Retrato dos feminicídios no Brasil: quem são, como morrem e quem as mata (2021-2024)
A sobrerrepresentação de mulheres negras indica que o feminicídio não pode ser compreendido apenas como violência de gênero isolada, mas como fenômeno que se inscreve na interseção entre desigualdades raciais, sociais e territoriais
Isabella Matosinhos
Mestre em Sociologia pela UFMG. Pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública
Imagine a seguinte situação: uma mulher negra, entre 30 e 49 anos, trabalhadora, moradora de um bairro periférico ou de uma cidade do interior. Ela já viveu episódios anteriores de violência – discussões que escalaram, ameaças veladas, pedidos de desculpas que prometiam mudança. Talvez tenha procurado ajuda, talvez tenha contado a uma amiga, talvez tenha permanecido em silêncio por medo, dependência econômica ou pela esperança de que a situação melhorasse.
Em uma noite comum, dentro de casa – o espaço que deveria significar proteção – a escalada da violência atinge o seu ponto máximo. O autor não é um estranho. É o atual companheiro, responsável por quase seis em cada 10 feminicídios registrados no país. Ou é o ex-companheiro, autor de dois em cada 10 casos, que não aceita o fim da relação e responde com controle e agressão. Em outros casos, é um familiar. Em apenas 4,9% dos casos o agressor era desconhecido da vítima.
A arma utilizada não é, na maioria das vezes, um instrumento sofisticado: o instrumento presente em quase metade dos casos é uma faca, machado ou canivete. Ou uma arma de fogo, muitas vezes também disponível no ambiente doméstico, guardada ali supostamente para proteção, mas que se transforma em instrumento de crime em cerca de 25% das ocorrências.
Essa cena hipotética não descreve um caso isolado. Na verdade, sintetiza o padrão observado nos 5.729 casos de feminicídio registrados pelas polícias entre 2021 e 2024. Essas mulheres foram mortas em razão da condição de sexo feminino, conforme preconiza a lei, elemento que diferencia o feminicídio do homicídio comum. E os dados revelam um retrato consistente da violência letal de gênero no país, marcado por três dimensões centrais: quem são as vítimas, quem são os autores e quais são as circunstâncias em que esses crimes ocorrem.
O perfil das vítimas evidencia desigualdades estruturais. Entre 2021 e 2024, 62,6% das mulheres assassinadas eram negras, enquanto 36,8% eram brancas. Mulheres indígenas e amarelas aparecem em proporções muito menores, com 0,3% cada. A sobrerrepresentação de mulheres negras indica que o feminicídio não pode ser compreendido apenas como violência de gênero isolada, mas como fenômeno que se inscreve na interseção entre desigualdades raciais, sociais e territoriais.

