Guaracy Mingardi
Doutor em Ciência Política e associado do Fórum Brasileiro de Segurança Pública
Em 2024 realizamos uma pesquisa exploratória sobre os crimes contra o patrimônio no centro da cidade de São Paulo, na qual foi possível identificar alguns aspectos do fenômeno. Neste artigo vamos expor um aspecto dos eventos, a tipicidade dos ladrões. Antes de detalhar, é bom deixar claro que a pesquisa demandou um ano de confronto entre quatro pontos de vista diversos:
- Segurança Pública – Através das estatísticas da ocorrências em três distritos policiais específicos: Consolação, Santa Cecília e Campos Elíseos. É o ponto de vista oficial, fundamentado mais nas estatísticas do que no relato de vítimas ou policiais. Como contraponto a esses números entrevistamos alguns policiais militares, guardas civis e policiais civis que trabalham na região. Também ouvimos quatro policiais aposentados, que falaram sobre a situação enquanto estavam na ativa. Marginalmente podem ser incluídos no grupo segurança os vigias privados, porteiros e etc.
- Imprensa – As reportagens e comentários analisados tiveram como fonte primordial o jornal Folha de S. Paulo e outros veículos agregados, como o UOL. Além de, ocasionalmente, utilizarmos outros diários considerados pertencentes à chamada “grande imprensa”. Com essa seleção diminuímos o risco de notícias falsas ou mesmo de grande parte do sensacionalismo de veículos especializados em crime e polícia.
- Indivíduos comuns, não ligados à segurança, que transitam, moram ou trabalham na região foram nossa melhor fonte. Entre eles entrevistamos preferencialmente as vítimas ou testemunhas de crimes que pudemos contatar. Em segundo lugar vieram os pequenos comerciantes que mantêm negócios nesses três distritos policiais, principalmente jornaleiros, ambulantes, carroceiros, etc., pessoas que têm contato direto com os acontecimentos nas ruas. Outra categoria, mais problemática e difícil de abordar, com a qual tivemos pouco êxito, foi a dos usuários de drogas (nóias) ou outros moradores de rua dispostos a discutir o assunto[1]. A partir dessas entrevistas coletamos outros nomes para, usando o modelo Bola de Neve[2], ampliarmos nossa base de pesquisa.
- Observação direta – Não se trata, claro, de entrar para uma quadrilha ou se oferecer como vítima, mas sim de observar mesmo. Ou seja, circular nas ruas, lojas, comprar coisas, conversar informalmente com indivíduos que transitam pelo local. Além disso, verificar onde existem policiais e o que estão fazendo, identificar possíveis grupos de ladrões, os limites da Cracolândia, locais onde sejam vendidos celulares de segunda mão, possivelmente fruto de crime, etc. E essa observação consistiu na visualização e registro sistemático de padrões de comportamento das pessoas, de forma a obter informações sobre o objeto da pesquisa. Esse método possibilita a obtenção de elementos para a definição dos problemas, além de favorecer a construção de hipóteses e a obtenção de dados sem dar origem a problemas ou suspeitas por parte dos membros da população estudada[3].
Os principais crimes mencionados por todas as fontes foi, como esperado, o furto e o roubo de celulares, realizados por alguns tipos específicos de ladrões. Vale aqui ressaltar que os métodos (que discutiremos em outro artigo) e as características dos autores são muito similares aos dos “trombadinhas” que atuavam nas rua paulistanas nos 1990 e 2000. Retiravam os objetos das vítimas e sumiam no meio da multidão de transeuntes.
Existem vários tipos de criminosos que atuam no Centro. Entre eles, três grupos específicos, cujos membros podem mudar de uma modalidade para a outra facilmente. O mais visível é o dos traficantes, a maior parte dos quais não tem muita importância real. Atuam nas biqueiras, fornecendo ou oferecendo cocaína, maconha e crack às pessoas[4]. Essa divisão de atividades é importante, pois mostra muito sobre o ponto em que atuam. No primeiro caso, os vendedores ficam em determinados locais já muito conhecidos e os fregueses vêm a eles solicitando a droga. Já no segundo tipo se trata de indivíduos que atuam em biqueiras mais difusas, que atuam em um trecho da via pública, e oferecem seja lá o que estejam vendendo para a maioria das pessoas que passam. Não a todos, pois aparentemente atuam de acordo com o jeito do transeunte.[5]
Nessas biqueiras onde se oferta a mercadoria, existem algumas variedades de acordo com a área. Nos locais mais próximos à Avenida Paulista, a mercadoria oferecida é mais variada. Pode ser maconha, cocaína ou ecstasy. Em uns poucos locais também ocorre a venda de uma das diferentes variedades da droga K[6]. No núcleo da Cracolândia, bem como nas suas proximidades, a maioria vende o produto que dá nome ao local, embora haja também outras possibilidades[7]. Nas regiões próximas à Praça da República e ao Largo do Arouche predomina a cocaína. Muitas vezes oferecida simplesmente como Pó, mas também como Lipa, nome dado à cocaína supostamente provinda da Favela de Heliópolis, que seria de melhor qualidade. Outro nome empregado, principalmente em locais próximos a baladas gays, é de Padê, que era, ou é, o nome dado à cocaína nesses eventos.
No caso dos ladrões, sua inserção no Centro é facilmente identificável. A maioria deles é morador, conhecendo profundamente sua geografia. Muitos residem em cortiços e/ou pequenos apartamentos sublocados. Mudam frequentemente de local, para evitar o “carnê” cobrado por alguns policiais, interrogatórios ou prisão por parte de outros. Apesar desse nomadismo, nunca se afastam para outra região. Preferem permanecer na área, normalmente contígua ao local de “trabalho”. Quatro pessoas entrevistadas falaram sobre moradias específicas. Uma mostrando um edifício que havia sido em parte ocupado por eles, outra um prédio de apartamentos. Segundo esse relato, moravam de dois ou três em cada quarto. A terceira falou de três ruas, no Bom Retiro, onde eles residiam em um ou mais cortiços. A quarta foi menos específica, falou apenas da região próxima à Avenida São João, onde alugariam quartos. Um quinto ponto, menos mencionado por alguns entrevistados, mas sem informações tão específicas, é o conjunto de prédios na Rua Paim, área do 4º DP.
É importante frisar que o termo “trabalho” é empregado por ladrões e traficantes para se referirem às suas atividades, segundo as testemunhas. Quando um traficante sai cedo de uma balada, por exemplo, diz que tem de levantar tal hora por causa do trabalho. E os ladrões mencionam entre eles, e às vezes diante de testemunhas que não são do métier, que “hoje vou trabalhar na Paulista”, por exemplo. Isso para não haver muita competição local ou mesmo quando se trata de obter um ou mais parceiros[8].
Esses jovens, normalmente entre 16 e 20 e poucos anos, são a base que sustenta o crime contra o patrimônio no centro. Além deles existem pelo menos dois outros níveis: o intermediário e o receptador. O intermediário é quem compra a mercadoria ali mesmo, na rua.
Eles fazem a transação primária, encontrando o ladrão na rua, em local marcado por mensagem, e o levam, na maioria dos casos, ao receptador para o qual trabalham. Outras vezes atuam de forma menos automática. Fazem uma espécie de leilão ou transação intermediária. Levam uma mochila com alguns celulares recém-roubados ou furtados para determinados locais nos quais se reúnem diversos colegas ou mesmo alguns receptadores menores.
Um livreiro mencionou um ponto de trocas, que chamou de “feira do roubo”. Teria lugar na Avenida São João, próximo à emblemática esquina com a avenida Ipiranga, mencionada em “Sampa”, de Caetano Veloso. A feira começava a funcionar por volta das 18h e continuava até as 8h, quando as ruas, nos dias de semana, iam ficando mais vazias. Aparentemente o ponto não era exclusivo desta ou daquela quadrilha, pois haveria compradores brasileiros, africanos e uns poucos indivíduos que ele supôs serem latino-americanos. Uns por conta da aparência indígena, outros pelo sotaque. Esta feira teria terminado há algum tempo. Parte da atividade, segundo ele, teria se transferido para um bar próximo, onde uma ou duas vezes por semana alguns ladrões e indivíduos que seriam receptadores se reuniam para fazer suas transações. Mas agora tudo seria bem mais discreto e rápido. Os negócios terminam logo, sendo que os supostos receptadores ficavam no bar menos de uma hora[9].
Outro local de transações entre ladrões e receptadores seria as proximidades da 9 de Julho, avenida que marca os limites do 4º DP. Essa informação veio de apenas uma fonte, um guarda metropolitano que atuou ali alguns anos atrás. Por conseguinte, pode estar desatualizada.
O terceiro grupo, o destinatário final da mercadoria roubada, é formado pelos receptadores. E existem algumas quadrilhas especializadas na compra deles para posterior revenda. Durante a pesquisa foram mencionados pelo menos três tipos distintos de quadrilhas atuando nessa modalidade. Uma delas é constituída de africanos. O país de origem varia. Outras duas aparentemente são formadas por nacionais. Os lugares em que cada uma delas atua variam muito[10].
Mais de uma das controladas por senegaleses tem sede, ou tinha, na rua Guaianases, mas já passaram por outros pontos. Um motorista de táxi informou ter conduzido mais de um deles para um local próximo à Rua Augusta, área do 4º DP. Segundo ele, os receptadores encontravam os ladrões em pontos distintos, e circulando de táxi por alguns locais, pegando a mercadoria e pagando com dinheiro vivo. Num caso citado houve reclamação de um dos ladrões, que correu atrás do carro, dizendo que faltavam R$200. O receptador teria gritado de volta que pagava outra hora. Outro taxista falou em levar o suposto ladrão até uma travessa da rua Aurora, onde ele mandou esperar, falou com um negro alto, com forte sotaque, voltou para o táxi e foi para onde o taxista supôs que fosse sua residência, um cortiço no bairro da Bela Vista.
A rua Guaianases, porém, continua sendo um ponto importante. Lá já foram presos alguns receptadores, sendo que no ano passado um deles morreu enquanto fugia da polícia – caiu do beiral do prédio onde morava.
Uma das primeiras ações policiais do tipo ocorreu em 2016, e foi realizada por policiais das delegacias da Seccional Centro[11], ou seja, polícia de área. A apreensão foi de mais de quase 300 celulares, novamente centrada nas quadrilhas constituídas por grupos de africanos. Uma curiosidade dessa operação é que a Polícia Federal foi convidada a participar, e concordou. Porém não compareceu, alegando falta de pessoal. Confidencialmente a delegada encarregada revelou que teria de deportar várias pessoas e estava sem fundos destinados a essa finalidade.
Após essas outras operações da Polícia Federal na mesma rua acabaram por prender alguns receptadores e apreender centenas de celulares. Em uma delas foram encontrados mais de 800 celulares, provenientes de furto ou roubo.
Outras quadrilhas de receptação, a maioria, aliás, são formadas por nacionais. Trata-se de criminosos brasileiro que destinam a mercadoria para outros estados ou a vendem para lojinhas que atuam no varejo de peças de celulares. Existem centenas desses comércios na região. Ao contrário dos africanos, eles estão distribuídos de forma mais descentralizada. Seus negócios se localizam em várias regiões do centro da capital. Muitas vezes esses criminosos nem mesmo moram na região. A maioria tem antecedentes criminais e alguma ligação com o PCC. Podem não ser irmãos, ou seja, batizados pela organização, mas são pelo menos companheiros. Ou primos, como eram chamados um tempo atrás.
Aliás, como em todo crime continuado que ocorre em São Paulo, alguma ligação com o PCC tem de haver, para que possam atuar livremente. Mesmo os africanos, ou possíveis quadrilhas de sul-americanos que embarcam os celulares para países vizinhos, têm de possuir algum vínculo. No mínimo de camaradagem. Sem o “habite-se” do Primeiro Comando não poderiam atuar por muito tempo.

