Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 23/07/2026

20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta que os lares se tornaram ambientes mais violentos para mulheres, crianças e adolescentes; homicídios caem 8,2% na comparação com 2024

O Brasil alcançou, pela primeira vez, a meta nacional de redução dos homicídios que faz parte da Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social, revisada em 2021. Norma orientadora para a implementação do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) vigente, havia estabelecido a meta de um máximo de 16 homicídios por 100 mil habitantes para 2027. Com dois anos de antecedência, já em 2025, chegou-se a 15,4

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Fórum Brasileiro de Segurança Pública

A 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública é o retrato de um momento em que as ruas parecem menos assustadoras e os lares se tornam mais violentos para mulheres, crianças e adolescentes. O levantamento elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) aponta que o total de Mortes Violentas Intencionais (MVI), de 40.775 em 2025, caiu 8,2% na comparação ao ano anteriorA taxa é de 19,1 por 100 mil habitantes, a menor desde 2012, quando o FBSP iniciou sua série histórica. Ao longo desse período, caiu 31%No entanto, cresceram os números de violência de gênero e violência doméstica, como feminicídios, agressões, ameaças, tentativas de feminicídio, violência psicológica, descumprimento de medida protetiva, maus-tratos e lesão corporal de crianças e adolescentes, além de abandono de incapaz e subtração de criança e adolescente. 

Sete unidades federativas registraram crescimento das MVI em 2025. A liderança é do Rio Grande do Norte, que apresentou elevação de 19,6%. A seguir, três estados da região Norte: Rondônia (+7,5%), Acre (+6,3%) e Roraima (+5,8%). As demais UFs que apresentaram aumento foram Distrito Federal (+5,8%), Mato Grosso do Sul (+4,9%) e Rio de Janeiro (+ 2,1%). 

Outros crimes que apresentam queda no país: homicídios dolosos (-10%), latrocínios (-17%), roubos de veículos (-20,6%), transeuntes (-23,4%), estabelecimentos comerciais (-18,3%), instituições financeiras (-35,5%), residências (-19,9%) e cargas (-19,8%). Os registros de receptação (+3,3%) cresceram, somando 72.789 ocorrências em 2025. 

O Brasil alcançou, pela primeira vez, a meta nacional de redução dos homicídios que faz parte da Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social, revisada em 2021. Norma orientadora para a implementação do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) vigente, havia estabelecido a meta de um máximo de 16 homicídios por 100 mil habitantes para 2027. Com dois anos de antecedência, já em 2025, chegou-se a 15,4. 

Até mesmo os roubos de celulares, um dos grandes temores da população, caíram, e de forma expressiva (-18,6%): total de 308.723 ocorrências. Apenas no estado do Rio de Janeiro esse crime cresceu: (+ 19,4%). A quantidade de furtos desses aparelhos apresenta elevação: 0,9% com um total de 483.561 ocorrências. O número de aparelhos subtraídos, em 2025, permanece em patamar elevado, com um total de 830.890 unidades, o que significam 95 aparelhos furtados por hora. 

Lares mais violentos: feminicídios 

Quando se olha para os indicadores de violência doméstica e sexual, praticamente todos cresceram no ano passado. Entre esses números destacam-se os do feminicídio – crescimento de 4%: 1.571 mulheres mortas em 2025, recorde desde o início da série histórica. Entre os feminicídios com autoria identificada, 96,4% foram cometidos por homens. Do total de vítimas, 62,5% das mulheres foram mortas dentro da residência; dessas vítimas, 65,1% são negras; mais da metade (56,5%) está na faixa etária compreendida entre os 25 e os 44 anos de idade. Em 60,9% dos casos, o autor dos feminicídios é o parceiro íntimo; em 18,9%, um ex-parceiro, e, em 12,1% do total, um familiar. Houve crescimento também das tentativas de feminicídio, 5,9%, atingindo 4.189 vítimas.  

O crime de descumprimento de medida protetiva de urgência apresentou elevação significativa, de 16,7% – total de 132.025 registros. A violência psicológica é um crime que apresentou crescimento bem parecido – 16,9%. O número de casos chegou a 60.830. O stalking, considerado um fator preditivo quanto ao feminicídio, também se torna mais evidente: foram 123.871 casos no ano passado, o que significa crescimento de 30,1%. O assédio sexual cresceu 5% – foram 9.031 registros; a importunação sexual aumentou ainda mais – 5,7% – 41.425 casos no ano passado.  

“Nos últimos anos, o Anuário tem demonstrado que o local mais inseguro para as mulheres é dentro de casa. É difícil apontar uma causa específica para esse crescimento, que vem sendo registrado desde a pandemia da Covid-19. Mas uma das causas é, sem dúvida, o crescimento da machosfera e os discursos que pregam a subordinação das mulheres aos homens. Outro fator que precisa ser considerado é a pouca priorização que o enfrentamento a violência contra mulheres tem tido no orçamento público. Sem recursos humanos e financeiros não se faz política pública”, afirma Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. 

Para cada feminicídio, o Brasil registrou 2,7 tentativas de cometimento desse crime; 38,7 casos de violência psicológica; 78,8 registros de stalking; 84 casos de descumprimento de medida protetiva de urgência; 182,2 agressões físicas e 501,9 ameaças.  

Lares mais violentos: crianças e adolescentes 

O estudo mostra que o interior das residências vai se tornando mais violento para mulheres, crianças e adolescentes. Houve crescimento de 2,6% do total de agressões decorrentes de violência doméstica contra mulheres. O número de registros foi 286.270. O total de ameaças cresceu 0,5% – o número absoluto chegou a 788.531 casos.  

O crime de maus-tratos mais do que dobrou, 106,1% quando se olha desde 2021: O crescimento desde 2024 foi de 14,6%, de um total de 38.986 registros no ano passado. Quase 60% das vítimas (59,1%) tinham entre 0 e 9 anos de idade. O crescimento é constatado em todas as faixas etárias abaixo dos 18 anos: de 0 a 4 anos (+ 16,3%); 5 a 9 anos (+ 14,9%); 10 a 13 anos (+ 10,9%) e 14 a 17 anos (+ 17,2%).  

O total de vítimas de estupro e de estupro de vulnerável caiu 5,4% (84.388 casos), mas ainda permanece em um patamar elevado:  a taxa é de 39,5 por 100 mil. Entre as vítimas, 77% eram vulneráveis (menores de 14 anos); 60,3% tinham até 13 anos de idade; 27,1% tinham entre 0 e 9 anos; 87,8% são do sexo feminino; 57,1% são negras. Sobre os agressores das vítimas de 0 a 13 anos, 59,2% são familiares; 36,9% eram pessoas conhecidas. Os agressores das vítimas de 14 anos ou mais eram familiares em 30% dos casos; 29,6% eram parceiros íntimos; 9,6% eram ex-parceiros; 25,5% eram conhecidos.   

A subtração de crianças e adolescentes cresceu em mais do que 1/3 sobre a base de 2024: 33,7% – 1.866 registros. O abandono de incapazes também cresceu – 18,5% de 2024 para 2025 – 14.815 casos.  

Cresceram também os casos de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica contra crianças – 5,5% em relação a 2024, totalizando 21.811 registros.  

As leis que tipificam bullying e cyberbullying estão sendo levadas em consideração quando da elaboração dos boletins de ocorrência. Foram 4.549 registros de bullying em 2025, o que significa crescimento de 68,2% em relação ao ano anterior. Entre essas vítimas, quase a metade (48%) tinha entre 10 e 13 anos, e 45% estavam na faixa etária que vai dos 14 aos 17 anos de idade. Quanto ao cyberbullying, a quantidade de registros é menor: 677 – o crescimento foi de 61,4% de 2024 para o ano passado. Mais da metade das vítimas (57%) tinha entre 14 e 17 anos; 42% tinham entre 10 e 13 anos.

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