“MACHOS-ALFAS” NA SEGURANÇA PÚBLICA: que desafios trazem às mulheres policiais?
A rigidez hierárquica das corporações desestimula práticas de diálogo ou denúncia, especialmente nas Polícias Militares. Em outras instituições não tão rígidas, como as Polícias Civis, tais condutas enfrentam uma “cultura do silêncio”
Fernanda Bassani
Psicóloga Policial há 10 anos, Escritora, Doutora em Psicologia Social e Institucional (UFRGS)
Em 2026 o mês da mulher manchou o Brasil de sangue e vergonha com os números de feminicídios crescentes. Dentre estes casos, pelo menos dois envolveram mulheres policiais: o da soldado Gisele Santana, da PM de São Paulo, e o de Dayse Barbosa, primeira mulher a comandar a Guarda Municipal de Vitória. Tais crimes demonstram que os monstros do machismo, da violência de gênero e da misoginia não respeitam sequer armas na cintura.
Também são policiais os possíveis autores dos dois assassinatos. No caso de Gisele, o suspeito é o Tenente-coronel Geraldo, seu marido e lotado na mesma corporação. Já a Comandante Dayse foi assassinada por seu namorado, o Policial Rodoviário Federal Diego, que após o feminicídio procedeu ao suicídio. Ambas as policiais já sofriam violências de seus companheiros, algumas detectadas por colegas de batalhão, como no caso de Gisele, mas nenhuma havia registrado ocorrência. Além disso, os dois agressores eram reincidentes em violências de gêneros na corporação. O Tenente-coronel tinha um histórico de assédios sexuais e morais contra policiais de patente inferior e Diego respondia um processo administrativo por importunação sexual a uma colega.
Quem conhece um pouco das relações culturais do território policial pode supor que não se tratam de casos isolados: neste momento outras “Giseles” e “Dayses” estão em relacionamentos abusivos e violentos, inseguras quanto a denunciar. Seus medos são potencializados pela imagem idônea que têm a zelar por serem policiais e pelos contornos de hierarquia, disciplina e machismo de suas corporações, que as fazem esperar, em vez de proteção, rechaços nas instituições ao denunciar colegas.
Para compreender os medos das mulheres policiais é importante conhecer um pouco da “cultura policial”, definida por Reiner (2004) como um “conjunto de valores e práticas compartilhadas entre policiais de todo mundo, que molda a forma como estes percebem o ambiente e agem” (p.34). Envolve uma divisão social nós (policiais) x eles (paisanos); Atitude constante de suspeita e alerta; Grande solidariedade entre colegas; Pragmatismo e visão pessimista do mundo; Conservadorismo, machismo e racismo (REINER, 2004).
Um dos traços mais comuns da cultura policial é a postura desconfiada com relação a pessoas civis, justificada pelos riscos de uma profissão que enfrenta o mundo do crime. Para policiais, qualquer um pode ser um criminoso disfarçado ou alguém que pode socializar informações de suas investigações. Por conhecerem o lado feio e vergonhoso da vida através do trabalho, sabem que “quem vê cara não vê coração”. Como consequência, tendem a criar um mundo social à parte, priorizando relacionamentos sociais e afetivos com outros policiais (LAMEGO, BASSANI, 2022).
O efetivo feminino nas policias do Brasil é de 20%, envolvendo cerca de 51 mil mulheres nas PMs, 31 mil nas Polícias Civis, 28,2 mil nas Polícias Penais, 13,6 mil nas Guardas Municipais e 4,5 mil mulheres nas Polícias Federais (LIMA et all, 2024). Ainda que não haja uma pesquisa específica sobre o tema da conjugalidade, é possível que muitas das 130 mil mulheres (FBSP, 2024) policiais do Brasil estejam hoje em relacionamentos com outros policiais, homens que são pessoas armadas e moldadas dentro de uma cultura que exacerba traços do machismo e estimula ideias do “arquétipo do herói” (LAMEGO, BASSANI, 2022). Arquétipo cujos contornos de virilidade e poder são facilmente associáveis a imagem do macho provedor e infalível, ou o “macho-alfa” difundido nas palavras do Tenente-coronel Geraldo em conversas com Gisele.
As mulheres policiais também enfrentam o desafio cotidiano do assédio sexual e moral no trabalho. Pesquisa da ong Think Eva (2020) com 414 brasileiras, detectou que 47% das mulheres já haviam sido assediadas sexualmente no trabalho, sendo que só 5% denunciou. Pesquisa de Santos (2025) com 64 policiais vítimas de assédio, detectou que 90% delas não tiveram qualquer tipo de acolhimento da instituição e ao menos 60% delas foram afetadas emocionalmente, recorrendo a tratamentos psicológicos.
A rigidez hierárquica das corporações desestimula práticas de diálogo ou denúncia, especialmente nas Polícias Militares. Em outras instituições não tão rígidas, como as Polícias Civis, tais condutas enfrentam uma “cultura do silêncio” (REINER, 2004), que sugere que é melhor manter-se calada “para não arrumar problemas com cargos superiores”. Em sua pesquisa Santos (2025) detectou que as policiais que tiveram a coragem de denunciar puderam contar com apenas 1/3 das testemunhas indicadas, as demais se negaram a se pronunciar. Por fim, é possível que haja processos de resistência inconsciente da categoria, sendo o assédio sexual um recado masculino: “Você não pertence a este lugar”. Ou, “sua função aqui é me servir.”
Os acontecimentos trágicos de 2026 pressionam as corporações a assumir sua responsabilidade na proteção da dignidade e da vida de suas trabalhadoras, a partir de ao menos três medidas: 1) Ampla campanha de conscientização e educação para a prevenção da violência de gênero, misoginia e assédio no âmbito policial; 2) Instalação de mecanismos institucionais para receber denúncia de violências de gênero (Ouvidoria, telefone específico etc.), com acolhida em saúde mental e garantia do afastamento seguro da vítima-agressor no curso do processo; 3) Criação de grupos de apoio às mulheres policiais no modelo de “suporte entre pares” (IACP, 2016) comuns nas Polícia dos EUA, onde as coordenadoras podem ser policiais que já passaram por experiências semelhantes, treinadas e acompanhadas de psicólogos. Grupos tendem a fortalecer o senso de pertença e retiram medos e culpas por processos que, neste caso, não respondem a patologias individuais, mas são estruturais de nossa sociedade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
REINER, R. A política da polícia. Ed. EDUSP, 2004.
IACP (Associação Internacional dos Chefes de Polícia), Peer Support Guidelines Ratified by the IACP Police Psychological Services Section Califórnia, 2016
LAMEGO, M. E BASSANI, F. Sofrimento Psíquico entre Policiais: um Estudo na Polícia Civil do Rio Grande do Sul. Ver. Psicologia: Organizações e Trabalho, 22(3), 2144-2152. https://doi.org/10.5935/rpot/2022.3.22973
LIMA et all, Raio X das Forças de segurança pública no Brasil. Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2024.
THINK EVA, O ciclo do assédio sexual no ambiente de trabalho. 2020. Link: https://thinkeva.com.br/estudos/o-ciclo-do-assedio-sexual-no-ambiente-de-trabalho
SANTOS, K. Assédio nas polícias brasileiras: o impacto do silenciamento. FBSP: Fonte segura: Múltiplas vozes, 07/09/2025

