Cássio Thyone Almeida de Rosa
Graduado em Geologia pela UnB, com especialização em Geologia Econômica. Perito Criminal Aposentado (PCDF). Professor da Academia de Polícia Civil do Distrito Federal, da Academia Nacional de Polícia da Polícia Federal e do Centro de Formação de Praças da Polícia Militar do Distrito Federal. Presidente do Conselho de Administração do Fórum Brasileiro de Segurança Pública
O caso envolvendo Albino Santos, conhecido como Serial Killer de Maceió, foi tema de duas das nossas colunas no Fonte Segura. A primeira na edição de número 257, de 27/11/2024, apresentava o caso que já repercutia nas mídias, com detalhes da contribuição da perícia na identificação e captura do criminoso; e a outra, na edição 269, de 19/03/2025, que destacou as falhas na investigação e no sistema de justiça como um todo. Agora, passados dois anos de sua prisão, as investigações e os processos seguem avançando e as condenações pelos crimes se sucedem.
Albino é um ex-agente penitenciário de Maceió. Após ser preso em setembro de 2024, passou a ser investigado por uma série de homicídios e tentativas de homicídio na capital alagoana. A Polícia Civil e o Ministério Público o relacionaram a 18 homicídios consumados e seis tentativas, embora esses números representem a linha investigativa divulgada pelas autoridades — não condenações definitivas em todos os casos.
Ele teria confessado, em momentos diferentes da investigação, números distintos de crimes. Reportagens registram que chegou a admitir 18 assassinatos, mas, em determinado julgamento, confessou apenas um. Portanto, a confissão não deve ser tratada automaticamente como prova judicial definitiva de todos os casos.
Duas semanas atrás, um programa produzido por uma TV aberta abordou o caso, atualizando o andamento das investigações e conseguiu pela primeira vez uma entrevista com o acusado realizada na penitenciária onde ele se encontra detido em uma cela individual. Durante uma hora somos colocados diante do homicida serial, de vítimas sobreviventes, delegados, promotores e peritos que participaram e ainda estão envolvidos no caso.
Vê-lo falando sobre os crimes pode parecer assustador, mas é também revelador, especialmente para aqueles que buscam entender uma mente criminosa como a de Albino.
Com suas falas, é possível acessar características específicas desse personagem, assim como correlacioná-las a esse tipo de predador serial homicida descritas na literatura.
Conhecer esse tipo de criminoso requer muitas informações, entrevistas, depoimentos e sobretudo tempo. Essas pessoas podem ser estudadas examinando seu passado, sua educação, seu histórico de convívio familiar e interpessoal, buscando entender o porquê e como elas fazem o que fazem – para compreender sua motivação e prever seu comportamento – visando à aplicação desse conhecimento na resolução dos crimes. Isso significa encontrar as respostas às perguntas que explicam as razões pelas quais eles escolhem machucar e matar pessoas. A compreensão da forma como essas escolhas são feitas, do comportamento antes e depois dos crimes e dos meios que permitiram que tais escolhas sejam seguidas é a base da análise de um perfil criminal.
O FBI (Federal Bureau of Investigation), desenvolveu estudos e protocolos para o que denominamos serial killers. Quando se busca capturar um criminoso desse tipo ainda em atividade, os analistas e investigadores utilizam uma equação expressa por três palavras:
“Por quê? + Como? = Quem!”
O “Por quê?” refere-se à motivação, às razões, muitas vezes inconscientes. O “Como?” se refere à forma, a maneira como o crime foi cometido, em todos os seus detalhes. Encontrando as duas respostas temos a chance de identificar “Quem”. O entendimento da mente do serial killer passa necessariamente por essas respostas.
Sobre o seu modus operandi, que é a resposta da pergunta Como?, a matéria na TV permitiu acessar que este predador serial:
- Agia preferencialmente à noite;
- Deslocava-se a pé;
- Usava vestimentas pretas e máscaras;
- Empregava armas de fogo;
- Efetuava de um a cinco disparos, elegendo em geral a cabeça das vítimas;
- Realizava um planejamento meticuloso dos crimes;
- Monitorava seus “alvos” por meio de redes sociais;
- Preferia como vítimas mulheres morenas, com cabelos longos e cacheados.
Quanto à motivação, as declarações do criminoso e as informações dos processos podem nos induzir a dúvidas. Albino tenta fazer parecer que as vítimas eram escolhidas por serem de alguma forma indesejáveis como membros de uma sociedade, ligadas a atividades ilícitas, como tráfico de drogas. Ele parece tentar passar uma ideia de que poderia ser um homicida serial do tipo “missionário”, ou seja, aquele que acredita estar cumprindo uma missão divina, moral ou social para eliminar pessoas que considera indesejáveis ou “impuras“. As investigações mostram que a motivação pode ser outra e estar relacionada a uma inadequação em relação ao gênero oposto no que se refere à rejeição sentida quando uma aproximação é repelida. A obsessão por mulheres com um biotipo específico (mulheres morenas, cabelos longos e cacheados) pode ser relevante nessa hipótese. Os exames psiquiátricos já revelaram que ele é imputável, pois tinha plena consciência dos atos praticados. Por conseguinte, a alegação de doença mental parece ter sido refutada, embora transtornos de personalidade sejam esperados.
No programa de TV, os crimes desse homicida são apresentados em uma sequência cronológica definida em duas fases: os dez crimes cometidos mais recentemente e crimes mais antigos, em uma fase em que sua residência se situava em outra comunidade. Nos dez crimes mais recentes, ele teria empregado uma pistola calibre .380. Nos oito crimes da chamada primeira fase, ele havia utilizado um revólver calibre .38, nunca encontrado. As vítimas dos crimes da primeira fase foram conectadas por exames de confronto balísticos entre os projéteis retirados nas necrópsias e coletados em cenas de crimes das ocorrências associadas.
Para quem acompanhou as declarações do criminoso no programa é impossível não perceber traços que revelam sinais de vaidade e orgulho (comuns em muitos serial killers). Ele também menciona os seus troféus/medalhas que guardava no celular e que foram revelados pela perícia: prints de calendários com as datas da morte das vítimas assinalados, matérias jornalísticas sobre as mortes, fotos das vítimas obtidas em redes sociais, fotos de cemitérios e de túmulos nos quais algumas vítimas foram sepultadas. Esse comportamento pode ser encontrado em criminosos desse tipo, que, ao acumularem souvenirs de suas vítimas, podem assim reviver o prazer e controle experimentados com seus atos. Dizer que ele é inteligente é difícil, mas afirmar que é razoavelmente articulado é possível, em diversos momentos.
Assustador é ouvi-lo dizer que matou também em Pernambuco (onde informa que teria matado mais que em Maceió) e no Rio Grande do Norte, totalizando mais de 80 vítimas não atribuídas a ele. Vaidade ou realidade?
Há algo a fazer sobre isso? Fica aqui uma reflexão: conhecendo a época em que ele viveu nesses estados seria possível fazer uma busca em bancos de dados de evidências balísticas para tentar encontrar correspondências que pudessem sugerir a sua ação nestes estados? #fica a dica!

