Das corporações às urnas: militares políticos ou políticos militares?
O momentum mais favorável para eleição de candidatos oriundos das Forças Repressivas de Estado parece coincidir com uma combinação de três elementos principais: o bolsonarismo, a centralidade da segurança pública no debate público e o alinhamento partidário desses nomes mais à direita
Felipe Ramos Garcia
Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo e pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV-USP)
A presença de policiais e militares na disputa eleitoral brasileira tornou-se tema recorrente desde as eleições de 2018. Nesse texto, apresento um balanço das candidaturas oriundas das Forças Repressivas de Estado (FRE), categoria proposta por Berlatto, Codato e Bolognesi (2016)[1], nas eleições gerais de 2014, 2018, 2022 e 2026 com o argumento de que a oferta de candidaturas varia relativamente pouco, ao passo que o número de eleitos cresceu após 2018, associado ao contexto político e ao alinhamento partidário desses candidatos. Entre 2014 e 2026, as FRE responderam por 4%, 4,1%, 5% e 4,6% do total de candidaturas, respectivamente[2]. Em números absolutos, a série oscila mais: 1.048, 1.204, 1.463 e 972 candidaturas, variação que acompanha, em parte, a redução do total de registros em 2026, como é possível observar no Gráfico 1. Os policiais militares constituem o maior contingente em todos os anos, com 577 a 835 candidaturas e a oferta concentra-se nas disputas proporcionais, com o cargo de deputado estadual reunindo 63,2% das candidaturas das FRE em 2014 e 53,7% em 2026, enquanto o de deputado federal passou de 24,5% para 35,9%, com máximo de 38,3% em 2022. O comportamento dos eleitos é distinto, como se observa no Gráfico 2. Foram 18 em 2014 (1,1% de todos os eleitos), 80 em 2018 (4,5%), 43 em 2022 (2,5%) e 46 em 2026 (2,6%). Somente em 2018 a participação desse grupo entre os eleitos superou sua participação entre os candidatos. A coincidência com a candidatura de Jair Bolsonaro, eleito presidente tendo como vice o general Hamilton Mourão, sugere um efeito de arraste, hipótese que os dados descritivos permitem formular, mas não demonstrar.
Gráfico 1 – Candidaturas das Forças Repressivas de Estado por ocupação declarada, eleições gerais de 2014 a 2026
Gráfico 2 – Eleitos das Forças Repressivas de Estado por ocupação declarada, eleições gerais de 2014 a 2026
O momentum mais favorável para eleição de candidatos oriundos das FRE parece coincidir com uma combinação de três elementos principais: o bolsonarismo, a centralidade da segurança pública no debate público e o alinhamento partidário desses nomes mais à direita. Berlatto, Codato e Bolognesi (2016) mostram que, entre 1998 e 2014, cerca de 70% dos candidatos desse grupo à Câmara concorreram por partidos de direita, com deslocamento progressivo para pequenas legendas sem identidade ideológica nítida. Os dados de 2014 são compatíveis com essa dispersão, já que as candidaturas se distribuíram por 32 partidos, nenhum com mais de 6,7% do total. A partir de 2018, a oferta permanece dispersa, mas os eleitos concentram-se no partido de Bolsonaro: o PSL reuniu 19,4% das candidaturas e 56,3% dos eleitos das FRE em 2018, o PL, 10,6% e 37,2% em 2022, e 12,8% e 50,0% em 2026[3].
As trajetórias individuais indicam que a segurança pública opera como porta de entrada para carreiras políticas mais amplas[4]. Tenente-coronel Zucco, por exemplo, elegeu-se deputado estadual pelo PSL (RS) em 2018, deputado federal pelo Republicanos em 2022 e governador pelo PL em 2026. Capitão Contar foi eleito deputado estadual pelo PSL (MS) em 2018, disputou o governo do estado pelo PRTB em 2022 e elegeu-se senador pelo PL em 2026. Cabo Gilberto Silva passou do PROS, em 2014, ao PSL, pelo qual se elegeu deputado estadual (PB) em 2018, e depois foi para o PL, pelo qual foi eleito deputado federal em 2022 e em 2026. Em outra direção, a policial civil Alessandra Campelo exerceu mandatos de deputada estadual no Amazonas pelo PCdoB, pelo MDB e pelo PSC e se elegeu vice-governadora pelo PSD em 2026. Em comum, essas carreiras organizam-se a partir de partidos e coalizões, e não apenas de pautas corporativas.
Alé disso, a maior presença das FRE nos legislativos não implica, por si, ganhos na política de segurança pública. Ao analisar vereadores, Novaes (2024)[5] mostra que a eleição de candidatos policiais com plataforma de “lei e ordem” aumenta os homicídios, pois o policiamento passa a favorecer as áreas que apoiaram o eleito, em detrimento daquelas nas quais vive a maior parte da população vulnerável à violência. O efeito não se verifica onde instituições locais tornam o policiamento mais transparente. Para deputados e senadores, o achado permanece como hipótese a ser testada, mas o que é possível observar, preliminarmente, é que a oferta de candidaturas das FRE é relativamente estável, enquanto seu êxito eleitoral depende do contexto. O aumento dos eleitos a partir de 2018 combina bolsonarismo, centralidade da segurança pública e alinhamento à direita, e expressa sobretudo a conversão de militares e policiais em políticos profissionais, impulsionados por esse momento. Porém, esse movimento não significa, por si só, avanços na segurança pública para a população.

