Perícia em evidência 04/02/2026

Eles continuam entre nós: O Gosto em matar entranhado na mente de um Serial Killer da área de saúde.

No caso dos técnicos de enfermagem do Hospital Anchieta, em especial no que diz respeito ao mentor e executor dos atos, Marcos Vinícius, importa agora buscar sua motivação,

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Cássio Thyone Almeida de Rosa

Graduado em Geologia pela UnB, com especialização em Geologia Econômica. Perito Criminal Aposentado (PCDF). Professor da Academia de Polícia Civil do Distrito Federal, da Academia Nacional de Polícia da Polícia Federal e do Centro de Formação de Praças da Polícia Militar do Distrito Federal. Ex-Presidente e atual membro do Conselho de Administração do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

Em meados de janeiro, o noticiário do Distrito Federal repercutiu a prisão de três técnicos de enfermagem suspeitos de envolvimento nas mortes de três pacientes ocorridas nas dependências do Hospital Anchieta em Taguatinga -DF. Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, de 24 anos (principal suspeito), Amanda Rodrigues de Souza, 28 anos e Marcela Camille Alves da Silva, de 22 anos. O que mais chamou a atenção foi o fato de se tratar de profissionais da saúde, já que a percepção cotidiana que temos em relação a esses trabalhadores é a de cumprirem uma missão que busca preservar a vida, jamais servindo à banalização da morte de pessoas hospitalizadas sob seus cuidados.

O Modus Operandi empregado, conforme apontaram as investigações iniciais, revelou que Marcos Vinícius injetava medicamentos controlados (cloreto de potássio) e até desinfetante, diretamente na veia dos pacientes. As técnicas Marcela e Amanda teriam presenciado as ações e agido de forma conivente por não impedirem os crimes ocorridos em novembro e dezembro do ano passado.

As vítimas identificadas, cujas mortes foram confirmadas pela investigação, são Miranilde Pereira da Silva (75 anos), João Clemente Pereira (63 anos) e Marcos Raymundo Fernandes Moreira (33 anos). As famílias foram informadas e o hospital, que afastou os três envolvidos antes de procurar a polícia, agora colabora para a sequência das investigações, que incluem a possibilidade de que outras mortes ocorridas seguindo padrões semelhantes possam estar relacionadas a mesma conduta. São pelo menos outras duas mortes suspeitas, mas esse número pode aumentar.

Na casuística, o assassinato em série na área da saúde envolve o homicídio intencional de múltiplos pacientes por um profissional dessa área. Em última análise, a relação médico-paciente é baseada na confiança, onde o paciente deposita sua confiança em médicos, enfermeiros e no sistema de saúde.

Não são poucos os exemplos de casos envolvendo profissionais de saúde em eventos classificados como homicídios em série. Para exemplificar, podemos mencionar Donald Harvey, americano conhecido como “O Anjo da Morte”, auxiliar de enfermagem de um hospital, que segundo estimativas pode ter matado entre 70 e 87 pessoas. No Brasil, Edson Izidoro Guimarães, também chamado de “O Anjo da Morte”  ou  “O Enfermeiro da Morte”, foi auxiliar de enfermagem e trabalhou no setor de emergência do Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Ele foi acusado como responsável direto pela morte de pelo menos 5 pessoas, mas estima-se que o número verdadeiro possa chegar a 131, o que o transformaria num dos maiores assassinos em série do Brasil e do mundo.

No caso dos técnicos de enfermagem do Hospital Anchieta, em especial o mentor e executor dos atos, Marcos Vinícius, importa agora buscar sua motivação, o que inicialmente foi alegado por ele como relacionada a busca por “aliviar o sofrimento” das vítimas, argumento que a polícia considera inaceitável.

Sobre a motivação, encontramos algumas possibilidades descritas em um artigo científico quando traça características e ações dos homicidas[i]:

  • Traços intensamente narcisistas;
  • Se a alegação for de que a eutanásia é o objetivo final para aliviar o sofrimento de um paciente, uma análise mais detalhada pode revelar um ganho secundário (financeiro) ou uma motivação de excitação e prazer em controlar a vida de outra pessoa;
  • Autores executam frequentemente tarefas fora de suas atribuições ou status hospitalar;
  • Envolvidos apresentam opiniões frequentemente polarizadas por parte dos colegas de trabalho;
  • Homicidas são extremamente próximos de seus supervisores, o que serve como proteção contra críticas ou denúncias — as queixas são descartadas como mera inveja profissional;
  • A maioria dos assassinos em série na área da saúde, incluindo médicos e enfermeiros, são homens;
  • Surpreendentemente, injeções letais podem ser administradas na presença de familiares que são incapazes de fazer a conexão médica. Isso é uma pista para os temas de poder e controle;
  • A falsificação de credenciais ou conquistas deve ser considerada um fator de alto risco, mesmo na ausência de antecedentes criminais. Grifos nossos.

Como percebemos, algumas das características presentes no caso do Distrito Federal constam entre essas possibilidades.

Os peritos oficiais do DF tiveram uma participação decisiva até agora no caso e deverão seguir apoiando as investigações: peritos médicos legistas analisaram prontuários médicos dos pacientes enquanto peritos criminais analisaram imagens de câmeras e dispositivos apreendidos durante buscas e apreensões. Não se descartam análises laboratoriais das mais diversas: identificação de substâncias, exames de DNA, dentre outros.

Também podemos ter perícias psiquiátricas e psicológicas dos envolvidos. Uma questão que sempre nos inquieta: o principal suspeito seria um psicopata? É preciso muita cautela para se fazer tal afirmação, já que o diagnóstico de pessoas com psicopatia ou aquilo que nós chamamos de transtorno de personalidade antissocial deve ser feito por profissionais psicólogos e psiquiatras, utilizando-se de método científico que envolve testes psicológicos, entrevistas diagnósticas e muitas vezes exames de imagem. Estes profissionais utilizam também manuais diagnósticos que trazem diretrizes características específicas para definir traços de personalidade e comportamentos. O transtorno de personalidade quer seja do tipo antissocial, psicopatia ou qualquer outro manifesta-se por uma forma de agir muito inflexível e mal ajustada.

Esse caso serve para nos alertar: mentes criminosas que se enquadram entre Homicidas Seriais (Serial Killers) ainda caminham entre nós e podem estar onde menos se espera. Cuidado!

[i] MENSHAWEY, Rahma; MENSHAWEY, Esraa. Brave Clarice—healthcare serial killers, patterns, motives, and solutions. Forensic Science, Medicine and Pathology, v. 19, p. 452‑463, 2023. DOI: 10.1007/s12024-022-00556-4

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