GEOMETRIAS DE PODER E TERRITORIALIDADES DO NARCOTRÁFICO NA AMAZÔNIA BRASILEIRA
As conexões entre narcotráfico e crimes ambientais fortaleceram a territorialização do crime organizado, expondo populações indígenas, quilombolas, camponesas e ribeirinhas à invasão de seus territórios e à violência
Aiala Colares Oliveira Couto
Geógrafo com doutorado em Ciências do Desenvolvimento Socioambiental, professor da UEPA, onde coordena o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros, e está vinculado à Associação Brasileira de Pesquisadores Negros. Pesquisador sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública
A Amazônia brasileira, historicamente associada à exuberância natural e à diversidade sociocultural, tem se convertido, nas últimas décadas, em palco de complexas dinâmicas criminais que redesenham suas geografias de poder. Para compreender esse fenômeno, faz-se necessário partir do conceito de *escalas geográficas de poder, o qual opera em dois planos fundamentais: a gestão institucional do território, exercida pelo Estado por meio de suas divisões político-administrativas, e as escalas não estatais, forjadas por atores locais, regionais e transnacionais cujas ações produzem territorialidades materializadas em redes ou zonas de controle difuso.
O poder estatal, em sua arquitetura hierárquica, organiza-se desde a escala municipal até a global, valendo-se do monopólio legítimo da força e de instrumentos como políticas públicas, infraestrutura e, crescentemente, ações de militarização e repressão. Contudo, sua eficácia territorial é profundamente desigual, variando conforme a capilaridade de sua presença em cada ponto da região. Em contrapartida, o crime organizado atua em múltiplas escalas de modo articulado e, não raro, híbrido — operando ora na ilegalidade aberta, ora infiltrando-se na economia formal por meio de mecanismos de lavagem de dinheiro.
Na escala local, facções controlam periferias urbanas, impõem taxas de proteção, monopolizam o comércio varejista de entorpecentes e instituem justiças paralelas. Na escala regional, articulam rotas de tráfico, estabelecem alianças intramuros do sistema prisional e cooptam agentes políticos. Na escala nacional, distribuem drogas, armas e munições, branqueiam capitais e conectam grupos de diferentes unidades da federação. Finalmente, na escala global, integram-se a redes transnacionais que abastecem o mercado internacional de drogas, recorrem a paraísos fiscais e exploram crimes cibernéticos.
É nesse cenário que o conceito de geometria do poder, cunhado pela geógrafa Doreen Massey, revela toda sua potência analítica. Massey nos ensina que o espaço é produto social, aberto à política e imbuído de relações de poder que se realizam sempre em relação — entre pessoas, nações, regiões e lugares. Essa perspectiva nos permite enxergar o narcotráfico não como uma força externa que simplesmente ocupa um território dado, mas como um agente ativo na produção e reprodução de espacialidades marcadas por assimetrias, estratégias e disputas permanentes. A geometria do poder do narcotráfico, portanto, refere-se à disposição desigual do poder em diferentes territórios, evidenciando quem controla o quê, onde e com qual intensidade, em um jogo de forças que se estende do beco da periferia à rota internacional de cocaína.
No Brasil, o narcotráfico não se limita a uma rota de trânsito; o país consolidou-se como um importante mercado consumidor, o que impulsionou a reorganização do mercado da droga e a emergência de facções criminosas inspiradas no Comando Vermelho (CV) e no Primeiro Comando da Capital (PCC). Essas organizações, originárias do Sudeste, estenderam suas garras para a Amazônia, atraídas pela porosidade das fronteiras, pela extensa malha hidrográfica e pela fragilidade institucional de muitos municípios.
A realidade amazônica impõe especificidades que transcendem as análises focadas exclusivamente nas facções. Uma delas é a profunda simbiose entre crime comum e crime organizado, que dificulta o discernimento entre um e outro. Essa relação se manifesta de maneira contundente no fenômeno do narcogarimpo, no qual o garimpo ilegal sustenta toda uma rede articulada de ilegalidades que envolve empresários, garimpeiros, donos de currutelas, profissionais do sexo, milícias, agentes estatais e políticos locais. O crime organizado, nesse contexto, acompanhou historicamente a expansão da fronteira econômica na Amazônia, valendo-se de contrabandistas de madeira, grileiros, assaltantes de bancos, ladrões de gado e redes de exploração sexual. Essa sinergia obedece a hierarquias e funciona em redes, tendo o território como dado central para a consolidação das relações de poder, regulação e controle das atividades ilícitas.
As conexões entre narcotráfico e crimes ambientais fortaleceram a territorialização do crime organizado, expondo populações indígenas, quilombolas, camponesas e ribeirinhas à invasão de seus territórios e à violência. A expansão da miliciarização e da pistolagem no campo, somada à presença de facções em municípios de até 50 mil habitantes, com infraestrutura precária, reduzido efetivo policial e vastas extensões de terra em disputa, cria um cenário no qual um grupo de 15 homens armados é capaz de controlar rotas, comercializar terras e impor sua lei.
A história recente das facções na Amazônia é marcada por movimentos de criação, aliança e ruptura. Em 2007, surgiu a Família do Norte (FDN), no Amazonas, que se tornou a terceira maior facção do Brasil, controlando o escoamento da cocaína colombiana e peruana pela rota do Rio Solimões. O rompimento do pacto entre PCC e CV, em 2016, e a subsequente ruptura entre CV e FDN, em 2018, desencadearam uma guerra que se espalhou pelas periferias de Manaus e pelo interior do estado, praticamente extinguindo a FDN e abrindo espaço para novos grupos, como “Os Crias” (hoje extintos) e o próprio PCC, que ampliou seu controle sobre novas rotas. No Pará, a facção Comando Classe A (CCA), braço político do PCC, surgiu no sistema prisional de Altamira em 2018, após uma guerra com o CV que resultou em 54 mortes.
Trabalhos de campo em Roraima revelam a presença marcante de pichações do CV e do PCC em placas de sinalização e muros, funcionando como marcadores territoriais e símbolos de disputa. A sobreposição de inscrições evidencia um antagonismo permanente e a atualização simbólica da presença faccional. Nas vias fluviais, a bacia amazônica, com seus 25 mil km de rios navegáveis, constitui um sistema transfronteiriço estratégico que conecta o Brasil à Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela, sendo intensamente explorado pelas redes criminosas para o tráfico de drogas e outros ilícitos.
Figura 1 – Pichação do PCC em placa de sinalização em Alto Alegre (RR)
Fonte: Acervo Instituto Mãe Crioula
O relatório Cartografias da Violência na Amazônia (2025) indica que o CV está mais interiorizado, atuando sozinho em 122 municípios amazônicos, com forte presença no Pará e no Mato Grosso. O PCC, por sua vez, é hegemônico em 30 municípios, com destaque para Rondônia e Roraima. Outros grupos, como o Bonde dos 40 (Maranhão), os Piratas dos Solimões (Amazonas) e o Primeiro Comando Panda (Rondônia), ocupam nichos específicos, enquanto facções como o Bonde dos 13 (Acre) e a Família Terror do Amapá perderam influência para o CV e o PCC, sendo absorvidas ou dividindo espaços com estes. Essa dinâmica revela um processo constante de alianças, fusões e incorporações, no qual as facções locais e regionais, em um primeiro momento, se aliam às do Sudeste e, posteriormente, são absorvidas por elas.
Em suma, a geometria do poder do narcotráfico na Amazônia é um campo de forças em permanente reconfiguração, onde o Estado, as facções, os ilegalismos tradicionais e as populações locais se entrelaçam em relações assimétricas e violentas. Compreender essa complexidade exige ir além das abordagens reducionistas que veem o crime como mera externalidade, reconhecendo-o como parte integrante dos processos de produção do espaço amazônico. A segurança pública, nesse cenário, não pode prescindir de políticas que integrem desenvolvimento social, governança territorial, proteção ambiental e enfrentamento qualificado ao crime organizado, sob pena de vermos a Amazônia se tornar não apenas um corredor do narcotráfico, mas um território cada vez mais refém de suas geometrias de poder.

