Dira Paes
Atriz
E fez-se um halo de luz em torno do sol nos céus do Marajó, como uma saudação para a triste chegada do corpo da Irmã Marie Henriqueta Ferreira Cavalcante, uma mulher que fez história, e eu vou contar pra vocês quem foi essa heroína brasileira.
Nascida no Amazonas, mas declaradamente uma cidadã marajoara, desde cedo já se mostrava uma menina de um olhar forte, que encarava o mundo de frente e os céus também, sem intermediários. O destino quis que seu legado fosse no Pará, mais precisamente na Ilha de Marajó, que está entre os lugares com menores IDH no Brasil. Curiosamente, é a maior ilha fluviomarítima do mundo, um dos paraísos mais belos que já visitei na minha vida.
Eu, Dira, a conheci muito cedo, pois ela já era referência quando se falava em direitos humanos e na luta contra o tráfico e a exploração sexual de crianças e adolescentes, eu fazendo parte do MHuD (Movimento Humanos por Direitos) e ela já atuava bravamente desde a CJP (Comissão de Justiça e Paz) e da CNBB Norte 2. Era famosa por ser destemida. A palavra coragem morava em sua boca e em seus atos. Sua frase preferida era: “A vida pertence a quem se atreve”.
Irmã Henriqueta enfrentou pessoas do poder público e figuras influentes durante sua luta para resgatar e denunciar a rota do tráfico humano que se estabeleceu entre o Marajó e Paramaribo, no Suriname, que é notoriamente um centro receptador de crianças e adolescentes oriundos do Marajó. Ela nunca se intimidou diante das sucessivas ameaças de morte, esse expediente covarde, e que na absoluta maioria dos casos se refere a um homem no poder, muitas vezes responsável por ceifar a vida de tantos heróis conhecidos deste país.
Mas ela nunca andou sozinha, é possível imaginar como ela teve bons companheiros de luta e estrada, entre eles o seu melhor amigo, Dom Azcona, o bispo do Marajó que juntos conseguem bravamente estruturar planos de combate e denúncia do tráfico humano. Fundam o IDAH (Instituto Dom Azcona) e hoje depois da sua abrupta partida naquela curva da BR 230, a diretoria sabiamente incluiu o nome da Irmã na sigla do instituto que ela ajudou a fundar, hoje Instituto Dom Azcona e Irmã Henriqueta dos Direitos Humanos.
Quem luta pelos direitos humanos tem uma resiliência e uma resistência ancestral. Ao lado de Dom Azcona, eles construíram um eco e ali eles conseguiram ampliar cada vez mais a voz que não pode ser mais silenciada. Em 2019, Irmã Henriqueta desembarcou no Vaticano para o Sínodo, realizando um grande sonho. Ela teve a oportunidade de passar trinta dias dialogando com o Papa Francisco, que fazia questão de todos os dias tomar café ao seu lado e ouvi-la contar do Marajó.
Nessas dimensões amazônicas é preciso ter alma de dimensão gigantesca, tem que saber fluir naquelas águas. Ao lado do delegado Rodrigo, seu aliado no combate contra o tráfico humano, às vezes viajavam mais de vinte horas em cima de uma voadeira para apurar denúncias. Ambos foram inspiração para a delegada Aretha, minha personagem no filme Manas, de Marianna Brennand. Que honra a minha poder homenagear sua luta e a sua pessoa!
Graças aos céus, ela teve seu reconhecimento em vida – prêmios, palestras, consultorias – e fez muitos amigos.
Nós éramos muito amigas. Bebi na melhor fonte que existe quando se trata de direitos humanos, tenho certeza disso. Irmã Marie Henriqueta era uma heroína nata. Foi numa curva de estrada que partiu precocemente, mas jamais será esquecida, pois pessoas como Henriqueta não morrem, deixam sementes por onde passam e suas árvores já dão frutos. A vida pertence a quem se atreve!!!

