Suicídio nas Corporações Policiais: o assédio como precursor não mensurado
O silenciamento institucional se soma a outro, mais subjetivo: o medo da retaliação, que inibe a denúncia do assédio, e o silenciamento por parte de vítimas que temem represálias em corporações nas quais a hierarquia é também uma estrutura de poder e controle
Kerlly Santos
Pesquisadora, veterana da polícia civil, especialista em Gestão de Segurança Pública, diretora de Comunicação da RBECrim e associada do Fórum Brasileiro de Segurança Pública
Em 2023, pela primeira vez, as mortes por suicídio entre policiais civis e militares brasileiros cresceram 26,2% e passaram a superar as mortes em confronto (REIS, 2024). O dado epidemiológico geral já era grave: no país, foram 15.507 suicídios em 2021, sendo 77,8% deles de homens (BRASIL, 2024). Cruzado com o fato de que policiais se matam cerca de quatro vezes mais do que a população em geral, e que homens cometem suicídio três vezes mais do que mulheres, chega-se a uma conclusão: um policial homem tem um risco estimado de suicídio seis vezes maior do que a média da população brasileira.
Esse número, por si só, já deveria bastar para colocar a saúde mental das forças de segurança no centro do debate público. Mas há uma camada dessa tragédia que segue praticamente invisível nos boletins oficiais: a relação entre o assédio institucional e esses óbitos.
Dados de suicídio são dados de saúde institucional
É comum tratarmos suicídio como um fenômeno de saúde mental estritamente individual. Mas, dentro de corporações fortemente hierarquizadas como as polícias, os números de suicídio também são indicadores de saúde institucional – e o assédio funciona como um fator de risco cumulativo dentro dessas instituições (BARRETO; HELOANI, 2011).
Ambientes ocupacionais marcados por exposição constante a situações traumáticas, violentas e letais, somados a fácil acesso armas de fogo, já configuram um cenário de risco elevado (VIEIRA et al., 2023). Quando a isso se soma o assédio – frequentemente de natureza vertical, compatível com estruturas fortemente verticalizadas como as polícias (OLIVEIRA; ZEMPULSKI, 2018) -, o risco se intensifica: o assédio pode atuar como elemento precursor do sofrimento que leva ao suicídio (BARRETO; HELOANI, 2011), e evidências mostram que episódios repetidos de assédio e violência no trabalho estão associados a maior risco de suicídio no setor público (DE VITO et al, 2026).
O problema é que essa correlação simplesmente não é medida. O que não é medido não é prevenido – e a ausência de dados contribui para o agravamento de um ambiente que já é hostil, sobretudo para quem convive com sofrimento psíquico não tratado.
A subnotificação como projeto institucional
Essa lacuna não é acidental. A literatura já aponta a subnotificação sistemática de suicídios relacionados ao trabalho como prática recorrente por parte de empregadores (OLIVEIRA; ZEMPULSKI, 2018), e há registros de que instituições preferem atribuir o suicídio a causas pessoais ou conjugais como forma de eximir a organização de qualquer responsabilidade (FINAZZI-SANTOS; SIQUEIRA, 2011). A opacidade institucional no Brasil é ilustrada por um caso emblemático: em uma instituição policial estadual, um decreto de sigilo tratou, até 2023, os dados de suicídio na corporação como um “fenômeno inexistente” (REIS, 2024). Se a informação não existe oficialmente, ela também não pode ser enfrentada como política pública.
Esse silenciamento institucional se soma a outro, mais subjetivo: o medo da retaliação, que inibe a denúncia do assédio, e o silenciamento por parte de vítimas que temem represálias em corporações nas quais a hierarquia é também uma estrutura de poder e controle.
Papéis de gênero como barreira ao cuidado
Há ainda uma camada de gênero que precisa ser nomeada. Rígidos papéis masculinos reforçam a impossibilidade de buscar suporte emocional e psicológico, especialmente entre homens, que tendem a sofrer em silêncio e a evitar qualquer demonstração de fraqueza (WALGER; SANTOS; GULIN, 2022). Essa negação da fragilidade funciona como barreira concreta ao pedido de ajuda (ROCHA; ZUCCHI, 2025), e se reflete em dados oficiais: homens apresentam níveis elevados de subdiagnóstico e baixa adesão a tratamentos para transtornos mentais (BRASIL, 2024). Em corporações policiais, marcadas por uma cultura ainda mais reforçada de virilidade e resistência, essa barreira se torna praticamente instransponível.
O que os números do Ministério da Justiça mostram
O painel de monitoramento estatístico do Ministério da Justiça e Segurança Pública reforça a urgência do tema. Em 2026, foram registradas 70 mortes violentas de profissionais de segurança pública contra 75 suicídios – ou seja, mais policiais morreram pelas próprias mãos do que em confronto – com prevalência de mais policiais militares atentando contra a própria vida em relação a outras instituições (ANUÁRIO BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA, 2026). São Paulo lidera o ranking de suicídios entre os estados, ainda que ocupe a segunda posição em mortes violentas, atrás do Rio de Janeiro. Em 2025, foram 138 suicídios e 192 mortes violentas; em 2024, 157 suicídios – com empate entre Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo – e 201 mortes violentas, lideradas pelo Rio. A tendência, embora com oscilações, mantém o suicídio como uma das principais causas de morte de quem deveria estar protegendo a sociedade.
Para além de setembro
Setembro Amarelo cumpre um papel importante ao dar visibilidade ao tema, mas reduzir a discussão sobre o suicídio a um mês do calendário é desconsiderar o valor da vida de cada profissional de segurança pública ao longo de todo o ano. É preciso reconhecer, seguindo a Convenção 190 da OIT sobre violência e assédio no mundo do trabalho, que a gestão de saúde e segurança ocupacional deve considerar os riscos psicossociais associados à violência e ao assédio (OIT, 2019) – não como exceção, mas como parte estrutural da política de cuidado com quem cuida de todos nós.
Isso exige, concretamente, o cruzamento de dados: identificar se profissionais que tiraram a própria vida haviam sido vítimas de assédio, romper com o sigilo institucional que trata o suicídio como tabu, e construir políticas públicas de atenção psicossocial voltadas especificamente para agentes de segurança pública. Sem isso, seguiremos tratando como fenômenos isolados o que, na verdade, é uma única engrenagem feita para “moer gente” (“máquina de moer gente” é uma expressão de uso interno nas corporações policiais brasileiras, referindo-se ao desgaste físico e emocional que a rotina institucional impõe a seus profissionais – um diagnóstico informal dessa realidade).

