A Segurança Pública (e o tecnossolucionismo) no centro das narrativas eleitorais
É possível observar preocupante inversão de prioridades. Enquanto se amplia o repertório tecnológico à disposição da segurança pública, questões fundamentais, como prevenção e investigação qualificada, são relegadas a segundo plano
Débora Pio
Jornalista e doutoranda em Comunicação e Cultura pela ECO - UFRJ, integrante do MediaLab.UFRJ e membra da Rede LAVITS. Pesquisadora nas áreas de vigilância, resistências, movimentos sociais e intersecções entre tecnologia e raça
Rodrigo Firmino
Arquiteto e urbanista, doutor em Planejamento Urbano e Regional, professor titular do Programa de Pós-Graduação em Gestão Urbana na PUCPR e pesquisador nas áreas de segurança, vigilância, tecnologias digitais e território urbano. Coordenador do Jararaca: Laboratório de Tecnopolíticas Urbanas, e membro-fundador da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS)
Em 2018, o então candidato ao cargo de governo do Estado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, anunciou que, se eleito, iria autorizar “a polícia a mirar na cabecinha e…fogo”. Naquela ocasião, ele também falava na compra de drones de Israel que seriam capazes de identificar criminosos e efetuar tiros remotamente. Havia ainda planos de comprar toda sorte de parafernálias tecnológicas que prometessem o combate ao crime e à prevenção de ocorrências criminais a partir de algoritmos e acionamentos a distância.
Embora aquele postulante a assumir o Palácio da Guanabara fosse forasteiro na política, a campanha bélico-tecnológica contribuiu para que assegurasse a vitória no primeiro turno. Quase uma década depois, projetos que preveem cada vez mais armamento e mais tecnologias de vigilância continuam sendo a proposta mais vocalizada por candidatos nos pleitos eleitorais, sobretudo nas grandes capitais.
Entre as grandes cidades do Brasil, o Rio de Janeiro é marcado pela expansão e consolidação do controle territorial por grupos armados. Por essa razão, costuma estar na vanguarda na testagem de aparatos de combate e controle do crime. A gestão Witzel, iniciada no contexto de intervenção federal na Segurança Pública, inaugurou o experimento da instalação de câmeras de reconhecimento facial e incentivou a implementação de uma política de segurança ainda mais militarizada, incluindo autorização para o “abate” de criminosos. Cláudio Castro, que o substituiu após o impeachment, prosseguiu fomentando tal lógica.
Apesar disso, dados do Mapa Histórico dos Grupos Armados no Rio de Janeiro (Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense) mostram que o investimento não proporcionou os resultados prometidos. Em 2024, cerca de 34,9% da população da Região Metropolitana vivia sob influência de facções criminosas ou milícias. Ao longo de 18 anos, as áreas sob algum tipo de domínio armado cresceram aproximadamente 130%, evidenciando a incapacidade das políticas adotadas em conter esse avanço. No caso da capital, as milícias chegam a controlar 65% do território, especialmente na Zona Oeste e regiões adjacentes, ainda que o cenário recente aponte para uma intensificação das disputas com grupos ligados ao tráfico.
Ao mesmo tempo em que se amplia o repertório tecnológico aplicado à segurança pública, observa-se uma inversão preocupante de prioridades: dispositivos sofisticados passam a ocupar o centro do debate, enquanto questões estruturais — como prevenção, investigação qualificada e políticas sociais — permanecem em segundo plano. A promessa de que ferramentas digitais baseadas em algoritmos seriam capazes de “resolver” a criminalidade rapidamente se revela mais como estratégia discursiva do que como política baseada em evidências. Como discutido anteriormente no artigo “Segurança pública, dados e território: o avanço da vigilância digital nas cidades”, há um deslocamento do foco da gestão territorial e social da violência para uma lógica de monitoramento intensivo, que pouco dialoga com as dinâmicas reais dos territórios.
Municípios entram na disputa pela narrativa da segurança
É durante os ciclos eleitorais que essas propostas costumam reverberar mais. Nos últimos anos, é possível observar tendência de mobilização de gestores municipais em torno desse tema. Embora não faça parte da atribuição de prefeitos, vereadores e secretários municipais cuidar das polícias ou de questões diretas de segurança pública, os discursos de campanha e narrativa sobre as cidades vêm cada vez mais carregados de propostas para resolução de problemas dessa ordem. O Smart Sampa, na cidade de São Paulo; e a Civitas (Central de Inteligência, Vigilância e Tecnologia em Apoio à Segurança Pública) no Rio de Janeiro são parte desse processo.
O programa Smart Sampa, inaugurado em 2024, já opera com mais de 50 mil câmeras de vigilância, públicas e privadas, por toda a cidade. A manutenção desses equipamentos custa cerca de R$10 milhões mensais, de acordo com informações do contrato. Segundo o relatório lançado pelo projeto no final de 2025, entre maio e novembro daquele ano foram registradas 1.334 abordagens resultantes de alertas emitidos pelo sistema de reconhecimento facial, a tecnologia mais “eficaz” embutida nas câmeras. Das pessoas abordadas, 1.198 tiveram a identidade confirmada e permaneceram presas. Em uma extrapolação generalista, levando em consideração apenas os custos de manutenção dos equipamentos e resultados apresentados, cada prisão efetuada teria custado em torno de R$8.300 reais.
Já a proposta da Civitas, no Rio de Janeiro, é instalar 30 mil câmeras (batizadas de “supercâmeras inteligentes”) em toda a cidade até 2028. A ideia é usar tecnologia e ciência de dados para auxiliar as forças de segurança em investigações de crimes a partir da captura de imagens durante 24 horas do dia a dia da cidade. Junto a isso, a Prefeitura do Rio investiu na criação de uma divisão militarizada, a Força Municipal, braço armado da Guarda Municipal que seria composto por agentes que atuam “na segurança urbana, com foco na redução de roubos e furtos nas ruas“, de acordo com a descrição no site.
A adoção de uma lógica cada vez mais militarizada no âmbito municipal levanta questionamentos importantes sobre seus efeitos concretos. Em vez de fortalecer políticas integradas de prevenção, há o risco de reproduzir, em escala local, problemas já observados nas polícias estaduais: uso excessivo da força, baixa transparência e pouca efetividade na redução sustentável da violência.
Essa ênfase tecnológica frequentemente ignora limitações fundamentais. Sistemas automatizados dependem de dados de qualidade, infraestrutura adequada e governança sólida, elementos ainda frágeis em grande parte das administrações públicas brasileiras. Sem esses requisitos, a tecnologia tende a operar mais como vitrine política do que como instrumento efetivo de transformação.
Transparência e resultados
A implementação dessas ferramentas costuma ocorrer de forma pouco transparente, com escassa divulgação de critérios, custos ou resultados. Além disso, a ausência de avaliações independentes dificulta a compreensão sobre sua real efetividade, o que impede o aprimoramento de políticas públicas.
Nesse contexto, a adoção de tecnologias como câmeras corporais, drones e sistemas de reconhecimento facial ocorre frequentemente sem mecanismos robustos de controle social. A eficácia dessas ferramentas permanece, deliberadamente, pouco documentada, enquanto os riscos de uso indevido e de reforço de práticas discriminatórias permanecem subestimados. No caso das câmeras corporais, por exemplo, a dependência do acionamento voluntário por parte dos agentes de segurança limita significativamente seu potencial de controle institucional, transformando-as em apenas mais um elemento simbólico de modernização digital.
No caso da Smart Sampa, a divulgação dos resultados de sua “efetividade” se dá em tempo real, por meio do chamado prisômetro, painel de led exposto no centro da cidade que atualiza em tempo real o número de pessoas presas e foragidas. No entanto, os relatórios de resultados disponibilizados até agora não respondem a questões simples sobre o impacto da instalação das câmeras no aumento ou diminuição dos crimes, por exemplo.
Enquanto isso, políticos e candidatos aos pleitos eleitorais continuam destacando que essas ferramentas são o presente e o futuro da segurança pública e que, com elas, conseguiremos resolver problemas históricos de violência e desigualdades nas cidades. Nas redes sociais, hoje o maior instrumento de campanha, as agendas sobre investimento tecnológico em segurança são o grande destaque, em detrimento da aplicação de recursos em infraestruturas mais duradouras e efetivas para a diminuição da violência, como construção de praças e parques, espaços de lazer e de convivência, saneamento, transporte e iluminação pública, entre outras.
Em 2026, o país atravessará mais um pleito eleitoral em um contexto marcado pela intensificação das disputas políticas e pela fragilidade do campo democrático. Nesse cenário, a segurança pública tende, novamente, a ocupar o centro das disputas narrativas, frequentemente mobilizada por soluções ligeiras, visíveis e de forte apelo midiático, em especial pelo campo da extrema direita, reforçando uma lógica tecnossolucionista que simplifica problemas complexos e obscurece suas dimensões estruturais. Torna-se, portanto, fundamental que a sociedade civil, a academia e os próprios gestores públicos estejam preparados para qualificar esse debate, questionando promessas simplificadoras e exigindo transparência, evidências e responsabilidade no uso de tecnologias.

