Rodolfo Jacarandá
Professor da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), coordenador do Grupo de Pesquisa Sociedades Punitivas (UNIR/CNPq) e do projeto AMAZONCRIM
Nas últimas semanas, dois números sobre a cocaína na Amazônia circularam como se fossem medidas: o valor da droga apreendida na região e o mapa das rotas que cada facção controlaria. Nenhum dos dois é medida. Vale perguntar, antes, o que o Brasil de fato sabe sobre a droga que atravessa a floresta. A resposta curta: bem menos do que os mapas sugerem.
Ninguém soma o que o país apreende
O Brasil informa às Nações Unidas apenas o que a Polícia Federal apreende: 75,6 toneladas de cocaína em 2024. Somada a coluna das polícias estaduais do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o registro chega a pelo menos 203,4 toneladas, quase três vezes mais, e o país sairia do 7º para o 3º lugar do ranking mundial. É um piso: as polícias de Minas Gerais e do Rio de Janeiro não aparecem na estatística. Não é manipulação, é ausência de sistema. Com 27 polícias civis, 27 militares e duas federais, não há instância que reúna o total, como reconheceu em 2022 um boletim da SENAD, do UNODC e do PNUD. E o país não tem hoje nenhuma série viva em quilos: o microdado do Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas termina em 2023, e a tabela do Anuário não voltou na edição de 2026.
Os dados do mundo já respondem a algumas perguntas
Enquanto isso, o dado que existe é pouco usado. O anexo do World Drug Report 2026 registra 384,8 mil hectares de coca em 2024, o triplo de 2013, e produção potencial de 4.100 toneladas de cocaína pura. O mundo apreendeu 2.383. A razão entre o apreendido e o que se poderia produzir não ficou abaixo de 54% em dez anos; descontada a pureza, fica perto de 38%. Mesmo assim, a regra de que “só 10% da droga é apreendida” segue sendo repetida, inclusive por fontes policiais ouvidas no relatório da Global Initiative deste mês. Aplicada ao Brasil, ela implicaria 2.000 toneladas cruzando o país por ano, metade da produção mundial. O UNODC já mostrou que, entre 2006 e 2020, a interceptação cresceu mais que o dobro da produção.
Metade da cocaína amazônica não está no mapa
Um terço da cocaína apreendida no Brasil em 2024 saiu dos nove estados da Amazônia Legal: 67,7 toneladas. Metade disso, 33,5 toneladas, foi apreendida no Mato Grosso, estado que a análise internacional costuma tratar como “Centro-Oeste” e tirar do mapa amazônico. Mato Grosso, Rondônia e Acre, o eixo terrestre do sudoeste por onde a cocaína boliviana e peruana entra desde os anos 1990 pelo Guaporé e pela BR-364, respondem por 57% da região, como discuti em artigo no Ipea. As próprias Cartografias da Violência na Amazônia do FBSP apontam Cáceres e Guajará-Mirim como portas de entrada. Em Rondônia, nosso monitor reconstruiu as apreensões de 2024 uma a uma: 67% da cocaína do estado foi interceptada na BR-364, toda em carga de atacado, quase sempre pela Polícia Rodoviária Federal. O relatório da Global Initiative, construído sobre entrevistas em Manaus, no Amapá e na Guiana Francesa, não menciona Mato Grosso, Rondônia ou Acre uma única vez em 32 páginas, e sua série de apreensões usa só a Polícia Federal. A afirmação de que o Comando Vermelho mantém plantações de coca no Vale do Javari remete a um relatório anterior do próprio autor, sem apreensão, área cultivada ou volume que a sustente. Rotas assim descritas viram setas no mapa, e as setas viram verdade.
Atacado e varejo são dois mercados
Falta também dizer o que se disputa. Não existe estimativa oficial de faturamento por facção; o que circula é extrapolação de operações a que cada pesquisador teve acesso. O que dá para medir é a estrutura do mercado. O Monitor de Apreensões de Drogas do nosso grupo reconstruiu, apreensão por apreensão, 851 ocorrências no Amazonas em 2024: o atacado é 26% das apreensões e 99,8% dos quilos, e viaja pelo rio e pela fronteira; o varejo é 67% das apreensões, 0,1% dos quilos, e 76% dele estão em Manaus. São dois negócios, com preço, risco e gente diferentes. Um olha para a exportação; o outro, para o consumo interno. Dizer que uma facção “controla a rota” sem dizer qual desses dois andares ela ocupa não descreve o mercado.
O preço decide a manchete antes do dado
O quilo de cocaína no atacado custa cerca de US$ 2.000 na Bolívia, US$ 2.643 no Brasil e US$ 38.800 na Alemanha, segundo os preços informados ao UNODC. Neste ano, a cocaína apreendida na Amazônia foi avaliada a US$ 15.000 o quilo, preço de outro elo da cadeia, e por isso apareceu à frente do ouro entre as “commodities” da região; ao preço brasileiro, cai para o último lugar da lista. Em 82 apreensões noticiadas em 2021, o valor atribuído ao mesmo quilo pelas autoridades variou 196 vezes. O preço certo não é difícil de achar: ele não existe como dado público.
A BR-319 pode unir os dois eixos
Hoje, o eixo fluvial do Solimões e o eixo rodoviário do sudoeste são dois sistemas quase sem ligação terrestre. A pavimentação do “trecho do meio” da BR-319, entre Manaus e Porto Velho, em licenciamento e disputa judicial em 2026 é a única conexão rodoviária possível entre eles. Pronta, ela converte carga fluvial em carga rodoviária no meio do caminho, em 400 quilômetros de estrada com acessos laterais difusos, num estado onde a Polícia Rodoviária Federal apreendeu 4,5 quilos de cocaína em 2024, contra 9,2 toneladas no Mato Grosso. Se a dinâmica norte-sul do mercado de cocaína e dos outros ativos ilícitos mudar, o país vai precisar modelar cenários, e cenário se modela com séries. Sem uma régua nacional de apreensões, sem preço e pureza oficiais e sem pesquisa periódica de consumo, a política preventiva continuará sendo desenhada a partir de setas, não de dados. Medir mal ainda é melhor do que não medir, desde que se diga, a cada número, qual régua está sendo usada.

