Múltiplas Vozes 09/09/2026

Tráfico no Porto de Santos 4 – O modus operandi dos traficantes

O método mais empregado atualmente para transporte de grandes carregamentos de drogas é o do mergulho. Conforme apuração, as apreensões não são inferiores a cem quilos. A maior já feita nesse sistema foi da ordem de 500 quilos

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Guaracy Mingardi

Doutor em Ciência Política e associado do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

O termo normalmente utilizado pelas polícias quando se referem a um navio que transporta cocaína é de que ele está “contaminado”. E evitar a contaminação é tarefa muito difícil.

Isso se deve ao fato de que sempre que um modelo se torna muito conhecido, e aumenta o número de apreensões, os traficantes mudam suas práticas. Por conta dessa inventividade, tanto a atuação deles como a dos órgãos policiais sofrem constantes alterações. As modalidades mais comuns são sete:

  1. Entrada de pequenas quantidades pelos trabalhadores do porto ou marinheiros
  2. Embarcar via contêiner
  3. Embarcar no meio de grãos soltos
  4. Içar para o navio quando está atracado
  5. Içar durante a espera na área destinada aos navios que aguardam sua vez para atracar nas docas
  6. Içar quando já saiu do porto, mas ainda perto da área de fundeio
  7. Contaminar através de mergulho

 

Os procedimentos específicos são bem diferentes. O primeiro da lista, embarque de pequenas quantidades, foi utilizado por profissionais e amadores ainda no início dos anos 2000. Ou seja, tanto por traficantes como por indivíduos que, através de contatos locais, compravam a cocaína e a despachavam, ou eles mesmos levavam. Um modelo quase artesanal de tráfico, e numa época em que o Brasil ainda não era uma grande rota para a cocaína. Os navios eram contaminados por pessoas que tinham acesso a ele. Muitas vezes marinheiros que pegavam a carga durante uma breve estada nos bares do porto e nos prostíbulos ou então indivíduos que trabalhavam no cais e levavam a bordo. Posteriormente, as dorgas eram entregues aos encarregados de “malocá-la”, ou seja, escondê-la até a chegada ao porto de destino. Assim, mesmo quando o transporte inicial era feito por um trabalhador do cais, ele necessitava de cúmplices a bordo para desembarcá-la. Quando o tráfico através do Brasil aumentou de escala, essa modalidade praticamente foi deixada de lado.

No embarque via contêiner, a contaminação pode se dar de maneiras diferentes. A mais comum é  adicionar a cocaína a uma mercadoria qualquer, de preferência com consistência semelhante, antes de adentrar ao porto. Um dos problemas diz respeito ao lacre, que pode ser substituído com relativa facilidade, considerando-se a atual capacidade de imitação por meios eletrônicos. Vão longe os tempos em que um carimbo ou lacre podiam garantir a inviolabilidade de algo. A outra maneira, mais complicada e que exige maior organização interna, além de cúmplices dentro do sistema portuário, é fazer isso depois de ele passar pelo escâner, estando já na área reservada. Nesse caso, a contaminação só seria detectada no porto de origem ou devido à delação de alguma testemunha ou envolvido.

Segundo entrevistados, no início era fácil flagrar cocaína pelo escâner, porque a mercadoria não era bem camuflada. “Qualquer um de nós perceberia que tinha alguma coisa errada[1]”. O exemplo citado foi uma carga de pneus, onde tudo era redondinho e no meio havia uma bolsa retangular.

Embora esse modelo esteja sendo substituído pelo içamento ou contaminação via Sea Chest, ainda são registradas apreensões de grande porte pela Receita Federal. Em meados de 2025, a Receita Federal localizou 657 kg de cocaína escondidos em um carregamento de café, e havia dois destinos possíveis.  A mercadoria legal seria desembarcada na Polônia; porém, como havia baldeação no porto de Hamburgo, poderia ocorrer de a cocaína ser entregue na Alemanha[2].

Uns dias antes, a Receita Federal apreendera 1.505 quilos de cocaína em uma carga de papel. A apreensão ocorreu, segundo a versão oficial, durante uma inspeção de rotina. Outra versão é de que teria sido interceptada após trabalho de inteligência. Em uma terceira, fala-se do trabalho com os cães farejadores. Na prática, as três versões podem ser igualmente corretas, uma vez que a decisão sobre quais contêineres devem ser inspecionados pode ser decorrência de informações obtidas pela inteligência da Receita ou da PF. Nessa inspeção seriam usados, provavelmente, os cães farejadores.  Segundo o noticiário, os contêineres fariam transbordo no porto de Bremerhaven, na Alemanha. A suspeita, porém, é de que a cocaína tinha como destino o Reino Unido[3].

O terceiro modelo, o transporte via grãos soltos, é mais difícil, pois a mercadoria é embarcada por esteira. Depois, passa por uma peneira, o que impossibilitaria a passagem de um pacote. Contaminar o navio por esse meio já foi um modelo mais utilizado. Hoje em dia, no entanto, segundo os policiais entrevistados, é um caminho impraticável. O mesmo ocorre quando se trata de líquido, como suco de laranja, por exemplo suco. Ao final, a peneira impede a entrada de objetos sólidos. O que ainda se mantém é o transporte da droga no interior dos tonéis quando o suco chega assim embalado. Mas seria uma ocorrência rara.

O içamento a bordo já foi, e talvez ainda seja, um dos meios mais empregados. Depende de um ou mais cúmplices a bordo, bem como de ao menos um para transportar a droga. Existem pelo menos formas de fazê-lo durante o período em que o navio está atracado. A mais simples seria diretamente do cais, o que implica probabilidade maior de os traficantes serem pegos em flagrante. Já usando um barco, é possível levar a mercadoria pelo lado oposto, que está virado para o canal, o que foi ficando mais difícil por conta do sistema de câmeras de longo alcance observadas pela Guarda Portuária.

Por isso foi desenvolvido o modelo de contaminar antes da atracação do barco, no momento em que está aguardando na área de fundeio, de cerca de 500 quilômetros quadrados de mar, uma área quase três vezes maior do que a da Cidade de Santos. Lá os navios esperam às vezes por dias sua vez de atracar no cais. Quando o navio chega próximo ao porto, solicita atracação e entra na fila. Esse estacionamento fica a distância de uns 30 até 40 km da costa. É dividido em cinco setores, por tipo de embarcação. Ninguém tem controle da área, nem mesmo a Marinha pode fiscalizar tudo. A fila de espera para atracar é formada por muitos navios que podem ficar dias esperando. “Tem navio que chega a ficar 30 dias esperando a vez”, afirma um dos entrevistados.[4]

Isso implica que os traficantes necessitam de melhores embarcações, pois esta área fica longe da costa. Dificilmente chegariam lá num barquinho a remo. Normalmente são necessários pelo menos dois na embarcação, um para controlar o barco e outro para enganchar a mercadoria, e pelo menos dois também entre a tripulação. Um ou dois vigiando dentro da nau e outro içando a droga. A necessidade de maior vigilância a bordo se deve ao fato de que na área de fundeio toda a tripulação está a bordo, já no cais é possível haver períodos nos quais haja muita gente em terra.

A cooptação de um tripulante pode ser por apenas uma vez. Ele desembarca e é abordado num prostíbulo[5], num shopping, num bar, etc. Outro tipo de aliciamento pode ser feito por algum trabalhador que tenha acesso ao navio. Interagindo com a tripulação, esse indivíduo pode cooptar alguém.

Içar após o navio sair do porto é uma prática que já foi observada, mas é mais complicada. A regra é que, depois de abandonar o canal, a embarcação siga direto para o alto mar. Mas é possível e já foi observado um caso em que isso aconteceu. E só foi descoberto por conta do localizador do navio, que mostrou para a Guarda Portuária que ele tinha parado por motivos ignorados. Essa prática requer cumplicidade de vários tripulantes, talvez até do capitão ou de seus oficiais. Afinal, ninguém para sem motivo um navio já em curso.

Segundo os entrevistados, o método mais empregado atualmente para transporte de grandes carregamentos de drogas é o do mergulho. Isso significa que um mergulhador, normalmente profissional, leva uma grande carga, e a insere no Sea Chest (caixa de mar) do navio. Trata-se do local utilizado para controlar a entrada e a saída de água em sistemas da embarcação[6]. Situado na parte traseira do casco, é um buraco, normalmente coberto com uma grade. Ela é removida pelo mergulhador, que coloca a mercadoria num canto e a repõe. No porto de destino, ele mesmo, ou outro contratado, faz a coleta. A quantidade foi aos poucos aumentando. Em 2022 foram encontrados 52 quilos em um navio graneleiro. Hoje em dia, segundo entrevistados, as apreensões não são inferiores a cem quilos. A maior já feita nesse sistema foi da ordem de 500 quilos.

Como a região do canal do porto é mais vigiada, esse procedimento é mais empregado na área de fundeio, quase sempre antes de o navio atracar. É possível constatar que esse modelo é empregado frequentemente fazendo-se pesquisa nas águas da baia. Encontra-se cocaína tanto na água como em mexilhões, e até mesmo em tubarões. Isso significa que parte da carga enviada por tal método acaba por se perder no mar e contaminar a água da Baia de Santos.[7]

A contaminação via mergulho na área de fundeio é difícil de ser plotada porque naquele local costumam se aproximar dos navios alguns pequenos barcos. Eles saem de regiões próximas ao porto, normalmente favelas no Guarujá nas quais o PCC tem o controle do tráfico. Alguns levam apenas mercadorias comuns que vendem aos marinheiros que aguardam aportar. Outros, a cocaína. É impossível diferenciá-los quando se está distante.

Policiais da área e federais acreditam que não são comandados pelos mesmos traficantes que distribuem a cocaína nas favelas de onde partiram. Um delegado entrevistado mencionou que é evidente que os traficantes locais têm algum conhecimento das ações, mas não são os donos da coca para exportação. Ela fica armazenada em locais distintos daquela que é distribuída para as “biqueiras” e as informações sobre o local, o navio e o momento são de conhecimento de um pequeno grupo, formado pelos donos da mercadoria, pelos tripulantes dos barcos que transportam para o fundeio e pelo mergulhador. E ninguém mais, pelo menos em princípio.[8]

Na verdade, a maior parte das apreensões nesses casos, seja aqui ou no porto de destino, tem a ver com alguma denúncia, que só pode ser feita por alguém com pleno conhecimento. Isso significa que o sigilo nem sempre é mantido a ferro e fogo pelos criminosos.

Uma das táticas para evitar que muitos conheçam a localização da cocaína é mantê-la por pouco tempo armazenada no Guarujá ou em Santos. Nos últimos estágios, pouco antes de contaminar um navio, dependendo do tipo de contaminação, ela pode ser levada para uma das favelas, aguardando embarque. Normalmente fica pouco tempo armazenada nesses locais. Quanto maior o período de armazenamento por ali, maior a probabilidade de ser plotada pela polícia. Em Santos algumas favelas se localizam praticamente dentro da área do porto. Supõe-se que de lá partiam – ou ainda partem desses locais. Alguns barquinhos que contaminam os barcos. Segundo a Federal, o “antro do PCC na Baixada fica na favela da Prainha e na Aldeia”. E dentro dos outros canais há mais favelas, algumas de palafita. Esses canais entram no território e vão longe. Outra comunidade mencionada é a Pouca Farinha, no Guarujá, que também fica perto do porto.

Segundo os entrevistados, muitas vezes a contaminação é feita através de barquinhos que partem de favelas mais próximas da área do fundeio que do porto. Um dos locais mencionados foi a praia do Perequê[9], no Guarujá, local onde existe uma área muito frequentada por turistas, apesar de haver uma favela com cerca de 8 mil moradores, onde o tráfico está na mão do PCC. Para comprovar a tese da contaminação provinda desses locais nos navios, a Guarda Portuária tem imagens de embarcações saindo de vários pontos da Baixada para ir ao encontro dos navios, que podem levar qualquer coisa ou pessoas, incluindo traficantes e drogas.

Um caso recente de contaminação foi descoberto por um modelo de investigação diferente. Ocorreu depois da partida do navio, segundo os entrevistados. O navio a ser contaminado saiu do porto e parou novamente na área de fundeio, onde não deveria mais parar.

Através do monitoramento, isso foi constatado pela guarda e pela PF, que mandou o navio voltar a atracar. Durante a inspeção acharam cocaína no Sea Chest[10]. Nesse caso, pelo menos parte da tripulação tem de estar envolvida, porque, se o navio estiver com a hélice funcionando e o mergulhador se aproximar, ele será sugado. Aliás, depois de sair do porto o navio só pode ser contaminado através de içamento, ou parando fora da área de fundeio, que não é vigiada. Alguns navios simplesmente param depois da área de fundeio porque lá não podem jogar dejetos, limpar o casco, jogar água de lastro que trouxeram de outro país (o que poderia contaminar com outras espécies a fauna e a flora daqui). Legalmente, a autoridade portuária não tem mais poder para mandar retornar, apesar de estar em área territorial brasileira. Teria de ser uma atuação em alto mar da PF ou da Marinha.

Atualmente, está em fase de implantação o VTMiS (Vessel Traffic Management Information System, que auxiliaria a controlar esse tipo de contaminação. Trata-se de um auxílio eletrônico à navegação, com capacidade de monitoramento ativo do tráfego aquaviário, ampliando a segurança da navegação. Do ponto de vista da segurança portuária, porém, “esse sistema poderia identificar um caiaque se aproximando de um navio na área de fundeio através do radar”.

O que existe atualmente é um sistema mais simples, AIS (Sistema de Identificação Automática), que rastreia embarcações e troca de informações sobre posição, velocidade, rumo. Ajuda navios e estações de tráfego marítimo a compartilharem dados, facilitando a navegação. Uma de suas principais funções seria prevenir colisões. O problema é que, se um navio sai do porto e desliga o AIS,os órgãos de vigilância ficam cegos a respeito de sua posição, o que permite parar e embarcar drogas.

Esses tipos de contaminação são os atualmente conhecidos. De uma hora para outra podem ser substituídos por algo novo. E aí recomeça a corrida interminável de gato e rato entre as polícias e os criminosos. Como sempre ocorre em qualquer modalidade criminosa, aliás.

 

Referências

 

[1] Delegado federal
[2] https://www.gov.br/receitafederal/pt-br/assuntos/noticias/2025/junho/receita-federal-faz-a-segunda-apreensao-de-cocaina-no-porto-de-santos-em-menos-de-uma-semana
[3] https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/2025/06/10/maior-apreensao-de-cocaina-em-4-anos-receita-federal-intercepta-15-tonelada-no-porto-de-santos.ghtml
[4] Entrevista delegado federal.
[5] Os prostíbulos ficam na região central da cidade, mas bem próximos do porto.

 

[6] Uma das principais finalidades é o resfriamento do motor.

[7] https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/2024/09/08/cientistas-coletam-amostras-de-sedimento-na-baia-de-santos-para-monitorar-contaminacao-por-cocaina-video.ghtml

[8] No momento de uma das entrevistas o entrevistado revelou que naquele momento havia cerca de 70 navios esperando a vez para atracar.

[9] Não confundir com a praia do Perequê em Ilhabela, que fica bem distante.

[10] A Constante cobrança de segurança nos portos facilita, normalmente após suspeita capitão autoriza busca no navio sem discutir.

 

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