Luana Maria Lima Alves
Psicóloga e mestra em Segurança Pública pelo Programa de Pós-Graduação em Segurança Pública da UFPA
Silvia dos Santos de Almeida
Doutora em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professora do PPG em Segurança Pública da UFPA
Alethea Maria Carolina Sales Bernardo
Doutora em Teoria e Pesquisa do Comportamento e Mestra em Segurança Pública pela UFPA. Professora do PPG em Segurança Pública da UFPA
Quem cuida da saúde mental de quem está todos os dias exposto ao risco, à violência e à responsabilidade de proteger outras pessoas? A pergunta parece simples, mas ainda encontra respostas insuficientes quando tratamos dos profissionais da segurança pública. A atividade policial exige preparo técnico, disciplina e decisões em situações críticas. Ao mesmo tempo, impõe uma carga emocional que nem sempre é percebida antes que seus efeitos apareçam no sono, no corpo, nas relações e na própria capacidade de trabalhar.
Foi olhando para essa realidade que se realizou a pesquisa sobre a saúde mental de policiais militares do Comando de Policiamento da Capital I (CPC I), da Polícia Militar do Pará. O estudo, desenvolvido no âmbito do Mestrado em Segurança Pública da Universidade Federal do Pará, ouviu 105 policiais nos meses de dezembro de 2024 a março de 2025. O CPC I reunia, naquele período, 922 policiais militares da ativa e é responsável pelo policiamento ostensivo e preventivo de 27 bairros de Belém, além de coordenar seis batalhões.
A investigação buscou avaliar o estado de saúde mental desses profissionais, conhecer características sociodemográficas, hábitos de vida, condições de trabalho e indicadores de saúde mental. Foram utilizados um questionário estruturado e o Self-Reporting Questionnaire (SRQ-20), instrumento desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde para rastrear Transtornos Mentais Comuns (TMC). O SRQ-20 não estabelece diagnóstico psiquiátrico: identifica sinais que podem indicar necessidade de maior atenção, acompanhamento ou avaliação especializada.
Os resultados dimensionam um problema que nem sempre aparece nas estatísticas administrativas. Entre os policiais avaliados, 21,90% apresentaram indicativo de TMC. Em termos mais diretos: aproximadamente um em cada cinco profissionais pesquisados apresentou sinais de sofrimento mental. Quando se trata de uma categoria responsável por tomar decisões rápidas, lidar com conflitos, portar armamentos e atuar sob pressão, esse é um assunto que merece atenção institucional.
Entre os sintomas investigados, 42,86% afirmaram dormir mal e 40,95% relataram sentir-se nervosos, tensos ou preocupados. Dores de cabeça frequentes e sensações desagradáveis no estômago apareceram em 26,67% dos participantes. Os achados mostram que o sofrimento psíquico não se expressa apenas por manifestações percebidas como “emocionais”: pode aparecer no sono, no corpo, na fadiga e em sintomas que acabam naturalizados na rotina profissional. O problema surge quando o excepcional passa a ser entendido como normal e o corpo começa a comunicar aquilo que, muitas vezes, não encontra espaço para ser dito.
O sono é um exemplo importante. Quase metade dos policiais, 48,57%, informou ter apresentado algum problema de sono nos 12 meses anteriores. Entre aqueles que relataram dificuldades para dormir, problemas relacionados ao trabalho e problemas financeiros apareceram, respectivamente, como motivo principal para 34,21%. O expediente pode terminar, mas a tensão nem sempre chega ao fim com ele.
Outro achado que merece atenção prioritária diz respeito ao comportamento suicida. Quando questionados sobre sua trajetória, 12,38% dos participantes afirmaram já ter tido, em algum momento, pensamentos de acabar com a própria vida. O indicador não deve ser interpretado isoladamente nem utilizado para estigmatizar os profissionais, mas reforça a importância de mecanismos permanentes de prevenção, acolhimento e acesso oportuno a cuidados especializados, nos quais buscar ajuda não seja interpretado como fraqueza.
Nesse ponto surge outro contraste. Nos 12 meses anteriores à pesquisa, apenas 13,33% haviam utilizado algum serviço psicológico ou psiquiátrico, dentro ou fora da instituição; 86,67% não haviam procurado esse atendimento. A questão, portanto, não é apenas se existem serviços disponíveis, mas se os profissionais se sentem seguros para acessá-los, reconhecem quando precisam de ajuda e encontram uma cultura institucional que favoreça esse cuidado.
Talvez um dos aspectos mais interessantes seja perceber que sofrimento mental não significa rejeição à profissão. Pelo contrário: 95,24% disseram identificar-se com a atividade profissional e 55,23% afirmaram sentir-se satisfeitos em trabalhar na Polícia Militar do Pará. Também foram registrados percentuais expressivos de satisfação com as amizades entre colegas e com o relacionamento com chefias imediatas. Além disso, 66,67% dos participantes atuavam no serviço operacional e 43,81% possuíam de um a cinco anos de serviço.
Esses dados mostram que satisfação profissional e sofrimento psíquico não são fenômenos excludentes. Um policial pode se identificar com a profissão, valorizar a instituição e manter bons vínculos profissionais e, ainda assim, apresentar sintomas de sobrecarga emocional. Essa constatação ajuda a afastar interpretações simplistas que associam adoecimento mental à falta de vocação, fragilidade ou insatisfação com a carreira.
A atividade policial é, por natureza, exigente. Não se trata de negar essa característica nem de imaginar uma profissão sem estresse. Trata-se de reconhecer que a exposição contínua ao risco, à pressão institucional e às demandas emocionais produz efeitos que precisam ser monitorados. Se a instituição acompanha armamento, treinamento, capacidade física e desempenho operacional, por que a saúde mental deveria ser observada apenas quando o policial já está adoecido ou afastado?
Os dados apontam para outro caminho: prevenção. Isso envolve fortalecer programas de apoio psicológico, criar estratégias regulares de monitoramento, incentivar hábitos de vida saudáveis e aperfeiçoar aspectos da organização e das condições de trabalho. Instrumentos de rastreamento como o SRQ-20 podem contribuir nesse processo, não para rotular ou excluir profissionais, mas para produzir informação capaz de orientar ações de cuidado antes que o sofrimento se agrave.
Saúde mental, nesse contexto, não pode ser compreendida como responsabilidade exclusiva do policial. Estratégias individuais de autocuidado são importantes, mas não substituem políticas institucionais. Quando fatores relacionados ao próprio trabalho aparecem associados às dificuldades vivenciadas, a resposta também precisa envolver a organização.
Há uma dimensão da segurança pública que acontece antes da ocorrência, antes da viatura sair e antes de qualquer intervenção: a condição de quem vai realizar esse trabalho. Uma instituição operacionalmente forte depende de profissionais tecnicamente preparados, mas também física e emocionalmente capazes de exercer suas funções. Cuidar de quem protege não é um benefício acessório. É investimento na qualidade do serviço prestado à sociedade.
Os números encontrados no CPC I não encerram o debate. Ao contrário, ajudam a iniciá-lo com evidências produzidas a partir da realidade local. Tornar visível o sofrimento que muitas vezes permanece silencioso é um primeiro passo. O seguinte é transformar esse conhecimento em políticas contínuas de prevenção, acolhimento e valorização profissional. Porque cuidar da saúde mental de quem protege também é fazer segurança pública.

