Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 23/09/2026

Vitimização policial: ampliando o olhar sobre a proteção da vida

Compreender o que está por trás do suicídios de policiais implica na capacidade das instituições de reconhecer e prevenir riscos que transcendem o embate físico

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Juliana Martins*

Psicóloga, Doutora pelo IP-USP e Gerente de Relações Institucionais do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

Denice Santiago

Conselheira do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Tenente Coronela da PMBA, Superintendente de Prevenção da Violência da Bahia

Juliana Lemes da Cruz

Doutora em Política Social pela UFF, Conselheira de Administração do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 3ª Sargento da PMMG

Os dados de vitimização policial de 2025 reforçam uma constatação que não pode mais ser ignorada: proteger a vida dos profissionais de segurança pública exige olhar para além do confronto armado. Embora as mortes violentas intencionais e os suicídios tenham apresentado redução em relação ao ano anterior, os números revelam dinâmicas distintas entre corporações e estados e, sobretudo, mostram que o principal vetor de mortalidade entre policiais continua sendo o suicídio.

Em 2025, 139 policiais civis e militares foram vítimas de mortes violentas intencionais, contra 144 em 2024, uma redução de 3,5% na taxa, de 0,28 para 0,27 por mil policiais. Os registros de suicídio passaram de 126 para 110 casos, com queda de 12,7% na taxa, de 0,25 para 0,22 por mil.

Entre policiais militares, as mortes em confronto durante o serviço caíram de 31 para 21 casos, enquanto aquelas ocorridas em confronto ou por lesão não natural fora do expediente passaram de 76 para 46. Entre policiais civis, o movimento foi inverso: as mortes em confronto em serviço aumentaram de um para oito casos e as ocorridas fora de serviço, de oito para 13. No caso dos suicídios, a queda nacional foi impulsionada principalmente pelos policiais militares, cujos registros passaram de 107 para 89. Entre policiais civis, houve aumento de 19 para 21 casos.

Apesar da queda em 2025, o suicídio permanece como a principal causa de morte entre policiais civis e militares. Foram 110 casos, diante de 59 mortes ocorridas fora de serviço e 29 em serviço. A série histórica reforça a dimensão do problema: desde 2017, os suicídios registrados aumentaram 37,8%, enquanto as mortes violentas intencionais de policiais caíram 63,7%.

Esses dados deslocam o centro da discussão. A vitimização policial não pode ser compreendida apenas como consequência da exposição ao crime e aos confrontos durante o expediente. A violência permanece presente também fora do serviço, e os fatores associados à organização do trabalho e à saúde mental precisam ocupar um lugar central nas políticas de proteção.

O perfil das vítimas também chama atenção. Em 2025, 98,2% eram homens e 61,8%, negros. Cerca de dois terços tinham entre 30 e 49 anos, período que corresponde à parcela central da trajetória profissional. Entre as mortes violentas intencionais, 79,4% foram homicídios dolosos, 19,6%. latrocínios e 1,0%, feminicídios. As armas de fogo estiveram presentes em 88,3% dos casos.

A centralidade do suicídio evidencia que equipamentos e técnicas operacionais, embora importantes, respondem apenas a uma parte do problema. É preciso considerar as condições em que o trabalho policial é realizado, a exposição contínua ao risco, a dificuldade de separar trabalho e vida privada, a relação cotidiana com as armas e os impactos acumulados sobre a saúde mental.

Nesse contexto, a cultura institucional constitui um desafio importante. O chamado “ethos guerreiro” valoriza coragem, resistência e disponibilidade permanente para o enfrentamento, mas pode transformar o sofrimento psíquico em sinal de fraqueza. Exaustão, ansiedade, depressão e outros agravos relacionados ao trabalho podem permanecer ocultos pelo receio de estigmatização, prejuízos à carreira ou restrições ao exercício da atividade. O resultado é que a busca por ajuda pode ser adiada justamente quando intervenções preventivas seriam mais efetivas.

Por isso, o cuidado com a saúde mental não pode ser tratado apenas como resposta ao adoecimento. Iniciativas como o Programa Escuta SUSP, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, e o Programa de Qualidade de Vida (PQuali), da Bahia, apontam caminhos importantes, mas precisam estar articuladas a políticas permanentes de formação, gestão, acolhimento, acompanhamento e prevenção. Também é necessário incorporar indicadores de saúde ocupacional, afastamentos, suicídios e vitimização aos sistemas de gestão, permitindo identificar fatores de risco e orientar ações preventivas.

Proteger aqueles que têm a responsabilidade de proteger a sociedade implica reconhecer que a segurança desses profissionais não se resume à sua capacidade de enfrentar ameaças. Significa também construir instituições capazes de identificar riscos, acolher o sofrimento e atuar antes que ele se transforme em afastamento, crise ou morte. Ampliar o olhar sobre a vitimização policial é, nesse sentido, reconhecer que proteger vidas exige também transformar as condições que podem colocar essas vidas em risco.

 

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