Perícia em evidência 07/10/2026

Acidente com helicóptero que matou o cantor Rick alimenta a estatística de desastres aéreos que vitimaram famosos

Nos últimos 10 anos e meio, foram registrados 183 acidentes com helicópteros no Brasil, sendo 54 fatais e um total de 129 fatalidades. Apenas em 2026, são 6 fatais e um total de 21 vítimas

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Cássio Thyone Almeida de Rosa

Graduado em Geologia pela UnB, com especialização em Geologia Econômica. Perito Criminal Aposentado (PCDF). Professor da Academia de Polícia Civil do Distrito Federal, da Academia Nacional de Polícia da Polícia Federal e do Centro de Formação de Praças da Polícia Militar do Distrito Federal. Presidente do Conselho de Administração do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

A queda de um helicóptero Bell 430 que fazia o trajeto entre Porto Belo e São Joaquim, na região de Urubici, na Serra Catarinense, ocorrida em 21 de setembro, vitimou o cantor sertanejo Rick Sollo, o nome artístico de Geraldo Antônio de Carvalho, da dupla Rick & Renner. Com ele morreram outros quatro ocupantes: o empresário Bruno Avelar, o videomaker Paulo Soares, o piloto Antônio Roberto Nóbrega de Araújo e o copiloto Leopoldo Barros Teixeira. Os destroços foram localizados apenas no dia seguinte, em uma área de mata de difícil acesso.

A morte do cantor nos remete a outro acidente aéreo, desta vez envolvendo um avião onde estava a cantora Marília Mendonça, ocorrido em 5 de novembro de 2021. O tema foi abordado em nossa coluna do Fonte Segura, na edição 113. Outras edições também já trataram do tema dos acidentes aéreos, na edição 73, explicando como se realiza a perícia em acidentes aeronáuticos, e nas edições 244, 246 e 335, estas três tratando do caso do acidente com o avião da Voepass de 2024.

Após a queda do helicóptero, as informações que se seguiram buscaram contextualizar detalhes que envolveram o acidente, direcionando as matérias midiáticas na busca das causas que levaram a aeronave a perder o contato e ser encontrada transformada em destroços um dia depois.

Como parte importante da investigação deste tipo de acidente, as informações relativas à documentação da aeronave foram rapidamente reveladas, indicando que todos os documentos estavam em ordem e atualizados. A aeronave detinha autorização para operar voos noturnos e por instrumento.

Algumas mensagens trocadas com centros de controle e a tripulação indicaram que as condições meteorológicas eram uma preocupação, uma vez que havia alertas para ventos fortes, tempestades, baixa visibilidade e formação de granizo na data da ocorrência. Esse fato pode ser um indício que faz com que o fator climático possa estar entre as causas do desastre.

Na aviação, os acidentes são investigados sob todas as possibilidades em relação aos chamados fatores contribuintes. Os principais são:

  • Fator Humano (~80% dos casos): Envolve aspectos psicológicos, fisiológicos, médicos e operacionais dos pilotos, controladores e equipes. Inclui falhas de comunicação, complacência (excesso de confiança que faz ignorar procedimentos), estresse, pressão de tempo e mau julgamento.
  • Fator Material / Mecânico (~20% dos casos): Abrange falhas estruturais, problemas em motores, instrumentos de voo ou sistemas da aeronave.
  • Fator Operacional: Relaciona-se ao planejamento do voo, deficiências de treinamento, avaliação incorreta das condições meteorológicas e procedimentos inadequados.
  • Fator Ambiental: Considera as condições do tempo (tempestades, visibilidade baixa, gelo) e o cenário do aeroporto ou rota.

Há informações também de vídeos feitos por moradores, nos quais o helicóptero com as cinco vítimas aparece voando baixo, mas sem qualquer sinal de pane como fumaça ou fogo.

A atualização dos trabalhos dos peritos do CENIPA (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), órgão vinculado à Força Aérea Brasileira e dos peritos da PCI (Polícia Científica de Santa Catarina), indica que os dois motores da aeronave foram retirados da área dos destroços e passarão por exames específicos. A caixa preta foi localizada e certamente ajudará nas conclusões quando for analisada.

Consulta ao denominado Painel SIPAER, atrelado ao site do CENIPA, permite visualizar as Ocorrências Aeronáuticas da Aviação Civil Brasileira. Trata-se de uma ferramenta de visualização de dados desenvolvida pelo CENIPA que permite pesquisar as ocorrências aeronáuticas ocorridas no Brasil nos últimos 10 anos. Entre os dados, podemos verificar, especificamente sobre acidentes que envolvem helicópteros de nossa frota (estimada entre 2.000 e 2.500), que no ano de 2026, até a presente data, ocorreram 16 acidentes, sendo 6 acidentes fatais e um total de 21 fatalidades. Em ralação ao modelo da aeronave, um Bel 430, em 2026 esse foi o único acidente, mas houve também um incidente grave. Para pensar de forma comparativa, em 2025 foram 14 acidentes, sendo 3 fatais e um total de 7 fatalidades, ou seja, em 2026 já superamos e muito o ano anterior. Já se considerarmos os últimos 10 anos e meio (2016 a 2025 e incluindo-se esse ano), a estatística de acidentes com helicópteros atinge 183 acidentes, sendo 54 fatais e um total de 129 fatalidades.

Dentre os acidentes nessa série histórica, as três principais ocorrências em número estão relacionadas a: 1) perda de controle em voo; 2) falha ou mal funcionamento do motor; e 3) falha ou mal funcionamento de sistema/componente. Já em relação aos fatores contribuintes dos acidentes a ordem de prevalência é: 1) julgamento de pilotagem; 2) aplicação de comandos; e 3) processo decisório.

Em relação trabalho da equipe da Polícia Científica de Santa Catarina, composta por cerca de 10 servidores diretos, incluindo médicos legistas e especialistas em engenharia forense, as atividades estão relacionadas a:

  • Mapeamento do terreno montanhoso de mata fechada e recriação digital da dinâmica exata do impacto. A Tecnologia empregada incluiu drones e scanners tridimensionais (3D);
  • Exames nos corpos das vítimas no IML de Florianópolis, visando a identificação;
  • Avaliação de fatores específicos dos destroços, visando entender, dentre outras questões a razão que explique as três portas terem sido encontradas abertas após a colisão.

Até que o relatório do CENIPA e o inquérito da Polícia Civil estejam concluídos, as possíveis causas ou fatores determinantes desse acidente ainda estarão no campo do desconhecido e das hipóteses. Alguns especialistas em engenharia forense que se manifestaram  indicaram que uma falha mecânica inicial é considerada improvável, uma vez que a aeronave bateu voando e estava com a manutenção em dia. A principal hipótese levantada por eles aponta para desorientação espacial sob baixíssima visibilidade ou o fenômeno conhecido como downdraft (fortes correntes de ar descendentes) provocadas pela tempestade na serra.

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