Segurança no Mundo 02/09/2026

Bukele, os homicídios e a construção de uma narrativa de sucesso em El Salvador

O chamado “modelo Bukele” envolve mais do que uma política de encarceramento: há repressão, desarticulação territorial das maras, mudanças institucionais, produção de estatísticas e a costura de um enredo de eficácia

Compartilhe

André Zanetic

Doutor em Ciência Política, com pós-doutorado pelo Núcleo de Estudos da Violência/USP, e associado sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP)

É difícil encontrar, na segurança pública latino-americana, uma narrativa que tenha se tornado tão rapidamente uma espécie de verdade autoevidente quanto a associação entre Nayib Bukele, encarceramento em massa e redução dos homicídios em El Salvador. A fórmula parece simples: um país devastado pelas pandillas, um presidente disposto a enfrentá-las sem limites e uma taxa de homicídios que cai de mais de 100 para menos de 3 por 100 mil habitantes.

O problema é que a história é mais complexa.

 

O gráfico revela algo que frequentemente desaparece dessa narrativa: a queda dos homicídios começou antes de Bukele. Depois do pico de 2015, quando El Salvador ultrapassou os 100 homicídios por 100 mil habitantes, a violência letal entrou em trajetória descendente. Em 2018, um ano antes da posse de Bukele, a taxa já havia caído para cerca de 51 por 100 mil, tendência também registrada pela OCDE desde 2016.

Isso não significa que Bukele não tenha reduzido os homicídios. Ao contrário: eles continuaram caindo de forma extraordinária durante seu governo, e estudos recentes atribuem parcela importante dessa redução às políticas implementadas por sua administração, especialmente ao Plano de Controle Territorial e, posteriormente, ao estado de exceção. O que os dados não autorizam é transformar uma tendência histórica mais longa em uma relação causal simples entre Bukele, superencarceramento e queda dos homicídios.

A história anterior importa. As maras são organizações criminosas de origem centro-americana, formadas inicialmente em Los Angeles nos anos 1980 para proteger os imigrantes e refugiados salvadorenhos, que haviam deixado seu país durante a guerra civil, de outras gangues na cidade norte-americana. Mara Salvatrucha (MS-13) e Barrio 18 se expandiram para a América Central, especialmente após as deportações de milhares de membros dos Estados Unidos nos anos 1990, e se enraizaram em El Salvador, onde passaram a combinar controle territorial, extorsão e violência. Em 2012, uma trégua entre as duas principais maras foi acompanhada por uma redução abrupta dos homicídios. Depois de seu rompimento, a violência voltou a crescer até atingir o pico de 2015.

Naquele período, El Salvador já havia experimentado também a chamada mano dura: políticas de segurança baseadas em repressão intensiva, endurecimento penal e ampliação dos poderes policiais, apresentadas como resposta às maras. Estudos que analisam essas duas décadas mostram resultados mais favoráveis aos períodos de trégua do que aos de mano dura e identificam, ainda, evidências de negociações entre o governo Bukele e as maras entre 2019 e março de 2022, antes do início do atual regime de exceção.

Isso tampouco significa descartar a importância da política posterior de Bukele. A partir de março de 2022, o Estado salvadorenho promoveu uma ofensiva sem precedentes contra as maras, prendendo dezenas de milhares de pessoas e desarticulando grande parte de suas ações.

Em junho de 2015, estive em El Salvador durante meu pós-doutorado no Núcleo de Estudos da Violência da USP, integrando uma missão de cooperação técnica articulada pela Agência Brasileira de Cooperação (ABC), ao lado de integrantes da área de policiamento comunitário da Polícia Militar de São Paulo. Visitamos diferentes regiões do país, bases policiais e instituições responsáveis pelas políticas de segurança.

O que mais me marcou, porém, não foram as reuniões, mas o medo. Em uma pequena base policial isolada à beira de uma estrada na região de Uzulután, encontramos um jovem policial visivelmente amedrontado. Ele contou que tinha medo de dormir no próprio posto: mantinha o ar-condicionado desligado para ouvir qualquer aproximação e apagava as luzes durante a noite para não denunciar sua presença às maras. Ele tinha certeza de que iria ser morto a qualquer momento. Nas cidades, residências protegidas por extensos cercamentos, seguranças privados armados e unidades policiais fortemente equipadas revelavam uma sociedade organizada em torno da sobrevivência cotidiana diante da violência.

As maras não produziam apenas homicídios: controlavam territórios e impunham extorsões sistemáticas a comerciantes, trabalhadores e moradores. Para a população, a sensação de que “a segurança voltou” provavelmente resulta de um conjunto de mudanças difíceis de separar entre si.

Esse apoio convive, entretanto, com um processo igualmente profundo de deterioração democrática. O estado de exceção suspendeu garantias fundamentais e permitiu prisões em massa que atingiram também milhares de pessoas posteriormente consideradas sem vínculo com as maras. Organizações de direitos humanos documentaram detenções arbitrárias, tortura, mortes sob custódia e famílias que passaram meses — ou anos — sem acesso adequado a informações ou ao devido processo de seus parentes presos.

Há ainda uma continuidade incômoda com o período anterior. A violência estatal contra as maras não começou com Bukele. Durante a fase de mano dura, organismos de direitos humanos já haviam documentado execuções extrajudiciais e uso excessivo da força. A diferença está também na escala: desde 2022, centenas de pessoas morreram sob custódia do Estado. O sucesso na redução da violência, portanto, não elimina a pergunta sobre os meios pelos quais ele foi alcançado.

É nesse contexto que os homicídios adquirem uma força simbólica extraordinária. Dizer que El Salvador passou de mais de 100 para menos de 3 homicídios por 100 mil habitantes produz uma imagem imediatamente compreensível de sucesso. Poucos números possuem tamanho poder retórico. Não por acaso, discursos de governantes e candidatos de direita e extrema direita em diferentes países latino-americanos passaram a recorrer ao “modelo Bukele” como demonstração de que bastaria endurecer radicalmente o sistema penal para reproduzir o resultado salvadorenho.

Há, contudo, uma diferença histórica curiosa. Quando os governos salvadorenhos anteriores negociaram com as maras na tentativa de reduzir os homicídios, receberam forte condenação internacional, sobretudo dos Estados Unidos e de organizações de direitos humanos. Hoje, apesar de o regime de Bukele acumular críticas igualmente severas por violações de direitos e concentração de poder, sua política de segurança tornou-se objeto de admiração e inspiração para lideranças políticas de vários países. O mesmo país que antes simbolizava o fracasso da violência passou a ser identificado, por muitos, com a promessa de uma solução.

Mas os próprios números também precisam ser problematizados. Investigações independentes apontam mudanças na forma oficial de contabilizar os homicídios, com exclusão de mortes decorrentes de confrontos policiais, de óbitos ocorridos em prisões e de corpos encontrados posteriormente em sepulturas clandestinas. Jeremy Giles, em Foreign Policy, produziu uma estimativa segundo a qual o número de homicídios de 2023 poderia ser significativamente superior ao oficialmente divulgado. Sua reconstrução não representa um “número verdadeiro” alternativo, mas evidencia uma dificuldade metodológica importante: quando os critérios de mensuração mudam, torna-se mais difícil avaliar com precisão a magnitude da transformação.

Há uma ironia particularmente poderosa nesse processo. Quanto mais o Estado concentra simultaneamente o controle sobre a segurança, o sistema prisional, a circulação de informações e os critérios de classificação da violência, mais difícil se torna separar o resultado efetivo de uma política da forma como esse resultado é produzido e representado publicamente.

Essa observação não pretende negar a redução da violência em El Salvador. Ela é real. Os homicídios continuaram caindo durante o governo Bukele, as extorsões diminuíram drasticamente e a capacidade territorial das maras foi profundamente afetada. O que merece questionamento é outra coisa: a transformação de um fenômeno historicamente complexo, produzido por diferentes mecanismos e acompanhado por graves violações de direitos, em uma narrativa simples de eficácia pessoal.

O chamado “modelo Bukele” envolve, portanto, mais do que uma política de encarceramento. Envolve repressão, desarticulação territorial das maras, mudanças institucionais, produção de estatísticas e uma poderosa narrativa de eficácia. A redução da violência é real — e justamente por isso a narrativa se tornou tão persuasiva.

A questão, portanto, não é apenas se Bukele reduziu a violência. É como uma redução real da violência, cuja trajetória começou antes de sua chegada ao poder e cuja explicação permanece objeto de intenso debate, transformou-se em uma das narrativas políticas mais poderosas da América Latina contemporânea e em um modelo que tantos passaram a querer importar.

Referências
OECD. Multi-dimensional Review of El Salvador: Strategic Priorities for Inclusive and Sustainable Development. Paris: OECD Publishing, 2023.
Escaño, J.; McDowall, D.; Pridemore, W. A. “Mano Dura v. Uneasy Peace in El Salvador.” The British Journal of Criminology, 2025.
Giles, J. “El Salvador’s Homicide Numbers Don’t Add Up.” Foreign Policy, 8 ago. 2024.

Newsletter

Cadastre e receba as novas edições por email

Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

EDIÇÕES ANTERIORES