas um caso chamou a atenção da imprensa. Um idoso, em Araxá (MG), no Alto Paranaíba, morreu após ser atingido por um disparo de arma de fogo pela armadilha que tinha construído para impedir furtos em sua oficina. Sonolento e com visão ruim, na manhã de 20 de agosto, ele esbarrou num fio e acionou o mecanismo, levando um tiro no peito.

Um segundo tipo de acidente que volta e meia ocorre são os disparos, não exatamente acidentais, mas que atingem pessoas próximas ao portador da arma. Um exemplo recente, do início deste ano, em Goiânia, é de outro idoso que matou a mulher após ouvir um barulho estranho em sua casa. Assustado, ele disparou uma espingarda de fabricação caseira e sem registro, de calibre 32.

Um terceiro caso que ganhou manchetes, também ocorrido em 2022, é o de uma jovem de 18 anos que, a pedido do irmão, filmava enquanto ele limpava a arma. Um disparo aparentemente acidental acertou seu pescoço, provocando a morte da jovem de apenas 18 anos. Esse caso é até mais relevante que os outros dois, haja vista que o autor do disparo acidental é um policial civil, portanto formalmente treinado no emprego de armas de fogo. Segundo o delegado que presidiu o inquérito, o colega policial assumiu os riscos ao manusear a arma na presença da irmã, além do agravante de ter ingerido bebida alcoólica.

Apesar de não causarem muita comoção no médio prazo, somente sendo noticiados por um ou dois dias, os casos de pessoas mortas pelas próprias armas, ou de algum parente ou amigo, são relativamente comuns. Segundo levantamento do Ministério da Justiça, publicado pela Folha de S. Paulo em 08/02/2019, entre os anos de 2015 e 2018 foram registradas hospitalizações de 518 crianças devido a acidentes com armas de fogo. Ou seja, mais de 500 vidas foram tiradas ou postas em perigo por uso indevido de armas de fogo por menores de idade. Já o número de adultos mortos ou feridos acidentalmente é desconhecido.

Os exemplos e a estatística citada mostram claramente como esses acidentes ocorrem de forma indiscriminada e constante. Seja a arma legalizada ou não, estando seu portador habilitado ou não para manuseá-la, o risco existe. Uma bebida a mais, um descuido ou o simples medo podem provocar um disparo e ceifar uma vida. O que, aliás, é até mais provável do que uma arma salvar a vida de seu portador. A não ser que tenha de usá-la profissionalmente, é claro. Ou seja, policiais ou similares devem, evidentemente, portá-las durante suas atividades. E mesmo assim todos devem ser muito bem treinados antes de manuseá-las.

Uma categoria que está muito ciente desse viés são os gerentes de banco, pelo menos alguns deles. Em uma pesquisa que fiz para a Febraban há alguns anos sobre a segurança bancária, muitos desses profissionais entrevistados falaram que as portas giratórias, câmeras e alarmes são mais eficientes do que um par de seguranças armados. Inclusive porque seja quem for que atire, ladrões ou vigilantes, sempre fica no ar a possibilidade de que um disparo atinja um cliente ou um funcionário. E, tendo em vista que quando são quatro ou mais ladrões a possibilidade de enfrentamento é pequena, é melhor deixar levarem o dinheiro do que correr o risco de perder uma vida.

E isso fica ainda mais claro quando se trata de uma modalidade que cresceu muito nos últimos anos, o Novo Cangaço. Nesse crime, onde vinte ou mais criminosos tomam de assalto uma cidade pequena ou regiões de uma maior, normalmente nem mesmo a polícia local tem efetivos e armamentos suficientes para enfrentá-los. Em muitos casos, além de pistolas nove milímetros e fuzis, a gangue ataca com metralhadoras .50, capazes de perfurar blindagens leves e coletes à prova de bala. Nessas ações, quase sempre bem-sucedidas e muito planejadas, os criminosos costumam manter a polícia distante atacando a companhia da PM mais próxima para, como disse uma vez um ladrão capturado, manter a polícia distante, de cabeça baixa.

E o cidadão comum, qual a sua chance de resistir com sucesso? Na verdade, ninguém sabe bem o que responder a essa pergunta. Não existem estatísticas confiáveis, comparando o número de vezes em que a vítima prendeu o ladrão, o afugentou ou baleou, com as que sua arma foi levada com seu dinheiro ou simplesmente não teve chances de reagir. Sem contar aquelas em que sua tentativa resultou em sua própria morte.

Portanto, antes de adquirir uma arma é importante considerar vários fatores, por exemplo: a existência de crianças em casa, sua habilidade em utilizar um revólver ou pistola, o risco pessoal a que se expõem no cotidiano e, principalmente, seu gênio. Se é uma pessoa medrosa, que vê uma ameaça em cada sombra, e se é um indivíduo irritadiço, capaz de usar a arma sem necessidade, no meio de uma discussão. Aliás, dois casos recentes mostram que esse pode ser o maior de todos os problemas, a morte do lutador de jiu-jítsu por um policial militar e a do guarda municipal pelo policial penitenciário. Apesar de serem inquéritos ainda não concluídos, portanto podendo a atitude de ambos os matadores ser considerada pela justiça como legítima, o que na minha opinião e de vários juristas com os quais falei seria um erro, o fato é que se não houvesse armas presentes ninguém teria morrido.

Newsletter

Cadastre e receba as novas edições por email

Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

EDIÇÕES ANTERIORES