O mistério dos ‘pés flutuantes’ encontrados em praias no Canadá: quando ciência forense e ciência pura se completam
A Tafonomia Forense, o estudo do que acontece com restos orgânicos depois da morte, contribuiu para a solução do intrigante caso ocorrido no entorno do mar de Salish
Cássio Thyone Almeida de Rosa
Graduado em Geologia pela UnB, com especialização em Geologia Econômica. Perito Criminal Aposentado (PCDF). Professor da Academia de Polícia Civil do Distrito Federal, da Academia Nacional de Polícia da Polícia Federal e do Centro de Formação de Praças da Polícia Militar do Distrito Federal. Presidente do Conselho de Administração do Fórum Brasileiro de Segurança Pública
Hoje trazemos nessa coluna um caso interessante, curioso e ao mesmo tempo enigmático. Entre 2007 e 2019, cerca de 22 pés humanos mutilados foram encontrados em praias do mar de Salish, no litoral sudoeste do Canadá, entre a Colúmbia Britânica e o estado de Washington (EUA), região que compreende estreitos e enseadas como o Estreito da Geórgia e Puget Sound.
Desde o primeiro registro, ocorrido em 20 de agosto de 2007, quando uma menina de 12 anos avistou um único tênis de corrida nas cores azul e branco – tamanho 44 – em uma praia da ilha Jedediah, na Colúmbia Britânica, o mistério se instalou. Ao olhar dentro do tênis ela viu uma meia, e dentro da meia, um pé. Menos de uma semana depois, na vizinha Ilha Gabriola, um casal de Vancouver desfrutava de uma caminhada à beira-mar e encontrou um tênis preto e branco da marca Reebok. Dentro dele havia outro pé em decomposição, também masculino e tamanho 44. Os dados indicavam tratar-se de pés pertencentes a pessoas distintas, já que os tênis eram diferentes e ambos eram pés direitos.
No ano seguinte, mais cinco pés aparecerem ao longo da costa canadense, todos na mesma região geográfica (ao redor da Ilha de Vancouver). Nos 12 anos seguintes, os surgimentos de outros 15 pés sustentaram e alimentaram o mistério. Outras seis ocorrências são descritas já na margem americana, na enseada de Puget.
Durante esse período, a repercussão cresceu e o fenômeno ficou conhecido como “pés flutuantes do Mar Salish”. Com exceção de um pé calçando uma bota de caminhada, todos os casos estavam relacionados com tênis. A fama do caso levou até mesmo a publicação de uma página na Wikipédia.
Foi inevitável que surgissem as teorias mais variadas e controversas relacionando os casos à atuação de assassinos em série (com uma assinatura relacionada a esquartejamentos), a naufrágios de contêineres cheios de migrantes que afundaram no oceano; e até mesmo à ação de alienígenas!
Mas o que a ciência forense descobriu?
Os legistas concluíram que os pés não haviam sido cortados, ou seja, a separação ocorreu naturalmente durante a decomposição prolongada na água (uma espécie de desarticulação natural). Portanto, não havia cortes ou traumas nesses pés encontrados nas praias e que chegaram flutuando até lá.
Um ponto muito relevante foi a questão de como os pés apareciam. Quase a totalidade estava relacionada a um tipo de calçado. Essa era uma “pista” importante e a ser seguida. O calçado ajuda a explicar por que eles chegam à praia: tênis podem flutuar e proteger os restos, enquanto correntes e marés os transportam. Em nenhum dos casos examinados as autoridades disseram ter encontrado evidências de crime.
A perícia também combinou exame dos ossos e tecidos, análise de calçados, DNA e comparação com registros de pessoas desaparecidas. Um exemplo é o caso de Stanley K. Okumoto: a análise de DNA vinculou a perna e o pé encontrados perto de Jordan River, em 2017, aos restos identificados do homem, desaparecido nos Estados Unidos. Em outros casos, dois pés encontrados em momentos próximos foram associados entre si; mas isso não significa, por si só, que a causa da morte tenha sido determinada.
Análises relacionadas a uma área da ciência denominada Tafonomia Forense (estudo do que acontece aos restos orgânicos depois da morte — como se decompõem, são alterados e transportados). As investigações científicas ofereceram um mecanismo plausível para a desarticulação natural. Em um estudo no fundo do Estreito da Geórgia, a cerca de 300 metros de profundidade, anfípodes necrófagos (pequenos crustáceos) cobriram rapidamente as carcaças e deixaram os tecidos moles praticamente consumidos em três a quatro dias. Esse resultado ajuda a mostrar que a atividade de animais marinhos pode alterar um corpo de forma bastante rápida.
Outra contribuição importante da ciência neste quebra cabeças vem da oceanografia, que ajuda a explicar o possível transporte: objetos que flutuam podem ser levados por correntes superficiais, marés e vento. Na região, os ventos predominantes podem empurrar objetos flutuantes em direção à costa.
A síntese do fenômeno como um todo pode ser entendida como uma combinação de pessoas que morreram ou desapareceram na água, decomposição e ação de organismos marinhos, separação natural das extremidades, calçados capazes de flutuar ou proteger os restos e transporte por correntes e vento.
Embora nem todos os casos possam ser considerados esclarecidos, a ciência forense fez a sua parte: explicou como o fenômeno poderia ter ocorrido.

