Entre o bullying e a violência extrema: evidências e desafios para as escolas brasileiras
É fundamental que as escolas estejam estruturadas e capacitadas para a escuta e acolhimento de estudantes que convivem com violências, criando espaços seguros de expressão, e que adotem práticas restaurativas capazes de mediar conflitos, reparar danos e transformar padrões de sociabilidade violenta que se atualizam dia a dia
Cauê Martins
Doutor em Sociologia pela USP e Coordenador temático no Fórum Brasileiro de Segurança Pública
O dia 7 de abril celebra, desde sua instituição em 2016 (Lei nº 13.277), o Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola. Em 2026, a data foi tragicamente marcada pelo primeiro ataque a uma escola no país: um jovem de 18 anos invadiu a Escola Municipal Profa. Ignez de Castro Almeida Meyer, em Suzano (SP), ferindo uma professora e sendo contido por profissionais da escola. A rápida resposta evitou consequências ainda mais graves, graças à atitude da professora que arriscou sua vida colocando-se à frente dos estudantes na sala invadida, e à iniciativa do professor que, ao perceber a situação, enfrentou o agressor utilizando uma cadeira como instrumento improvisado de defesa. O ataque durou menos de cinco minutos, e o autor foi preso e enquadrado por terrorismo.
Após a escalada de violência extrema contra escolas entre 2022 e 2023, o Brasil passou por uma importante reorganização normativa, sobretudo com a criação do Sistema Nacional de Acompanhamento e Combate à Violência nas Escolas (SNAVE). Observou-se também avanço na coordenação institucional e intersetorial, com destaque para iniciativas federais e para o fortalecimento da inteligência policial, como a estruturação da Diretoria de Combate a Crimes Cibernéticos da Polícia Federal (DCIBER-PF). Essa atuação tem sido especialmente relevante no monitoramento de ambientes digitais (na deep web, na dark web e na web de superfície) nos quais ocorrem processos de aliciamento e radicalização de jovens, contribuindo para a prevenção de ataques.
A data escolhida pelo agressor em Suzano não foi trivial. Que esse ataque tenha ocorrido justamente em 7 de abril reforça a centralidade do debate sobre bullying e cyberbullying para a prevenção e enfrentamento às violências nas escolas brasileiras. Além de reconhecer o problema, precisamos qualificá-lo empiricamente para consolidar políticas públicas baseadas em evidências e enfrentá-lo com responsabilidade, evitando simplificações causais e respostas meramente reativas. À luz de dados recentes, apresentamos e discutimos aqui dois eixos fundamentais: um breve panorama da magnitude do fenômeno do bullying e do cyberbullying no Brasil e algumas estratégias de enfrentamento em curso.
Bullying no Brasil hoje
Partimos da compreensão de que o bullying não se limita a atos isolados de agressão, mas constitui um processo social danoso, sustentado por hierarquias e relações de poder que atravessam espaços escolares, em particular, e a sociedade, em geral. Trata-se, portanto, de um fenômeno que exige respostas coletivas, articuladas e estruturais. A expansão do cyberbullying, por sua vez, intensifica a complexidade do fenômeno ao introduzir novas formas de violência mediadas por tecnologias digitais, agravando a perenidade da violência no tempo e demandando atenção específica às dinâmicas emergentes em ambientes online.
É nesse enquadramento que uma consideração sobre os indicadores disponíveis se torna indispensável. Compreender a extensão, as formas de manifestação e os grupos mais afetados pelo bullying e pelo cyberbullying no Brasil é condição para qualificar o debate público e orientar respostas eficazes. A seguir, apresentamos evidências recentes produzidas por pesquisas nacionais que permitem dimensionar o fenômeno e identificar suas principais tendências.
Os dados mais recentes da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em março de 2026, revelam a amplitude do fenômeno entre adolescentes: 39,8% dos estudantes entre 13 e 17 anos relataram ter sofrido bullying. Entre meninas, o percentual sobe para 43,3%. A aparência física é apontada como principal motivação (30,2%), enquanto 13,7% admitem ter praticado bullying e 16,6% relatam agressões físicas por colegas.
Por outro lado, de acordo com o SAEB 2023,[1] aproximadamente duas em cada três escolas brasileiras (67,5%) relataram ter vivenciado episódios de bullying ao longo do ano letivo, um crescimento expressivo em relação aos dados do SAEB 2021 (44,0%). É válido ponderar que parte dessa variação decorreu da retomada das aulas presenciais no pós-pandemia, mas a redução no percentual de escolas que afirmam “nunca ter registrado bullying” (de 56% para 32,5%) sugere inequivocamente tanto o agravamento do fenômeno quanto uma maior capacidade institucional de identificação e reconhecimento do problema.
Já os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 indicam 2.543 registros criminais de bullying (tipificados penalmente pela Lei nº 14.811/2024) envolvendo crianças e adolescentes (taxa de 5,9 por 100 mil). No entanto, o número, aparentemente baixo, deve ser interpretado com cautela. Trata-se de uma fração dos casos, restrita a ocorrências mais graves que chegam ao sistema de justiça. Tendência similar se observa no cyberbullying, com apenas 452 registros (taxa de 1,1 por 100 mil). Ainda assim, os dados evidenciam uma concentração nas faixas etárias de 10 a 17 anos, associada ao uso de dispositivos digitais e redes sociais. Um achado particularmente relevante é o pico de incidência aos 12 anos de idade, momento de transição para os anos finais do ensino fundamental. Trata-se de uma fase crítica do desenvolvimento, marcada por transformações psicossociais e reorganizações nos grupos de pares, fatores que potencializam conflitos e práticas de intimidação sistemática.
Essas diferentes fontes nos ajudam a visualizar o perfil das vítimas e a dinâmica do fenômeno no país. As evidências convergem para um quadro em que, em resumo, 2 em cada 3 escolas reconhecem a ocorrência de bullying, e 2 em cada 5 adolescentes sofrem bullying nas escolas do país. O problema incide predominantemente sobre adolescentes, com especial intensidade na transição para o Ensino Médio. Observa-se também maior vulnerabilidade entre meninas e a centralidade de marcadores como a aparência física nos processos de estigmatização. Por fim, a articulação entre distintas fontes de dados (percepção de gestores, autorrelatos e registros criminais) revela que o bullying se distribui ao longo de um continuum que vai de interações cotidianas naturalizadas até formas mais graves que chegam ao sistema de justiça, sendo o ambiente digital uma extensão e intensificação dessas dinâmicas.
Políticas de enfrentamento
Embora o quadro delineado pelos dados seja preocupante, é fundamental reconhecer os avanços recentes nas políticas de enfrentamento à violência nas escolas no Brasil. Essas respostas combinam dimensões que vão desde medidas mais reativas voltadas à contenção de ataques de violência extrema até estratégias mais preventivas, orientadas à articulação intersetorial e ao diagnóstico qualificado.
Nesse contexto, a criação do Sistema Nacional de Acompanhamento e Combate à Violência nas Escolas (SNAVE) constitui um marco legal muito importante na resposta institucional brasileira aos ataques ocorridos em 2022 e 2023. Ao induzir mecanismos de monitoramento e fortalecer a articulação entre educação, segurança pública e assistência social, o SNAVE contribui para uma abordagem mais integrada e estruturante do problema. O principal indicador dos resultados do sistema foi a redução dos ataques de violência extrema (de 15, em 2023, para 3, em 2024). No centro dessa estratégia está o Programa Escola que Protege (ProEP), coordenado pelo Ministério da Educação, que fomenta a elaboração de planos subnacionais de prevenção e enfrentamento das violências nas escolas. O ProEP tem investido na formação continuada de profissionais da educação e das redes de proteção, com oferta de cursos sobre justiça restaurativa, cultura de paz e protocolos de resposta a incidentes. Um de seus eixos centrais é a realização de diagnósticos locais, bem como a implementação de instrumentos estruturados de intervenção, como o Protocolo de Enfrentamento do Bullying. Esse protocolo oferece diretrizes práticas para identificação, registro, acolhimento e manejo de casos, orientando a atuação das escolas de forma articulada, preventiva e baseada em evidências, além de reforçar a necessidade de integração com a rede de proteção e de promoção de uma cultura institucional de convivência democrática. A adesão das redes de ensino, o efetivo preenchimento dos diagnósticos e a incorporação desses instrumentos no cotidiano escolar são condições decisivas para a produção de evidências situadas e para a qualificação das respostas públicas, evitando intervenções genéricas e pouco sensíveis às especificidades territoriais.
Outro vetor fundamental tem sido a atuação da Polícia Federal e do Ministério da Justiça e Segurança Pública, especialmente no campo da inteligência. O monitoramento de redes e comunidades online tem permitido identificar sinais precoces de risco e interromper ataques ainda em fase preparatória.
Por fim, é necessário enfrentar um aspecto frequentemente marginalizado no debate público: o acesso a armas de fogo no país. Os dados disponíveis demonstram que a disponibilidade de armas eleva significativamente a letalidade de ataques de violência extrema contra escolas. De acordo com levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em parceria com Unesco e MEC, a letalidade associada às armas de fogo é substancialmente maior, sendo responsável por 36 das 49 mortes registradas em ataques a escolas no Brasil neste século. Nesse sentido, a manutenção de marcos regulatórios restritivos é um componente indispensável de qualquer estratégia consistente de prevenção da violência extrema contra escolas.
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O difícil debate público sobre bullying, cyberbullying e violência extrema contra escolas exige, antes de tudo, cautela analítica. Não há evidências que sustentem uma relação de causalidade absoluta entre sofrer bullying e cometer ataques dessa natureza. Reduções simplificadoras do tipo podem empobrecer a compreensão do fenômeno e ofuscar fatores sociais, culturais e institucionais mais amplos que atravessam esses episódios.
Isso não significa, contudo, que os fenômenos sejam dissociados. Há indícios consistentes de conexão, seja pela recorrente mobilização, no discurso público, da ideia de que tais ataques seriam respostas a experiências de vitimização dos agressores por bullying ao longo de suas trajetórias escolares, seja por elementos simbólicos e contextuais que emergem em casos concretos, como a escolha deliberada de datas, a exemplo do episódio recente em Suzano. Esses elementos sugerem que o bullying pode, sim, operar como parte de um repertório simbólico mobilizado por agressores.
Diante disso, o desafio colocado às políticas públicas não é buscar explicações únicas, mas construir respostas coordenadas, baseadas em evidências e orientadas à prevenção. Isso implica não apenas fortalecer a capacidade das escolas de identificar e enfrentar o bullying de forma estruturada, com base em protocolos – compreendendo a prevalência de vitimização na adolescência e sua intersecção com marcadores sociais, sobretudo gênero –, mas também investir em projetos que promovam a convivência democrática no cotidiano escolar. É fundamental que as escolas estejam estruturadas e capacitadas para a escuta e acolhimento de estudantes que convivem com violências, criando espaços seguros de expressão, e que adotem práticas restaurativas capazes de mediar conflitos, reparar danos e transformar padrões de sociabilidade violenta que se atualizam dia a dia.
Ao lado disso, é indispensável consolidar estratégias intersetoriais de monitoramento e inteligência. Enfrentar o bullying com responsabilidade, portanto, não é apenas responder a um problema específico, mas sustentar uma agenda de promoção de ambientes escolares seguros, inclusivos, equitativos e democráticos.

