Lucas Starling Albuquerque Cerqueira
Mestre em Segurança Pública pela Universidade Vila Velha (UVV/ES). Policial Civil em Santa Catarina. Membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Professor da Especialização em Inteligência e Inovação Aplicadas no Enfrentamento ao Crime Organizado da UFSC e da Associação Catarinense de Ensino (ACE/SC)
As rivalidades e alianças entre organizações criminosas no Brasil influenciam diretamente os indicadores de violência e as dinâmicas dos mercados ilegais. Historicamente momentos de guerras, alianças e tréguas fazem parte da história dos grupos criminosos brasileiros. Diante da complexidade de compreender as relações entre as principais facções nacionais, a busca por analogias pode tornar o entendimento dessas relações um pouco mais fácil e auxiliar a compreensão popular, ajudando principalmente aqueles mais leigos sobre o tema. Nessa procura pela analogia perfeita, desponta uma extremamente pertinente. Talvez não seja perfeita, mas, aparentemente, é bastante didática: a política partidária brasileira. Não se busca aqui comparar ou igualar as práticas e condutas de partidos políticos a organizações criminosas, mas apontar como a forma de se relacionar de seus integrantes se assemelha.
No Brasil, a política partidária organiza candidaturas, define diretrizes ideológicas e orienta a atuação nos Poderes Executivo e Legislativo em um cenário atual fortemente polarizado. Em ano eleitoral, as questões envolvendo a política partidária ficam ainda mais evidentes, com muitos políticos mudando de partidos, criação de coligações, rompimentos, apoios informais e diversas formas de arranjos e desarranjos. Nesse contexto, alianças políticas, até então bastante improváveis, acabam ocorrendo (CNN, 2022). Políticos que aparentavam representar ideologias opostas acabam se unindo por interesses comuns (CNN, 2026). Essas parcerias desafiam convenções e destacam como determinadas circunstâncias podem sobrepor divergências. Costumam ser motivadas por fatores como: sobrevivência política, com a ocorrência de fusões ou acordos inusitados para superar cenários eleitorais desfavoráveis; situações de crise, com a união de adversários históricos contra uma ameaça ou inimigo comum; ou pragmatismo pelo poder, com a busca por recursos, cargos ou maior representatividade.
A trajetória do crime organizado brasileiro segue lógica semelhante. Por mais de duas décadas, CV e PCC mantiveram uma coexistência pacífica baseada na cooperação logística e comercial. Essa estabilidade ruiu com o projeto expansionista do PCC, que enfrentou resistência de facções regionais dispostas a preservar sua autonomia local, a exemplo do PGC e da FDN. O rompimento definitivo, consolidado em 2016, desencadeou uma guerra nacionalizada e massacres no sistema prisional. Desde então, o panorama criminal consolidou-se em uma disputa polarizada entre dois grandes blocos de grupos aliados, liderados pelos dois maiores grupos do país, caracterizada pela fragmentação regional, disputas pelo controle de rotas de escoamento de drogas e controle territorial de comunidades. Mesmo dentro dos blocos, as relações são instáveis e sujeitas a rupturas rápidas (ver “A Guerra”).
Atualmente, contudo, a expansão das facções para novos mercados e a internacionalização de suas atividades reconfiguraram essas interações. Como observa Camila Dias, no tocante à fase madura do PCC, a ampliação econômica diversifica os modos de conexão, suavizando fronteiras entre rivais. Em regiões estratégicas para a exportação de ilícitos, como os complexos portuários, a competição mercantil tende a se sobrepor aos confrontos violentos. Segundo Gabriel Patriarca, a maximização de lucros e a busca por redes operacionais confiáveis estimulam alianças de negócios em detrimento de disputas territoriais predatórias (ver “O PCC para além de São Paulo”).
No mesmo sentido, diversas notícias recentes apontam para uma relação, digamos, mais diplomática entre integrantes de facções distintas, principalmente aqueles que ocupam posições hierarquicamente superiores e com maior envolvimento nas atividades financeiras. No início de 2025, um relatório do Ministério da Justiça e Segurança Pública alertou as autoridades do Rio de Janeiro sobre uma aliança entre PCC e CV, que teriam se unido para lavar dinheiro, traficar drogas e adquirir armamentos de guerra (CNN, 2025). As investigações apontaram a intenção de criar um “comando nacional do crime”, que buscaria estabelecer uma coordenação entre diferentes grupos criminosos que atuam em estados distintos, com acordos de cooperação e divisão de áreas de atuação (CNN, 2026). Essa aliança ou trégua durou pouco, e um “salve” foi emitido alguns meses depois, anunciando seu fim (CNN, 2025). No entanto, tal aliança momentânea evidenciou que, mesmo que exista rivalidade entre as facções, há uma comunicação entre as lideranças, o que torna possível esse tipo de arranjo. Roberto Uchôa afirma que “ainda que existam momentos de convergência estratégica, eles tendem a ser curtos, parciais e territorialmente desiguais” (Diplomatique, 2025). Levantamento da Folha de S. Paulo apontou que as alianças entre facções criminosas já atingem 17 estados . Em julho de 2026 foram deflagradas operações policiais, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo, que investigavam situações em que uma mesma estrutura financeira era utilizada na lavagem de dinheiro para facções rivais.
Nesse contexto, como enfatiza Dias (2026), a ascensão socioeconômica de certas lideranças enfraquece a ideologia fundacional de enfrentamento à opressão, cedendo espaço à lógica puramente empresarial. Há, portanto, um tensionamento dicotômico entre lucro e ideologia. Dessa forma, nessa nova fase do PCC e, consequentemente, das dinâmicas do crime no Brasil, faz-se presente “o enfraquecimento da moral intragrupo, estimulado por alianças com atores ilícitos que não integram o grupo e não necessariamente compartilham seus valores”. Isso é causado pela grande diversificação de mercados e pela maior participação em atividades econômicas por parte das facções.
Portanto, sem entrar no mérito das funções políticas praticadas pelas organizações criminosas no exercício da governança criminal, ou das atividades criminosas perpetradas de forma organizada por partidos políticos, pois isso renderia um texto à parte, é possível afirmar que há uma dualidade estrutural que aproxima o crime da política partidária. Nas prisões e comunidades dominadas por organizações criminosas, a ideologia é vista e tratada de forma radical. Pessoas matam e morrem por elas. O simples fato de utilizar símbolos ou realizar gestos de uma facção rival pode resultar em uma sentença de morte (G1, 2025). Da mesma forma, guardadas as devidas proporções, o radicalismo também é visto no cenário político, em que a polarização ideológica também gera brigas acaloradas, rompimentos de relações e até mortes (UOL, 2022). Nas bases — sejam militantes radicais ou detentos e moradores de territórios dominados por facções —, a adesão ideológica e o pertencimento simbólico são vivenciados de forma rígida, resultando em polarização extrema e até violência letal. Não há tolerância. Em contrapartida, salvo exceções mais radicais, nos escalões superiores, dirigentes e operadores pragmáticos, mesmo que de grupos ideologicamente rivais, dialogam, articulam acordos e fecham negócios, demonstrando que a busca por poder e/ou recursos financeiros frequentemente se sobrepõe às divergências históricas e ideológicas.

