Múltiplas Vozes 19/08/2026

TRÁFICO NO PORTO DE SANTOS 2 – OS ATORES DOS DOIS LADOS DO ATLÂNTICO

A rede de contatos do Primeiro Comando da Capital se expandiu para além do previsto pelos órgãos policiais na década passada, quando alguns viam a organização como um fenômeno limitado - um delegado chegou a dizer que o PCC era como um homem com apenas um dente, e que a polícia o havia arrrancado

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Guaracy Mingardi

Doutor em Ciência Política e associado do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

No artigo anterior discutimos a importância do porto no tráfico de cocaína. Neste vamos discorrer sobre aqueles que fazem a droga chegar à Europa, começando por aqueles que dão partida ao evento.

Os policiais entrevistados são unânimes em afirmar que a droga passa pela Bolívia, numa rota que, na maioria das vezes, inclui o Paraguai. Nesse caso, o local mais propício para entrar com ela no Brasil seria a região de Ponta Porã/Pedro Juan Caballero. Ou seja, faz o trajeto Bolívia-Paraguai-Mato Grosso do Sul. Daí chega a São Paulo, onde fica armazenada, para depois ser enviada à Europa[1].

A entrada no Brasil ocorre, normalmente, através de carros ou caminhões, mas nem sempre. Existem muitos casos em que atravessa a fronteira por via aérea, dentro de um avião ou de um helicóptero. A etapa por ar, porém, termina no Mato Grosso do Sul. Em alguns casos, os voos partem direto da Bolívia, como no caso do bimotor com 600 quilos que foi interceptado pela FAB em 2017.[2]

O resto do caminho é terrestre. E quem faz esse transporte são criminosos ligados, de alguma forma, ao Primeiro Comando da Capital. Podem ser apenas contratados, primos ou irmãos[3].

O controle da rota está relacionado a uma vitória numa guerra contra o antigo “dono” dela, o empresário e narcotraficante Jorge Rafaat Toumani, em 2016. Naquele ano, ele foi morto em uma ação cinematográfica com uso de armamentos antiaéreos e metralhadoras de uso exclusivo das Forças Armadas. Policiais que trabalharam no caso apontaram como responsáveis pelo ataque cerca de cem mercenários ligados a grupos paraguaios e ao PCC. Depois, aos poucos, a rota foi sendo assegurada pelo PCC.

A partir de então o caminho para a exportação pelo Porto de Santos ficou meio pavimentado. E sob controle de apenas um grupo criminoso. Quem usasse esse espaço da fronteira teria de ter autorização do PCC.[4]

Originalmente essa organização criminosa não se aventurava na exportação de cocaína. Contentava-se em abastecer o mercado doméstico e, ocasionalmente, vender para traficantes internacionais. Por conta disso foram criados “escritórios” que representavam alguns desses grupamentos internacionais em São Paulo, nos anos 90. Um exemplo foram japoneses, presos em São Paulo e que seriam como adidos da Yakusa, principal grupo criminoso daquele país [5]. Nos anos 2000 a situação foi mudando gradualmente com a federalização do PCC.

Até 2013, as organizações criminosas estrangeiras, quando a droga fluía através de São Paulo, compravam de três formas:

  • Direto num dos países produtores;
  • Nos estados brasileiros fronteiriços;
  • Em São Paulo, onde normalmente montavam as mulas.

 

Quando o Primeiro Comando passou a controlar a rota de Pedro Juan, ficou mais fácil e barato comprar deles. A partir de então, essa organização criminosa foi ganhando tração e, aos poucos, se encarregando de transportar a cocaína. A maior parte destinada ao mercado interno e uma porção cada vez maior para exportação. E os grupos estrangeiros começaram a comprar do PCC, que transportava a droga até o porto de Santos. Dali o comprador se encarregava do resto[6]. Foi a época em que, segundo um delegado da PF entrevistado[7],  foram empregados como mão de obra os “pés de macaco”, nome dado a marinheiros e estivadores que transportavam alguns quilos na mochila para o interior das embarcações, onde a droga era escondida no meio das mercadorias embarcadas. O passo seguinte foi a ação dos exportadores, que se encarregaram de colocar a carga dentro dos navios, o que encareceu o produto, mas tornou mais fácil a vida dos traficantes europeus.

O mais conhecido dos grupos com que o PCC tinha (ou tem) esse relacionamento é uma das “máfias” italianas, a ‘Ndrangetha[8], uma organização criminosa da Calábria cuja ligação entre os membros se dá principalmente através de laços familiares[9]. Nesses contratos, iniciados por volta de 2012, o Primeiro Comando se encarregava de levar a mercadoria ao porto e colocá-lo no interior do navio. A retirada no porto de destino ficava a cargo dos criminosos calabreses. O principal porto de destino, citado tanto por entrevistados como pela imprensa paulista, era o de Gioia Tauro, o maior e mais movimentado da Calábria.

Mas não são apenas os calabreses que compram a mercadoria. Segundo todas as fontes, esses serviços estão cada vez mais requisitados por diversos grupos de traficantes. Uma prova da diversidade de agentes é que a PF e o Denarc paulista investigaram e prenderam grupos que destinavam a coca para outros locais.

Por exemplo, uma denúncia de tráfico internacional, feita pelo Ministério Público Federal[10] feita em dezembro de 2017, envolve várias remessas de cocaína para a Europa. O local ao qual se destinava o maior número de cargas era o porto de Antuérpia, com cinco remessas. Em segundo vem a Espanha, depois Roterdã, Le Havre, na França, e um porto não identificado na Inglaterra, cada um deles com uma remessa.  Essa denúncia mostra que nem tudo segue o mesmo roteiro, embora tenha embasado a prisão de membros de uma quadrilha basicamente de criminosos da Europa Oriental, ao que parece com um grupo sérvio no comando.

E, mostrando como tráfico não tem preconceitos, segundo a imprensa, entre os traficantes foram identificados um búlgaro, seis sérvios, quatro filipinos, um libanês, um jordaniano, 3 quiribatianos (República de Quiribáti, no centro do Oceano do Pacífico), um malgaxe (ou madagascarense, natural da República de Madagascar), um argentino, um americano e um italiano. A investigação foi fruto de um trabalho do DEA (Drug Enforcement Administration) que foi feita a partir de cinco grandes apreensões de cocaína:

  • 350 kg – Santos/Roterdã 2016
  • 170 kg – Kaliningrado/Hamburgo 2015
  • 170kg –  Santos/Espanha 2015
  • 490kg – Kaliningrado/Hamburgo
  • 630kg –  Santos/Antuérpia

Isso demonstra o quanto cresceram a exportação e a capacidade de atender vários clientes europeus por essa rota. E constata-se também que a rede de contatos do Primeiro Comando da Capital se expandiu para além do previsto pelos órgãos policiais na década passada, quando alguns viam a organização como um fenômeno local e transitório. Recordo de um delegado que, meses antes dos ataques às forças policiais, de maio de 2006, disse numa entrevista que o PCC era como um sujeito com apena um dente, e que a polícia tinha arrancado ele.

 

Referências
[1] Existe uma noção popular que confunde o tráfico com o contrabando da Tríplice Fronteira Sul (Brasil, Argentina e Paraguai), mas as apreensões de cocaína, ou mesmo maconha, provenientes desse trecho da fronteira, são irrisórias, se comparadas ao que entra no país pela fronteira seca
[2] UOL. 27/06/2017
[3] Essa terminologia é antiga, e pode estar ultrapassada, mas houve tempo em que irmão designava o membro do PCC, batizado e contribuinte, enquanto que primos eram os indivíduos que correm junto – são colaboradores, não filiados
[4] Quando se fala em controle da rota, não significa que uma organização tenha meios de impedir totalmente outra de usá-la. Na verdade, eles mantêm os contatos com a fiscalização e uma vigilância esporádica sobre a concorrência
[5] Mingardi. O Estado e o Crime Organizado. 1997
[6] Fonte do Denarc paulista
[7] Aposentado, mas que concedeu uma entrevista em 2024
[8] Encontramos várias formas de escrever essa palavra, portanto se tratou de uma escolha
[9] Informação dada por um promotor de justiça (procuratore) em uma palestra ministrada no encontro nacional do Fórum Brasileiro de Segurança Pública de 2024. Segundo ele, essa ligação faz com que seja mais difícil que os membros traiam a organização.
[10] A notícia foi publicada em vários jornais, entre eles podemos citar UOL 04/09/2017 e G1, mesma data.

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