Agentes estatais mataram uma criança de 4 anos. O Estado chamou de legítima defesa.
Ryan foi socorrido pela própria família. Os policiais militares sequer perceberam que haviam acabado de atingir uma criança. Ele foi operado na Santa Casa de Santos, mas não resistiu. Coube à família velar aquele corpinho de 1,05 metro
Samira Bueno
Diretora Executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública
Ryan, 4 anos, era o filho caçula de Beatriz e Leonel. Bia, mãe de três, há nove meses combinava a difícil rotina da maternidade com o luto. Seu marido, Leonel, havia sido morto pela PM em fevereiro, durante a Operação Escudo/Verão. Leonel já tinha cumprido sua pena e recomeçava a vida ao lado da família. Foi atingido por um tiro nas costas antes de ser preso, o que o fazia depender de muletas para se locomover. Embora utilizasse muletas, a polícia afirmou que ele portava arma de fogo e teria atirado contra os policiais. Suas muletas nunca foram encontradas.
A vida já era difícil, mas Beatriz, mãe de três crianças e agora viúva, precisava dar conta dos filhos. Até que o Estado novamente se impôs a essa família. Naquele 5 de novembro de 2024, sete policiais militares decidiram atirar contra dois adolescentes no Morro do São Bento, em Santos. No inquérito, os policiais afirmam que foram vítimas de injusta agressão praticada por sete criminosos e que não tiveram outra opção senão reagir. Já a versão dos moradores diverge substancialmente da apresentada pelos agentes do Estado: eram apenas dois adolescentes, em uma biqueira, encostados em uma motocicleta e sem armas.
De fato, os supostos sete criminosos aparecem apenas no relato inicial dos próprios policiais. O que se sabe é que dois adolescentes foram atingidos por disparos de fuzil IMBEL calibre 5,56, espingarda Benelli M3 calibre 12 e pistola Glock G22 calibre .40. Luiz Henrique, de 15 anos, foi atingido por diversos tiros, segundo o relatório de atendimento médico elaborado após a ocorrência. Gregory, de 17 anos, foi atingido por sete disparos, cinco deles pelas costas. Foi o tiro na cabeça que causou sua morte, que, segundo o laudo necroscópico, ocorreu de forma imediata. Ainda assim, os policiais o “socorreram” e desfizeram a cena do crime. Coube à família um enterro com caixão fechado, já que a gravidade das lesões impediu qualquer despedida. Mal havia corpo para enterrar.
Como “efeito colateral” dessa ação que envergonha a Polícia Militar do Estado de São Paulo, um dos projéteis atingiu Ryan, que brincava com os irmãos e outras treze crianças a cerca de 70 metros de onde os adolescentes foram executados. Policiais militares, supostamente treinados, julgaram razoável disparar armas de tamanho poderio bélico em uma área urbana cheia de crianças. Ryan foi atingido no abdômen por um projétil disparado por um dos policiais e caiu imediatamente na rua. Seus irmãos, então com 7 e 10 anos, descrevem com precisão os momentos de desespero. João havia apenas atravessado a rua para buscar a bola. Ao ouvir os tiros, jogou-se no chão — um reflexo aprendido por quem já conhece intimamente o som dos disparos e suas consequências.
Ryan foi socorrido pela própria família. Os policiais militares sequer perceberam que haviam acabado de atingir uma criança. Ele foi operado na Santa Casa de Santos, mas não resistiu. Coube à família velar aquele corpinho de 1,05 metro.
Nesta semana, a Polícia Civil concluiu que os sete policiais militares envolvidos na ocorrência agiram em legítima defesa. Os supostos criminosos, de 15 e 17 anos, teriam representado tamanho risco à vida dos agentes do Estado que não haveria outra opção aos policiais. As conclusões ignoram completamente os relatos dos moradores e até mesmo do adolescente sobrevivente, baseando-se exclusivamente na versão dos próprios policiais. Mas, afinal, de que vale a versão de quem é culpado por ter nascido pobre no Brasil?
O relatório final do delegado afirma, sobre Ryan: “O projétil que o atingiu apresentava abaulamento e chegou com energia final reduzida, não transfixando seu pequeno corpo, revelando que a hipótese mais provável é que tenha sido atingido após o projétil ricochetear mais abaixo na via (próximo ao local do confronto), o que revela a impossibilidade de que esse resultado fosse previsível aos militares que disparavam em legítima defesa.”
Sete policiais militares que atiraram contra dois adolescentes em uma rua na qual brincavam quinze crianças não podiam prever que alguém pudesse ser atingido. Resta a dúvida se esses policiais sofrem de despreparo extremo ou de pura indiferença pela vida dos que ali residem. O inquérito da Polícia Civil inocentou os policiais envolvidos na ocorrência. Agora, resta aguardar o posicionamento do Ministério Público. Mas, se os sete policiais militares envolvidos no caso acreditam em justiça divina, terão de dormir pelo resto de suas vidas lembrando que assassinaram uma criança de 4 anos e destruíram uma família.

