Múltiplas Vozes 15/07/2026

Em segurança pública, o seguro não morreu de velho – morreu sem ser testado

Transformar a segurança pública brasileira não passa por mais um plano grandioso anunciado com certeza absoluta. Passa por algo mais difícil e mais humilde: aceitar que não sabemos tudo e construir, juntos, as condições para descobrir

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Marcelo Zago Gomes Ferreira*

Doutor em Administração Pública pelo IDP, Delegado de Polícia Civil do Distrito Federal e coordenador da Câmara Técnica de Monitoramento de Homicídios e Feminicídios da SSP-DF

A maior parte do que a polícia faz nunca foi rigorosamente testada. E parte significativa do que já foi testada não funciona.

Não é provocação gratuita: é o diagnóstico a que chegou Lawrence Sherman ao revisar, a pedido do Congresso norte-americano, mais de 500 avaliações de programas de prevenção ao crime. A afirmação indigna policiais, como se desmerecesse o trabalho sério da ponta – mas o que está sob exame não é o esforço de quem patrulha, e sim o método com que medimos esse esforço. A crítica é ao método, não ao mérito.

O método importa porque “funcionar”, na ciência, não é o mesmo que “funcionar” no senso comum. No dia a dia, algo deu certo quando confirma o que já esperávamos; na ciência, só vale o que resiste a um teste capaz de provar o contrário. Boa parte da história da segurança pública é a história da confusão entre as duas coisas.

Pense na patrulha. Desde o século XIX, a polícia moderna operou sob uma crença silenciosa: a de que a presença policial dispersa, cobrindo todo o território, previne o crime. A ideia atravessou quase dois séculos sem ser posta à prova. No Experimento de Patrulha Preventiva de Kansas City (1972-1973), áreas da cidade foram distribuídas entre três condições: sem patrulhamento de rotina, nível habitual e duas a três vezes mais viaturas. Muitos policiais resistiram – a intuição de quem conhecia a rua dizia que o crime dispararia onde a patrulha fosse reduzida. Ao fim de um ano, comparados crime registrado, vitimização, medo e satisfação, não havia diferença significativa entre as áreas. A leitura preguiçosa – e perigosa – seria concluir que “a polícia não serve para nada”. Kansas City não revelou a inutilidade da polícia, mas a falência de um método: espalhar esforço de modo uniforme, sem foco e sem medida.

As polícias evoluíram bastante desde então – em boa parte por levar a sério o que os testes mostram. A criminologia das últimas décadas revelou que o crime se concentra: poucos lugares, poucas pessoas e poucos contextos respondem pela maior parte das ocorrências. Daí nasceram o policiamento em pontos quentes e o policiamento orientado a problemas – e estes, sim, foram testados. A síntese das melhores avaliações disponíveis confirma que concentrar esforço onde o crime se concentra produz reduções modestas, porém consistentes – sem empurrar o crime para as redondezas; muitas vezes, o entorno também melhora. O Brasil começou a entrar nessa conversa: em 2023, a Polícia Militar do Paraná conduziu, em Curitiba, com apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento e da FGV/CCAS, o primeiro experimento aleatorizado controlado de policiamento focado em locais de alta criminalidade no país. É um marco – não pelos números, ainda preliminares, mas pelo gesto: uma polícia brasileira aceitou pôr a própria prática à prova. Uma andorinha, porém, não faz verão.

Testar continua sendo a exceção, não a regra. Ainda em 2019, a primeira revisão sistemática sobre efetividade de programas de segurança pública feita no Brasil triou mais de 13 mil estudos e localizou apenas 41 com rigor metodológico suficiente – nenhum deles um experimento controlado. Faltam experimentos, faltam dados abertos, falta o hábito institucional de avaliar – e, sem esse maquinário, gasta-se muito em viaturas, efetivo e tecnologia sem que exista a medição capaz de dizer o que cada real entregou em segurança. Não é só um lapso científico: é responsabilidade fiscal, porque decidir sem evidência é arriscar dinheiro público em apostas que ninguém conferiu. O diagnóstico de Sherman, quase três décadas depois, ainda nos serve.

Vejo com bons olhos a profusão de fóruns e seminários que hoje invocam a segurança pública baseada em evidências. É um bom começo. O risco está em “evidência” virar palavra de efeito, usada sem o critério que exige e sem o investimento que custa. Porque evidência não é qualquer coisa que confirme o que já se acreditava: evidência tem grau, tem hierarquia, tem rigor.

Na base dessa hierarquia está a forma mais frágil de saber – a opinião do especialista, o “na minha experiência, dá certo”. Acima vêm os relatos de casos isolados; depois, os estudos que comparam grupos sem sorteio, sempre sujeitos à dúvida de que outra coisa, e não a intervenção, explique o resultado. Mais acima, os experimentos com grupos sorteados aleatoriamente, capazes de isolar o efeito real de uma ação – como em Kansas City e, agora, em Curitiba. No topo, a meta-análise, síntese de muitos experimentos, que mostra se um achado se sustenta em contextos diferentes ou foi sorte de um lugar só. Quanto mais alto na pirâmide, mais difícil enganar a si mesmo. Reconhecer a hierarquia não significa desprezar os degraus de baixo: eles trazem informação valiosa, muito melhor do que decidir guiado apenas por intuição.

Outras áreas já percorreram esse trajeto. A medicina conviveu por séculos com tratamentos consagrados pela tradição até que, em 1948, o primeiro ensaio clínico randomizado – um antibiótico contra a tuberculose – inaugurou uma nova forma de saber o que de fato curava. O avanço não significou abandonar a experiência acumulada do médico; significou submetê-la à prova. A segurança pública está na mesma travessia – apenas mais atrás no caminho.

Encarar a evidência tem um preço: admitir que um programa caro não funcionou, redirecionar o que está em curso, sustentar a exposição de um erro. Mas o custo de corrigir um rumo incerto é sempre menor do que o de seguir, com confiança, pelo errado. Decidir com base em evidência não engessa a gestão; livra-a de operar às cegas.

Produzir essa evidência exige investimento sustentado em pesquisa e avaliação – item de orçamento tão essencial quanto viatura e munição – e exige que instituições que mal se falam compartilhem dados. Foi essa soma que tornou possível Curitiba: uma polícia disposta a se deixar avaliar, uma agência de fomento bancando o desenho e um centro de pesquisa garantindo o rigor. Um arranjo que precisa deixar de ser exceção celebrada e virar rotina. E não é só a gestão que ganha: saber o que funciona protege o policial da rua, que deixa de se expor em táticas que não entregam resultado.

Há, porém, um limite que nenhuma evidência resolve sozinha. Boa parte das forças que fazem o crime subir ou cair sequer está ao alcance de quem faz policiamento: o desemprego, a desigualdade, o urbanismo, a educação, a saúde. Responsabilizar a polícia por tudo, para o bem ou para o mal, é tão ingênuo quanto creditar ao galo o nascer do sol porque ele canta toda madrugada. A segurança pública é multicausal – e por isso ninguém a constrói isoladamente.

Transformar a segurança pública brasileira não passa por mais um plano grandioso anunciado com certeza absoluta. Passa por algo mais difícil e mais humilde: aceitar que não sabemos tudo e construir, juntos, as condições para descobrir. Testar antes de escalar. Medir antes de confiar. Abandonar tanto o “sempre fizemos assim” quanto o atalho de fazer da polícia heroína ou culpada única. A pergunta que deveria orientar cada política, cada compra e cada operação não é “isso parece que dá certo?”. É outra, mais simples e mais exigente: como sabemos que dá certo? E a resposta dependerá menos de boas intenções isoladas do que da paciência de construí-la com método, investimento e parceria entre quem policia, quem pesquisa e quem financia.

*As opiniões expressas neste artigo são de caráter pessoal e não representam posições institucionais da Polícia Civil do Distrito Federal ou da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal.

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