Múltiplas Vozes 11/03/2026

Opacidade e desvio de armas: por que o caso Itapecerica exige uma agenda de governança de arsenais públicos

É preciso incorporar a dimensão da governança de arsenais públicos, indo além da resposta episódica a cada novo escândalo. Isso passa por unificar e tornar interoperáveis os cadastros existentes, padronizar requisitos mínimos de segurança física para paióis e depósitos em todos os níveis, fortalecer corregedorias e mecanismos de controle externo, e vincular repasses federais a padrões verificáveis de controle e transparência sobre armas e munições

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Roberto Uchôa

Conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública Conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e doutorando em Democracia do Século XXI no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra

O recente desaparecimento de mais de 50 armas apreendidas do cofre da Delegacia de Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo, recolocou no centro do debate público o tema dos desvios de armamento sob custódia do Estado. Segundo registros internos, ao menos 52 pistolas e revólveres, apreendidos entre 2011 e 2021, simplesmente sumiram, sem qualquer registro de baixa ou destruição. O caso veio à tona quando uma pistola usada em crime recente em Pirituba, na zona norte da capital do estado, foi identificada como arma que já constava, desde 2017, como apreendida e custodiada no cofre de Itapecerica, revelando que o armamento havia retornado à circulação criminosa. [1]

A reação institucional foi imediata: a Corregedoria da Polícia Civil instaurou inquérito e procedimento administrativo preliminar, passou a ouvir mais de 20 policiais que tiveram acesso ao cofre nos últimos anos e classificou o episódio como “gravíssimo”, diante da possibilidade concreta de que parte do arsenal tenha sido desviada para o crime organizado. As armas desaparecidas, entre elas pistolas e revólveres calibres .38 e .40, este último padrão das forças policiais, estavam em perfeitas condições de uso e deveriam ser submetidas a exames balísticos para compor provas em inquéritos sobre homicídios, roubos e ocorrências envolvendo agentes públicos. Ao comprometer tanto a integridade da prova quanto a segurança da população, o caso Itapecerica evidencia como falhas de governança de arsenais públicos ultrapassam a esfera interna corporis e impactam diretamente a capacidade do sistema de justiça criminal.

Esse episódio não é isolado, mas se soma a uma sequência de escândalos recentes que expuseram a vulnerabilidade de depósitos de armas e munições em diferentes instituições. Levantamento jornalístico mostrou que, em apenas 12 meses, pelo menos 50 armas foram desviadas de batalhões e depósitos de forças de segurança no estado de São Paulo, sem que metade delas fosse recuperada, em um contexto marcado pelo furto de 21 metralhadoras do Arsenal de Guerra do Exército em Barueri e pelo desaparecimento de 26 armas da Guarda Civil Municipal de Cajamar. Tomados em conjunto, Itapecerica, Barueri e Cajamar compõem um retrato eloquente de descontrole sobre estoques estatais em diferentes níveis, federal, estadual e municipal, e ajudam a recolocar o tema da governança de arsenais no radar de formuladores de política, pesquisadores e imprensa especializada.

A recorrência de desvios de armas e munições a partir de arsenais públicos no Brasil, em polícias, Forças Armadas e guardas municipais, deixou, há muito, de ser um conjunto de “casos isolados” para se afirmar, empiricamente, como um problema estrutural de segurança pública. Dados sistematizados por organizações da sociedade civil, CPIs estaduais e reportagens investigativas mostram que uma parcela não trivial do poder de fogo de facções, milícias e outras redes criminosas é alimentada por armamento originalmente sob custódia do Estado. Não se trata apenas de incidentes espetaculares, mas de uma combinação persistente de falhas de controle interno, baixa transparência e, em não poucos casos, conivência ou participação direta de agentes públicos em esquemas de desvio. [2] [3] [4] [5] [6]

No plano federal, levantamento do Instituto Sou da Paz, baseado em pedidos via Lei de Acesso à Informação, indica que, entre 2015 e 2020, as Forças Armadas perderam o controle de pelo menos 54 armas, entre fuzis, pistolas, espingardas, submetralhadoras e fuzis‑metralhadoras, extraviadas em depósitos, furtadas ou desviadas intencionalmente. Em outro recorte, que abrange a última década, estima-se que ao menos 223 armas tenham sido perdidas pelas Forças, com recuperação parcial e índices especialmente preocupantes na Marinha, que ainda impõe sigilo sobre parte dos dados. Em São Paulo, além do caso Barueri, o desaparecimento de armamento de batalhões da PM e de guardas municipais reforça a percepção de que o problema atravessa diferentes segmentos do aparato armado. [7] [8]

No plano estadual, estudos e CPIs estaduais já haviam revelado, desde os anos 2000, um padrão de descontrole sobre arsenais policiais. No Rio de Janeiro, a CPI das Armas apontou o desaparecimento de centenas de armas da PM e da Polícia Civil ao longo de uma década, além de milhares de armamentos desviados de empresas privadas de segurança, um circuito no qual armas “legais” percorrem trajetórias opacas até reaparecerem em cenas de crime. Em paralelo, reportagens como a da BBC Brasil sobre o desvio de munições da PM de São Paulo para abastecer facção na Rocinha, no Rio de Janeiro, e reportagens do The Intercept rastreando munições de lotes adquiridos por Forças Armadas e academias de polícia até confrontos envolvendo milicianos reforçam o diagnóstico de que falhas de controle estatal alimentam diretamente mercados armados ilegais. [9]

Se o problema é antigo, a forma como ele é tratado hoje ainda está aquém da gravidade revelada pelas evidências. O Brasil dispõe, em tese, de um arcabouço normativo para registro e rastreabilidade, com SINARM, SIGMA e normas de marcação de armas e munições vendidas a instituições de segurança, mas os diagnósticos recentes convergem em apontar um hiato expressivo entre norma e prática. A atualização do Ranking de Transparência de Dados sobre Armas de Fogo nos Estados, coordenada por Instituto Igarapé e Sou da Paz, demonstra que a maioria dos órgãos de segurança ignora ou nega pedidos de informação sobre seus arsenais; em 2023, por exemplo, apenas duas Polícias Militares responderam quantas armas possuíam ativas em seus estoques, e nenhum estado alcançou nível alto de transparência. A Polícia Civil, segundo o mesmo levantamento, é a instituição menos transparente em relação a dados sobre armas de fogo, deixando sem resposta 78% dos pedidos feitos via LAI entre 2021 e 2023. [10]

Essa opacidade não é neutra. Ao impedir que sociedade civil, imprensa e órgãos de controle acompanhem rotinas de armazenamento, perdas, roubos e recuperações, ela reduz incentivos para aperfeiçoar processos internos e dilui responsabilidades individuais e institucionais. A literatura internacional sobre armas pequenas e leves, bem como as diretrizes da ONU e da OSCE, enfatiza justamente o oposto: a necessidade de inventários regulares e independentes, inspeções surpresa, consolidação de estoques em menos locais, destruição controlada de excedentes e, sobretudo, reporte sistemático de perdas e roubos como condição para reduzir o risco de desvio. A experiência de órgãos como o FBI, que reduziu significativamente o número de armas perdidas após auditorias externas e sanções consistentes a agentes responsáveis, ilustra o potencial de medidas que combinam técnica, transparência e responsabilização. [11] [12] [13] [14]

Nesse sentido, o debate brasileiro sobre segurança pública precisa incorporar, de forma mais central, a dimensão da governança de arsenais públicos, indo além da resposta episódica a cada novo escândalo. Isso passa por unificar e tornar interoperáveis os cadastros existentes, padronizar requisitos mínimos de segurança física para paióis e depósitos em todos os níveis (incluindo delegacias que custodiam armas apreendidas), fortalecer corregedorias e mecanismos de controle externo, e vincular repasses federais a padrões verificáveis de controle e transparência sobre armas e munições. Em paralelo, a pesquisa recente do próprio Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) acerca dos efeitos da difusão de armas civis sobre os homicídios mostra que o aumento geral da circulação de armamento, estatal e privado, tende a agravar indicadores de letalidade, e não o contrário, reforçando a necessidade de reverter flexibilizações normativas e reafirmar o controle de armas como pilar de qualquer política de redução da violência. [15]

Para uma instituição como o FBSP, que articula produção de conhecimento, incidência pública e diálogo com gestores, o tema dos desvios de arsenais públicos, catalisado agora pelo caso Itapecerica, representa uma fronteira estratégica de atuação. Ao qualificar o debate com evidências, conectar práticas nacionais às referências internacionais e pressionar por mecanismos de transparência e responsabilização, o campo da segurança pública pode deslocar o foco de uma narrativa centrada apenas no “bandido armado” para uma compreensão mais completa das engrenagens que colocam armas de guerra nas ruas, entre elas, a forma como o próprio Estado administra, protege (ou falha em proteger) o seu arsenal. Nesse movimento, enfrentar o desvio de armas institucionais deixa de ser apenas uma pauta técnica e se afirma como condição de legitimidade democrática para políticas de segurança orientadas à redução duradoura da violência letal.

[1] https://g1.globo.com/google/amp/sp/sao-paulo/noticia/2026/02/25/mais-de-50-armas-desaparecem-de-delegacia-na-grande-sp-corregedoria-da-policia-civil-apura-sumico-diz-secretario.ghtml
[2] https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/forcas-armadas-perderam-54-armas-em-5-anos-diz-estudo-do-instituto-sou-da-paz/
[3] https://www.intercept.com.br/2025/06/09/milicianos-usaram-municoes-das-forcas-armadas-e-policias-do-rio-e-ceara-contra-policiais-em-operacao-no-rio/
[4] https://www.gazetadopovo.com.br/republica/armas-de-quarteis-abastecem-faccoes/
[5] https://www.minc.com.br/cpi-das-armas
[6] https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2024/09/06/estado-de-sp-tem-pelo-menos-50-armas-desviadas-de-batalhoes-e-depositos-em-menos-de-1-ano-nem-metade-foi-recuperada.ghtml
[7] https://soudapaz.org/forcas-armadas-perderam-54-armas-em-5-anos-diz-estudo-do-instituto-sou-da-paz/
[8] https://www.metropoles.com/brasil/forcas-armadas-perderam-pelo-menos-223-armas-desde-2013#goog_rewarded
[9] https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45149528
[10] https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2026-02/controle-de-armamentos-nao-e-prioridade-dos-estados-diz-sou-da-paz
[11] https://www.sipri.org/sites/default/files/research/disarmament/dualuse/pdf-archive-att/pdfs/osce-document-on-small-arms-and-light-weapons.pdf
[12] https://archive-disarmament.unoda.org/convarms/small-arms-stockpile-management/
[13] https://disarmament.unoda.org/en/our-work/conventional-arms/small-arms-and-light-weapons
[14] https://oig.justice.gov/sites/default/files/reports/a20041.pdf
[15] https://fontesegura.forumseguranca.org.br/estudo-do-forum-brasileiro-de-seguranca-publica-avalia-impacto-dos-decretos-de-armas-sobre-os-homicidios-do-pais/

 

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