Múltiplas Vozes 11/03/2026

“CORPOS FORJADOS NO FOGO” E O DILEMA DA ABORDAGEM POLICIAL A PESSOAS COM TRANSTORNOS MENTAIS

Num curso de formação a tônica das aprendizagens recai sobre tiro ao alvo, defesa pessoal, investigação policial, exercícios disciplinares e hierárquicos. No mundo do adoecimento mental, a lógica é outra. Para uma pessoa em surto mental, uma voz dura é entendida como uma ameaça que deve ser atacada

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Fernanda Bassani

Psicóloga Policial e doutora em Psicologia Social e Institucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

“Você não pede a um jardineiro que faça uma espada, logo não peça a um ferreiro que cuide de flores.” Este provérbio africano nos fala das especialidades e talentos que vamos construindo ao longo da vida a partir da repetição de tarefas que cada trabalho traz. Ele também nos alerta sobre o perigo de desconsiderarmos a forma com que certas profissões moldam nossa personalidade e jeito de agir sobre o mundo. Alguns desses riscos podem ser observados em casos recentes de abordagem policial a pessoas com transtornos mentais e usuários de substâncias no Rio Grande do Sul.

O dilema da Brigada Militar diante de ocorrências envolvendo transtornos mentais explodiu em setembro de 2025, com o caso Herick Vargas, em Porto Alegre, divulgado por imagens das câmeras corporais dos PMs[1]. Na ocasião, a mãe havia ligado à polícia e ao Samu pedindo auxílio para conter o surto psicótico do filho. A BM chegou primeiro (e aqui cabe uma ressalva: a BM pode falhar por excessos, mas quase nunca por ausência) e fez uma abordagem que desde os primeiros momentos se mostrou mais produtora de agitação no paciente do que amenizadora do surto, resultando no homicídio do jovem em frente à mãe. Desde então, mais três óbitos de pessoas com transtornos mentais foram registrados em ações da BM (nos municípios de Santa Maria, Viamão e Novo Hamburgo), gerando revoltas na sociedade e questionamentos sobre protocolos que unissem saúde mental e segurança pública.

Para Jung (2010) pedir auxílio à mitologia é válido diante de dilemas que atravessam a linha entre vida e morte e que estão na base de políticas públicas necessárias. Na mitologia afro-brasileira temos Ogum, o orixá guerreiro e também ferreiro de artefatos de metal (Prandi, 2014). Ele poderia ter dito a frase que abre esse texto, porque conhece bem as mazelas de quem trabalha em frentes tão exigentes, cujas condições de calor, pressão e ataque são as piores possíveis. Ogum era conhecido também por seu temperamento explosivo, explicado a partir de sua função: por ser o senhor do ferro e da guerra, sua personalidade moldou-se pela força bruta e pela rapidez que as batalhas exigiam. Mas, e se Ogum fosse chamado para gerenciar atividades delicadas, como cuidar da diversidade de um jardim? Teria a sutileza e o olhar compreensivo para perceber qual planta requer mais água e qual pode ser morta por excesso de água? Teria o toque suave para retirar somente as folhas secas, sem ferir a planta?

A resposta é complexa. Por exemplo, o ponto de forja do aço é 1000 graus, temperatura em que ele adquire a forma moldável. Para chegar a esse objetivo, o ferreiro por certo que se queimava, mas seguia mesmo com dor. Na guerra, o orixá deve ter caminhado em meio a corpos destroçados e ensanguentados pelo chão. Como Ogum dormia depois disso, com as imagens atrozes latejando em sua mente? Criando cascas, por certo. Erigindo uma armadura em torno de si, que isolasse determinadas emoções de seu mundo íntimo, numa aparente frieza. “É isso, ou o inimigo vence. Seja o oponente, ou nossos monstros internos”, poderiam dizer tanto o orixá quanto os policiais.

O problema é que este processo protetivo tem custos e o primeiro deles pode ser a produção de um corpo que já não consegue mais graduar uma ameaça, quando ela foge ao escopo do que foi ensinado em sua formação: o combate ao crime. Um curso de formação da PM dura cerca de 9 meses, em que a tônica das aprendizagens são tiro ao alvo, defesa pessoal, investigação policial, exercícios disciplinares e hierárquicos. Ali aprende que, na relação com o crime, é fundamental que o oponente se renda, através daquilo que chamamos de “voz de comando”. “Mãos ao alto”, “deita no chão”, “joga a arma!”, são alguns exemplos de voz de comando que criminosos de carreira sabem obedecer, porque têm racionalidade para reconhecer quando “a casa caiu!”.

No mundo do adoecimento mental, no entanto, a lógica é radicalmente diferente. Para uma pessoa em surto mental, uma voz dura é entendida como uma ameaça que deve ser atacada. “As vozes da cabeça” podem dizer que não se deve respeitar o que aquele sujeito diz ou afirmar que ele pode partir para cima do policial pois “é invencível até contra bala de prata”. A loucura não respeita a lógica racional: alguém em surto precisa ser convencido ou adequadamente imobilizado. É assim que enfermeiros e psicólogos fazem há anos em hospitais e ambulatórios: usam o olhar acolhedor, a palavra, o humor, a medicação e eventualmente a força de contenção física, mas sempre com protocolos. Na atualidade, dois estressores se somam a este tema: a Lei Antimanicomial e a Resolução do CNJ nº 487/2023 levaram ao fechamento de hospitais psiquiátricos como o São Pedro e o Instituto Psiquiátrico Forense (IPF) ao longo de 2025, encaminhando os pacientes para tratamento na rua. Junto a isso, a ampliação do uso de drogas aumentou as crises agudas de saúde mental em meio aberto, sem um equipamento específico para captação e intervenção em crise. Resultado: “estourou no colo” de policiais não treinados, mas com pronta resposta, por sua atribuição na segurança pública.

O segundo problema relacionado ao isolamento das emoções e “criação de armadura emocional” dos policiais está no seu próprio processo de adoecimento mental não tratado. No Brasil, os policiais são hoje o grupo social que mais se suicida, em uma proporção de 30 por 100 mil habitantes, 3 vezes mais que a população comum, cujo índice não passa de 8 por 100 mil pessoas (Bassani, 2024). Tais dados suscitam questões sobre o quanto a doença mental do cidadão atendido pode mobilizar e desestabilizar um profissional que está em guerra interna para não entrar em contato com suas próprias emoções, confusas e dolorosas.

Uma prova de que o tema da saúde mental é o “calcanhar de aquiles” na BM está nos dados recentes divulgados pelo Ministério da Justiça sobre letalidade policial (MJSP, 2026). Estes apontaram uma queda de 43,6% nos mortos em intervenções policiais e o RS subiu para a 4ª posição no ranking das polícias mais pacíficas do Brasil. Uma grande conquista, mas que rivaliza com as mortes em intervenções com portadores de transtornos mentais. Logo, a abordagem a pessoas com transtornos mentais e usuários de substâncias torna-se um “ponto fora da curva”. De outro lado, os índices de suicídio de policiais, relatados pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, colocaram a BM no 1º lugar entre as polícias que mais se suicidam no Brasil (ABSP, 2025), reforçando nossa hipótese.

Temos aí uma ponte precisa entre dois pontos de um mesmo rio: o rio das emoções dos policiais militares, que parece clamar por um olhar voltado não só à escuta de suas dores, mas a um amplo treinamento emocional. Não uma escuta restrita a consultórios psicológicos desconectados da realidade que os adoece, mas baseada em programas institucionais decididos a qualificar a gestão por meio, por exemplo, do paradigma do “procedimento justo” (Kopittke, 2023), que revolucionou índices de violência da polícia de Chicago. Associam-se a isso “Programas de Desescalada de Violência” (De-Escalation Training Network), focados em “desenvolver habilidades verbais e socioemocionais para aumentar a consciência situacional de ameaças e qualificar a tomada de decisão”. Por fim, os CITs (Crisis Intervention Team – CIT) que treinam equipes mistas de policiais para reconhecerem sinais de sofrimento mental e atuarem junto a especialistas, são outra alternativa.

Mas qualquer protocolo técnico precisa partir de uma premissa: enquanto os policiais da linha de frente não tiverem sua própria dor emocional acolhida e a certeza de que têm reconhecimento e respeito institucional, dificilmente conseguirão reconhecer e respeitar a dor do outro. A cegueira do guerreiro que precisa forjar o ferro a qualquer custo pode permanecer, até mesmo como defesa pessoal, e a lâmina de sua espada machucar outras vidas adoecidas.

[1] Deve-se aqui um elogio a postura do Governador e Secretário de Segurança do RS que, em 2024 implantaram câmeras de segurança nos uniformes da BM, como um projeto ousado à época

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