A Polícia Federal e os “aprendizes do poder”
Já passou da hora de suscitarmos, como sociedade, um debate sério e transparente sobre as tênues fronteiras que separam os delegados da PF do mundo da política, para evitar que novos “aprendizes do poder” voltem a questionar a democracia brasileira
Lucas Pilau
Cientista político e pesquisador de pós-doutorado no Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP)
O vazamento dos materiais apurados no âmbito do escândalo do Banco Master colocou, nas últimas semanas, o Supremo Tribunal Federal sob o escrutínio do debate público e midiático, culminando em uma sessão – ocorrida no dia 15 de setembro – marcada por tensões e acusações entre seus ministros. Um dos momentos mais marcantes dessa crise que assola a principal Corte do país foi o afastamento do Diretor-Geral da Polícia Federal, o delegado Andrei Passos Rodrigues, por parte do ministro André Mendonça. O afastamento durou pouco tempo, pois no dia seguinte o ministro Flávio Dino reconduziu o delegado ao cargo para o qual foi indicado pelo presidente da República. Às vésperas do primeiro turno das eleições de 2026, esses acontecimentos recolocaram a Polícia Federal no centro do debate político.
No texto “A política da Polícia Federal: o que há de novo?”, publicado na edição nº. 115 do Fonte Segura, argumentei que existia uma relação quase que permanente entre a Polícia Federal e a política brasileira, atestada, em parte, pela trajetória dos diretores-gerais indicados ao cargo após a redemocratização do país na década de 1980. Com base na pesquisa que venho conduzindo há anos sobre a Polícia Federal, o texto apresentou registros de passagens de vários ex-diretores-gerais por cargos burocráticos e/ou por incursões em campanhas eleitorais ou cargos eletivos. No artigo “Polícias fraturadas”, publicado na Piauí em 2020, Renato Sérgio de Lima cercou esse tema de outra forma, ao recordar os vários escândalos políticos em que ex-diretores-gerais estiveram envolvidos e que, em diferentes ocasiões, levaram às suas quedas do posto máximo da corporação.
Neste sentido, em um artigo publicado neste ano na Revista Sul-Americana de Ciência Política, evidenciamos o crescimento de “empréstimos” de delegados ao alto escalão do Ministério da Justiça entre os primeiros mandatos de Lula (2003-2010) e o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022). Como se observa no Quadro 1, os delegados têm se deslocado dentro da burocracia estatal para ocupar diferentes funções, como secretários nacionais (de Segurança Pública, de Justiça, de Grandes Eventos etc.), como Secretários-Executivos (n.º 2 do Ministério da Justiça), como presidente de uma autarquia federal e, de forma inédita, como ministro da Justiça. Mas esses “empréstimos” não se limitam ao Poder Executivo: os delegados também estão presentes em gabinetes de ministros das Cortes superiores, em gabinetes de parlamentares, em secretarias de segurança pública dos estados e em muitos outros órgãos da burocracia estatal, como demonstrado em minha tese de doutorado.
Quadro 1. Delegados que ocuparam posições de comando no Ministério da Justiça (2003-2022)
| Nome | Período | Posição | Presidente |
| Luiz Fernando Corrêa | 2003-2007 | Secretário Nacional de Segurança Pública | Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) |
| José Ricardo Pataro Botelho de Queiroz | 2011-2012 | Secretário Extraordinário de Segurança para Grandes Eventos |
Dilma Rousseff (2011-2016) |
| Valdinho Jacinto Caetano | 2012-2013 | Secretário Extraordinário de Segurança para Grandes Eventos | |
| Andrei Augusto Passos Rodrigues | 2013-2017 | Secretário Extraordinário de Segurança para Grandes Eventos | |
| Rogério Augusto Viana Galloro | 2017-2018 | Secretário Nacional de Justiça | Michel Temer (2016-2018) |
| Luiz Pontel de Souza | 2018 | Secretário Nacional de Justiça | |
| Marcelo Augusto Xavier da Silva | 2019-2022 | Fundação Nacional dos Povos Indígenas |
Jair Bolsonaro (2019-2022) |
| Luiz Pontel de Souza | 2019-2020 | Secretário-Executivo do Ministério da Justiça | |
| Rosalvo Franco | 2019-2020 | Secretário de Operações Integradas | |
| Josélio Azevedo de Sousa | 2020-2021 | Secretário de Gestão e Ensino em Segurança Pública | |
| Alfredo de Souza Lima Coelho Carrijo | 2021-2022 | Secretário de Operações Integradas | |
| Márcio Nunes de Oliveira | 2021-2022 | Secretário-Executivo do Ministério da Justiça | |
| Anderson Gustavo Torres | 2021-2022 | Ministro da Justiça | |
| Paulo Gustavo Maiurino | 2022 | Secretário Nacional de Políticas sobre Drogas |
Fonte: PILAU, Lucas Batista; ENGELMANN, Fabiano. Polícia Federal e política institucional: as recomposições dos delegados no Ministério da Justiça. Revista Sul-Americana de Ciência Política, vol. 12, n. 1, 2026.
Partindo desse quadro geral, tomo como hipótese que a Polícia Federal parece estar servindo como um espaço que alavanca a socialização e credencia os delegados junto ao poder político e burocrático, tornando-os verdadeiros “aprendizes do poder”, para fazer uma referência a um termo formulado pelo sociólogo Sérgio Adorno[1]. Em sua pesquisa doutoral, Adorno, baseado em robusto material documental, revelou que a Faculdade de Direito de São Paulo, situada no Largo de São Francisco, operou durante o período imperial menos como instituição de ensino e mais como espaço de socialização política e de formação intelectual de figuras que ocupariam posições centrais em um Estado nacional em constituição, sobretudo como magistrados, parlamentares e membros do estamento burocrático. Os “empréstimos” de delegados federais a outros órgãos estatais parece funcionar de forma semelhante aos mecanismos descritos por Adorno, ao oportunizar a um contingente da corporação preocupar-se menos com as atividades policiais e mais com a construção de uma carreira na cúpula da Polícia Federal ou nos primeiros escalões de organismos políticos ou judiciais.
Nesse ponto, a história brasileira recente nos fornece pistas relevantes sobre os possíveis efeitos desse processo de aprendizagem e socialização dos delegados nos jogos de poder. Em setembro de 2025, o STF considerou culpados de participação na trama golpista dois delegados federais com trajetórias em cargos de indicação política. Meses depois, ambos foram demitidos da Polícia Federal. Esse caso ilustrativo impõe a necessidade de não se perder de vista que, embora esses “empréstimos” ocorram dentro da legislação vigente, as incursões de delegados federais na política nacional podem levar a uma adesão a diferentes projetos políticos, inclusive autoritários. Por isso, já passou da hora de suscitarmos, como sociedade, um debate sério e transparente sobre as tênues fronteiras que separam os delegados da PF do mundo da política, para evitar que novos “aprendizes do poder” voltem a questionar a democracia brasileira, ainda mais se considerarmos que foi com a estabilidade desse regime político que a Polícia Federal se fortaleceu como órgão de Estado.

